Correio do Minho

Braga, sábado

- +

O Natal e o maior egoísta de Braga

Como vai ser a proteção do consumidor europeu nos próximos anos

Ideias

2015-12-20 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

É comum afirmar-se que o Natal é a época do ano em que estamos mais sensíveis à partilha de bens materiais e à valorização do ser humano. É uma época que envolve no espírito da solidariedade e que não tem comparação a qualquer outra época do ano.
Existem, no entanto, pessoas que nem sempre revelam os valores da solidariedade e da partilha que esta época inspira. Para isso, irei dar aqui dois exemplos e que revelam a ausência destes valores em algumas pessoas.

O primeiro exemplo ocorreu em Lisboa, há 95 anos, e envolveu a mendiga Maria Walter. Esta senhora deslocava-se todos os dias à Cozinha Económica dos Prazeres, em Lisboa, para jantar. Todas as pessoas a tinham como uma pobre mulher, que lutava para sobreviver. No entanto, numa dessas deslocações, os funcionários dessa instituição depararam-se com um embrulho, que Maria Walter se tinha esquecido no local.

Para confirmar do que se tratava, tiveram que o abrir e, qual não foi o espanto ao encontrarem dentro três cheques no valor de mais de três mil escudos (uma enorme quantia na época) e ainda duzentos e quarenta escudos em dinheiro! Depois de confirmado, verificaram que esta grande quantia pertencia de facto à mendiga Maria Walter, a tal mulher que se deslocava diariamente à instituição para que lhe oferecessem um jantar!

O outro episódio que aqui quero referir ocorreu em Braga em 1921, um dos anos mais difíceis de toda a nossa história, quer a nível económico quer a nível social, e conta-se em poucas palavras: na primeira semana de fevereiro desse ano morreu em Braga um homem, Francisco Lopes Ferraz, conhecido por ser uma pessoa extremamente pobre.

Francisco Lopes Ferraz vivia sozinho, era solteiro e não tinha herdeiros. Toda a sua vida tinha sido marcada pela poupança extrema, pois guardava tudo o que obtinha do seu trabalho. A roupa que vestia era quase sempre a mesma, a sua dieta alimentar consistia do mais básico que havia e as condições de habitação do mais precário que se possa imaginar. Pior que isso, ele próprio pedia esmolas para a sua alimentação, sempre que tinha oportunidade para isso.

Era tão estranho o comportamento deste homem, que a própria comunicação social fez menção dele. Para o jornal “Notícias do Norte”, de 6 de fevereiro de 1921, “viveu este cavalheiro, sempre no mais sórdido egoísmo, no mais completo desprendimento pelas dores da humanidade”. Recorde-se que a população de Braga vivia, nessa época, numa profunda miséria: para além da enormíssima escassez de dinheiro para comprar bens alimentares, também os produtos necessários à alimentação básica eram quase inexistentes, e os que existiam eram logo dominados pelos célebres “açambarcadores”, para depois os venderem a preços bem mais altos, às poucas pessoas que os podiam comprar.

Perante a miséria que o rodeava, Francisco Lopes Ferraz podia revelar alguma solidariedade, como algumas pessoas o faziam em Braga, e “dar umas migalhitas para enxugar as lágrimas das mães que veem os filhos estalar de fome; podia socorrer como fazem outros que no entanto teem filhos, as casas de beneficiencia sabendo as dificuldades com que lutam as direcções; podia subvencionar o hospital, que não admite pobres devido não a roubalheiras mas ao agravamento da vida, visto a receita ser a mesma; podia, enfim, sustentar uma cantina, caso as crianças lhe merecessem algum carinho e para obstar a que saíssem da aula sem nada terem comido”.

Contrário a estes valores, Francisco Lopes Ferraz era ainda uma pessoa muito solitária e egoísta. Guardava todo o dinheiro que tinha, e nunca revelava a ninguém esse valor, pois desconfiava de todos os que o rodeavam, julgando que o queriam roubar.
Quando morreu, nos primeiros dias de fevereiro de 1921, Francisco Lopes Ferraz deixou uma fortuna calculada em 12 000 000$00 (12 mil contos), números absolutamente medonhos para a época! Contudo, nem nos últimos momentos da sua morte este bracarense se compadeceu com a miséria que o rodeava, pois apenas se limitou a legar 18 000$00 (18 contos) para obras de caridade.

No testamento, que elaborou pouco antes de morrer, este bracarense nem sequer destinou verbas para posteriormente realizarem missas pela sua alma!
Foram muitos os que se indignaram com esta forma de vida de Francisco Lopes Ferraz. A fonte, atrás referida, dava eco a esse comportamento egoísta, dizendo que “Nós, que devemos sempre respeitar os mortos, não podemos deixar de consagrar a êste, algumas palavras, para demonstrarmos quando pode o egoísmo de um homem, talvez produto do meio em que viveu, talvez mercê da sua nenhuma educação intelectual, talvez devido ao seu génio avarento, mas desculpas estas que não poderão admitir-se a quem tem de manter a mais estreita solidariedade, desde que haja meios para o fazer”.

Apesar de distantes no tempo, os exemplos da mendiga Maria Walter e de Francisco Lopes Ferraz, provavelmente o maior egoísta de Braga, são atuais, pois ainda hoje vivemos rodeados por pessoas que só se lembram da solidariedade nesta época de Natal. E outras, nem nesta época se lembram!

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho