Correio do Minho

Braga, terça-feira

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O Natal e o aumento do regimento de pobres

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Ideias

2012-12-17 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

De hoje a uma semana, a maioria das famílias portuguesas estará reunida à volta de uma mesa para festejar o Natal.

Para muitos dos portugueses este Natal e, infelizmente, os próximos, não se prevêem fáceis, devido às enormes dificuldades económicas que o nosso país atravessa. Aumentam as crianças com fome nas escolas; aumenta o número de doentes que têm que levar os medicamentos de casa para o hospital, bem como os que vêem as suas cirurgias adiadas por falta de dinheiro; aumentam os assaltos a casas, a pessoas, a empresas; aumentam os roubos a tudo o que tem valor, mesmo que seja pouco (fios de cobre, roubos em cemitérios, desvios de esmolas em locais religiosos); aumenta o número de famílias que entregam as suas casas ao banco…

Associada a esta época natalícia, a Associação Empresarial de Penafiel está a ajudar quatro trabalhadores desempregados da construção civil, pagando-lhes a módica quantia de 43 cêntimos por hora, o que totaliza 83 euros por mês. Escusado será dizer que este emprego dura apenas este mês de Dezembro!
O caminho que o nosso país está a atravessar tem atirado os portugueses para perspectivas de vida que poucos pensavam poder viver no tempo presente. A esta crise, para ser idêntica a outras épocas, bastava juntar a obrigatoriedade de prestar serviço militar e, por consequência, ser enviado para frentes de guerra coloniais.

Não desejando alongar-me muito nesta actual e triste situação, vou apresentar aqui três exemplos daquilo que os portugueses viveram noutras épocas (última do século XIX e primeira do século XX), e que todos pensávamos irrepetíveis.
A primeira ocorreu mesmo a terminar o ano de 1889, e foi retratada pelo jornal “A Correspondência do Norte” (1 de Janeiro de 1890), através de uma notícia intitulada “Deus lhe pague”. Nessa notícia, o jornal agradecia a um anónimo benfeitor o facto de ter entregue um saco com pão a uma mãe com oito filhos esfomeados. O jornal terminava dizendo que “Ella e os famintos pequenitos tiveram com esse donativo um dia de alegria”.

A segunda ocorreu mesmo a findar o século XIX (1898) e teve origem num boato. A miséria que se vivia em Portugal, com contornos ainda mais alarmantes em Braga, era de tal ordem, que as pessoas faziam tudo o que estava ao seu alcance para tentarem arranjar formas de sobrevivência.
Assim, tudo aconteceu por ocasião da missa de sétimo dia, pelo capitalista bracarense José Maria Ribeiro, na igreja de Santa Cruz. No dia anterior surgiu um boato, no qual se dizia que no final dessa missa seria distribuída a considerável quantia de 100 réis a todos os pobres que assistissem a esse acto religioso. Como a miséria era tanta, o boato foi crescendo, ao ponto de tentarem comparecer na missa mais de duas mil pessoas!

Atormentados com tamanha multidão, a família do capitalista bracarense alterou os planos e decidiu entregar o dinheiro aos párocos das freguesias de Braga, para que fossem estes a entregar o dinheiro aos pobres. Escusado será dizer que esta decisão deixou esse ‘regimento de pobres’ tristes e desesperados.

O último episódio que aqui quero apresentar ocorreu na primeira década do século XX, em pleno governo do ditador João Franco. Perante a miséria que se mantinha em Portugal, não faltava quem tentasse obter a sobrevivência através de atitudes reprováveis, como foi o que aconteceu na freguesia de S. Victor, em Braga, em 1907.
Tudo aconteceu quando Guilhermino Monteiro, de 33 anos, se dirigiu à mercearia de António Joaquim Cardoso, na rua de S. João, em Braga, e se apresentou como sendo criado de um cavalheiro que vivia na rua de S. Victor. Nessa mercearia, efectuou compras no valor de 7$000 réis, solicitando ao dono da mercearia que lhe mandasse um empregado entregar as compras na morada do “seu cavalheiro”.

O empregado da mercearia acompanhou Guilhermino Monteiro (o intrujão), até junto de uma casa da rua de S. Victor, onde entregou as compras. Mas antes de entrar, Guilhermino Monteiro pediu ao empregado de mercearia que fosse buscar ainda um cântaro de azeite e lhe trouxesse o troco de uma nota de 20$000 réis para pagar os produtos comprados, ao que o rapaz acedeu. O que ninguém imaginava era que o “intrujão” esperasse o empregado da mercearia e, no largo da Senhora-a-Branca, o obrigasse a dar o troco que trazia consigo! Conclusão: a mercearia ficou sem as compras e ainda sem 13$000 réis, correspondentes ao troco.

Estes três acontecimentos, ocorridos em Braga, espelham um passado que todos pensávamos remoto e irrepetível. No entanto, e pelos recentes dados económicos e sociais do nosso país, não admira que estes dramáticos episódios de miséria e pobreza não se voltem a repetir no nosso país. Aliás, o “regimento de pobres” aumenta a cada dia que passa.

P. S. Nesta época, quero desejar a todos que pertencem ao grupo Arcada Nova, especialmente à administração e aos elementos do Correio do Minho e da Antena Minho, um Natal repleto de paz.

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