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O Movimento Escutista Mundial (II)

A escola no pós-pandemia

O Movimento Escutista Mundial (II)

Escreve quem sabe

2020-11-06 às 06h00

Carlos Alberto Pereira Carlos Alberto Pereira

Na senda anunciada das últimas crónicas, continuarei a fixar a atenção na definição de “Movimento Escutista” na constituição mundial do mesmo. Hoje, focar-me-ei no número dois do artigo primeiro que define a finalidade do escutismo da seguinte forma: «O Movimento escutista tem por finalidade contribuir para o desenvolvimento dos jovens ajudando-os a realizarem-se plenamente no que respeita às suas possibilidades físicas, intelectuais, afetivas, sociais e espirituais, quer como pessoas, quer como cidadãos responsáveis e quer, ainda, como membros das comunidades locais, nacionais e internacionais.»
Este enunciado sublinha o caráter pedagógico do movimento, alicerçado nos princípios educativos estabelecidos pela Escola Nova, no Congresso de Calais, realizado em 1921, visando a total realização das capacidades da pessoa para que viva em harmonia: com ela própria, os outros seres humanos, com a natureza e com Deus. Este quádruplo relacionamento será sempre um espaço de cidadania, onde a liberdade “será o ar que se respira”, a psicologia e o primado da criança e do jovem as linhas mestras do processo educativo que se desenvolverá em quatro áreas de desenvolvimento pessoal: físico, afetivo, caráter, espiritual, intelectual e social (esta ordem que utilizamos no CNE permite construir a sigla FACEIS facilitando, desta forma, a sua enumeração). Estas áreas têm de ser todas trabalhadas, podendo ter ritmos diferentes, por forma a valorizar a pessoa no seu todo, visando o desenvolvimento harmonioso de crianças e jovens.
Convém ter bem presente que o movimento escutista se afirma como sendo uma, e apenas uma, entre muitas instituições de educação formal, não formal e informal, que contribuem para o desenvolvimento de crianças e jovens. Não tendo, por consequência, nem o objetivo, nem a intensão de substituir a ação da família, da escola, das instituições religiosas e de tantas outras instituições sociais. Ele foi concebido para ser um complemento ao impacto pedagógico destas instituições.
Também é importante sublinhar que a noção de cidadão responsável não pode ser isolada de um conceito mais vasto. Assim, uma pessoa é, antes de tudo, um ser individual que está inserido na sua comunidade local, paróquia e freguesia, que, por sua vez, faz parte integrando de outras comunidades político-administrativas e religiosas, os municípios e as dioceses, sendo estas englobadas num país, um estado soberano de caráter federal ou unitário, que muitas vezes integra algumas instituições de caráter regional ou mundial (União Europeia ou Organização das Nações Unidas, por exemplo).
Enquanto cidadão responsável, deve ter consciência dos direitos e obrigações relativamente a estas diferentes comunidades a que pertence. Baden-Powell, no “Escutismo para Rapazes”, no capítulo IX, dedicado aos nossos deveres de cidadão, diz-nos: «Todo o escuteiro deve preparar-se para ser bom cidadão do seu país e do mundo. Para isso deveis começar, enquanto novos, a considerar todos os rapazes vossos amigos. (…) Lembrai-vos também de que o escuteiro não é apenas amigo dos que o cercam, mas “amigo de todo o mundo”. Os amigos não lutam entre si. (…) Como escuteiros, ingressais num grande exército de rapazes de muitas nacionalidades e tereis muitos amigos em todos os continentes. (…) Os escuteiros de todo o mundo são os embaixadores da amizade, que se dedicam a criar amigos e a abater barreiras erguidas pela cor, credo e classe social.» Esta Fraternidade Mundial, criada por Baden-Powell, a sonhar com a construção de um mundo melhor, impregnado pela vivência da paz, temática que marca de forma indelével a finalidade do escutismo, sobretudo depois das duas guerras mundiais. O fundador queria que o escutismo fosse um verdadeiro instrumento para a construção da paz, assim o afirma no discurso de abertura da Conferência Internacional da Kandersteg, Suíça, publicado na revista Jamboree, do mês de outubro de 1926: «A paz não pode ser garantida unicamente por interesses comerciais, alianças militares, desarmamento geral ou tratados recíprocos, a menos que o espírito de paz esteja presente na mente e na vontade dos povos. Isto é uma questão de educação» ou ainda, na mesma revista, mas de outubro de 1921: «Como Deus deve rir-se perante as pequenas diferenças que nós, homens, erguemos entre nós sob a camuflagem da religião, da política, de patriotismo ou de classe, esquecendo-nos do maior de todos os laços – o da Irmandade da Família Humana!». Interessante como, em outubro de 2020, exatamente noventa e nove anos depois, o Papa Francisco publica a Carta Encíclica Fratelli Tutti (Todos Irmãos) sobre a Fraternidade e a Amizade Social, dando, desta forma, ainda mais atualidade à finalidade do escutismo.

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