Correio do Minho

Braga, sábado

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O Natal do Polícia Sinaleiro

O Movimento Escutista Mundial (IV)

Ideias

2019-12-22 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Daqui a dois dias irá celebrar-se a noite de Natal, altura em que os portugueses costumam trocar prendas entre amigos e familiares.
O Natal das prendas marcadas pelo simbolismo do consumo e da imagem do momento irão marcar as redes sociais: fotos, nomeadamente selfies, irão surgir na noite de Natal, numa avidez de mostrar aquilo que receberam como presente nesta noite especial.
Este momento de partilha contrasta com a época em que os portugueses eram solidários com alguns estratos sociais da nossa sociedade oferecendo-lhes, nesta altura, vários bens, nomeadamente alimen- tares, que os ajudavam a sobreviver, numa sociedade marcada pela pobreza e pela escassez de alimentos!
Quem não se lembra da altura em que os alunos entregavam à professora primária uma prenda de Natal, baseada em géneros alimentares? Arroz, massa, açúcar ou ovos eram prendas entregues a essas profissionais do ensino, outrora bem respeitadas e conceituadas na sociedade!
Quem não se lembra do momento em que os portugueses eram solidários com os pobres, organizando festas e reunindo tudo o que podiam para que as pessoas com mais dificuldades pudessem viver dias menos martirizados pela miséria e pela fome?
Quem não se lembra do momento em que os portugueses eram solidários com o polícia sinaleiro, aquele que ajudava diariamente a regular o trânsito nas cidades?
Nas primeiras décadas do século XX, o aumento do trânsito nas cidades originou uma desorganização nas principais ruas urbanas, uma vez que tudo se misturava: carros puxados por pessoas, bicicletas, carros de bois, cavalos, automóveis e outros veículos a motor, circulavam de forma desorganizada, provocando muitas vezes o caos.
Foi neste sentido que surgiu a necessidade de organizar o trânsito nas cidades, tendo o polícias sinaleiro ficado com a incumbência de gerir o trânsito nas principais artérias urbanas.
Estes eram, geralmente, de origem humilde, e deparavam-se frequentemente com problemas de afirmação social, pois na altura os proprietários de automóveis eram geralmente pessoas abastadas, que não aceitavam com facilidade as ordens oriundas de um polícia de baixa condição social!
Foi neste contexto que, a partir de 1932, surgiu o “Natal do Polícia Sinaleiro”, organizado pelo Automóvel Clube de Portugal, e marcado pelas dádivas de pessoas, sendo, para o intendente Luís Guerra, “uma forma de calar os polícias e reduzir as multas".
Numa época em que os sinais de trânsito eletrónicos estavam ainda muito longe de serem implementados, a circulação era regulada por um polícia sinaleiro que, no meio de uma rotunda, em cima de um pequeno palanque, com capacete e luvas brancas, regulavam o trânsito.
Esta campanha solidária para com os polícias sinaleiros teve a sua origem numa iniciativa do Automóvel Clube Português, que solicitava o apoio de empresas, para que todos contribuíssem para um Natal melhor para estes polícias e para as suas famílias. Era uma altura em que os populares, e até os comerciantes, prestavam homenagem a estes simpáticos homens, que desempenhavam um importante papel na regulação do trânsito e na segurança das pessoas.
Em Braga, estas iniciativas foram dinamizadas pelo Aero Club de Braga, que se responsabilizava pela angariação de bens e de dinheiro para os polícias sinaleiros.
O Natal do Sinaleiro era demasiado publicitado, quer através de cartazes afixados nas lojas, quer através de anúncios e notícias de jornais. O jornal “Correio do Minho”, de 29 de dezembro de 1935, referia que “Como temos anunciado, é na próxima terça-feira que se realiza nesta cidade, por iniciativa do Aero Club de Braga, o «Natal do Sinaleiro», interessante festa de homenagem aos ditadores do transito público”.
Em Braga, no ano de 1935, o Natal do Polícia Sinaleiro realizou-se a 31 de dezembro. Nesse dia foram colocados, para a recolha de bens alimentares, cestos enormes, em locais específicos: uns em frente ao, então, edifício do Banco Pinto e Sotto Maior (na Praça da República) e outros em frente à Pastelaria Benamor (junto ao Largo Barão de S. Martinho). Aí foram oferecidas galinhas, coelhos, leitões, ovos, bacalhau, farinha, arroz ou massa. Para além das ofertas materiais, os bracarenses também presenteavam o sinaleiro com bastantes donativos em dinheiro.
O Natal do Sinaleiro não se realizou durante o período em que ocorreu a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) realizando-se nos anos seguintes, até 1953. A partir deste ano, os responsáveis pela Polícia entenderam terminar esta prática, pois reconheciam que os polícias não deveriam receber estas prendas natalícias, já que dessa forma eram vistos como pessoas carenciadas e até, possivelmente, corruptíveis!
Termino este texto desejando a todos um Feliz Natal e um ano de 2020 marcado por saúde e paz.

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