Correio do Minho

Braga, sábado

O mundo em que não quero viver

Investir em obrigações: o que devo saber?

Ideias Políticas

2016-04-19 às 06h00

Carlos Almeida

As notícias e imagens que nos chegam de vários pontos do globo não podem deixar de me tirar o sossego. Nos dias de hoje, parece não haver espaço ou tempo para a paz. E o problema maior é que parece já nem ser necessária uma declaração de guerra para que a paz deixe de ter lugar. Não só de armas se fazem os ataques, embora, em muitos casos, estes continuem a representar a maior ameaça para milhões de cidadãos.

Veja-se, a título de exemplo, mas sobretudo pela dimensão catastrófica que vem assumindo, o resultado das intervenções militares no médio oriente e no norte de África. Quantos já perderam a vida? Quantos, dos que decidem não fugir, estão condenados à morte? Quantos, dos que deixaram tudo para trás, estão condenados à fome, ao frio, à doença e à violência?

Perante isto, qual é a resposta que a sociedade civilizada tem para dar? Face ao terror que milhões de pessoas enfrentam diariamente, qual é a solução apresentada pela Europa do “progresso” e da “solidariedade”? Cerrem os portões! Fechem as fronteiras! Devolvam-nos à procedência!

Que mundo é este que finge não ver a injustiça e a violência? Que governantes são estes que falam de planos para resolver o “problema” dos “migrantes” como se de um jogo de casino se tratasse? “Quanto ganho com isso?; ” E tu quanto dás?”; “Quais são as contrapartidas?” - são as suas verdadeiras motivações. Nada mais os move.

No entanto, não deixam de figurar nas televisões nas visitas a campos de refugiados, com a lágrima no canto do olho. Hipocrisia, é disso que se trata, de uma Europa fracassada no plano moral, é certo, mas muito mais ainda no plano político. Desengane-se pois quem julga que esta é apenas uma crise de valores. É muito mais do que isso. É a crise do capitalismo e da sua inerente política expansionista. É a crise de um modelo desgastado que apenas tem aprofundado as desigualdades e o empobrecimento.

Em simultâneo, do outro lado do atlântico, chegam-nos surreais acontecimentos. No Brasil, a Presidente legitima e democraticamente eleita pelo povo acaba de ser destituída do cargo no seguimento de um golpe perpetrado por aqueles que nunca aceitaram o resultado eleitoral. Fazendo uso dos grandes meios de comunicação, organizaram uma campanha suja em que lançaram sobre Dilma Rousseff, a pretexto da bandeira da corrupção, acusações a que esta nunca esteve exposta. Pelo contrário, no seu lugar querem colocar os maiores corruptos e criminosos do Brasil.

Note-se que o que está em causa também no Brasil não é apenas uma campanha contra a sua Presidente, mas toda uma acção orquestrada pelas forças mais conservadores e reacionárias para pôr fim ao processo que, mesmo com muitas contradi. ções, tem levado melhores condições de vida ao povo brasileiro, garantindo uma mais justa distribuição da riqueza, acesso à saúde, à educação e protecção social. Coisas que milhões de brasileiros desconheciam. E é isso que incomoda a oligarquia brasileira - o avanço no plano dos direitos socias e laborais, a ameaça às suas “intocáveis” fortunas.

Ficam aqui dois exemplos de situações muito diferentes entre si, mas que têm em comum a subjugação da paz dos povos aos interesses económicos de minorias que julgam controlar o mundo e que dele querem continuar a fazer um espaço desigual, injusto, em que uns poucos exploram todos os outros.
Cabe-nos, enquanto cidadãos deste mundo, decidir se é isto que queremos, seja no Brasil ou no médio oriente.

Cabe-nos ficar sentados a assistir aos contos de fadas que nos vendem nas televisões, ou então tomar partido. Decidir de que lado queremos colocar, expressar a nossa solidariedade e tomar parte activa numa luta que se faz todos os dias. Uma luta por um mundo melhor. Aquele em que quero viver.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias Políticas

11 Dezembro 2018

Cultura plena

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.