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O morto de Tebosa que ninguém queria enterrar

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O morto de Tebosa que ninguém queria enterrar

Ideias

2020-11-15 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Será muito difícil encontrar na freguesia de Tebosa algum cidadão que tenha sido tão controverso como Maximiano Soares Ferreira.
Ao longo dos seus 55 anos de vida, Maximiano envolveu-se em muitas polémicas, quer em Tebosa, quer nas freguesias vizinhas. Essas polémicas sentiram-se até nos seus últimos dias de vida e, inclusive, nas exéquias fúnebres.
Com um percurso de vida intenso, Maximiano gostava de ter uma intervenção política reconhecida por todos, o que contribuiu para as muitas inimizades. No “Commercio do Minho”, de 5 de setembro de 1903, vem um relato de alguns momentos da vida de Maximiano Ferreira, referindo-se que “O Maximiano tinha em Tebosa vários inimigos, alguns dos quaes de preponderância politica, que lhe promoviam desde há muito uma perseguição tenaz, procurando envolvel-o em diversos crimes de nomeada que se deram nas freguesias imediatas”.

As queixas contra Maximiano foram uma constante ao longo da sua vida. Por várias vezes esteve preso, quer no Comissariado da Polícia, em Braga, quer ainda na própria Cadeia de Braga. Contudo, em todos os momentos não foi possível apresentar qualquer prova dos ilícitos imputados a Maximiano.
Os seus últimos dois meses de vida foram passados em casa, na cama, pois estava gravemente doente. Contudo, até nesse momento os seus inimigos não o deixavam sossegado. No início de julho de 1903 “alguém entrára de noite em sua casa, chegando a agredi-lo no leito, pois lhe foi feito um ferimento no rosto com instrumento cortante”. Apesar de ter apresentado queixa na Polícia, de nada lhe valeu, pois não foi efetuado qualquer procedimento que condenasse o agressor.

A onda de desprezo por Maximiano sentiu-se durante a sua vida, mas também no momento da sua morte. Assim, na quarta-feira, dia 2 de setembro de 1903, Maximiano Soares Ferreira encontrava-se num estado de saúde de tal gravidade, que tiveram de chamar o médico Joaquim de Magalhães, não tendo este atempadamente visto o doente ainda com vida. Antes do médico, chegou o pároco de Tebosa, que ainda foi a tempo de lhe ministrar a “extrema-unção”.
A morte de Maximiano gerou uma enorme suspeição em Tebosa, pois desconfiava-se que este tinha ingerido, por sua iniciativa, ou por intermédio de outra pessoa, algum veneno.
Uns diziam, em Tebosa, que Maximiano tinha um grande desgosto por uma filha ter fugido para o Porto. Desesperado, partiu para a cidade invicta, chantageando-a, dizendo-lhe que se esta não regressasse a casa o pai cometeria uma fatalidade. De seguida, mostrou à filha “um envolucro com pós, que disse tomar, morrendo violentamente, se ella o não acompanhasse”.

Outras pessoas afirmavam, na freguesia, que o eventual veneno causador da morte de Maximiano resultava do receio deste responder perante as autoridades, que lhe moveram um processo por roubo, que não tinha cometido.
O certo é que a desconfiança gerada em torno de um eventual envenenamento foi transmitida pelo médico Joaquim de Magalhães ao delegado do Ministério Público, que tomou os necessários procedimentos para que fosse efetuada a autópsia.
O Juiz de Direito de Braga solicitou ao administrador do concelho de Braga que este informasse e o regedor de Tebosa da necessidade de se proceder à autópsia de Maximiano, e para isso teria que transportar o defunto até à morgue do Hospital de S. Marcos, em Braga.
Expedito, o regedor de Tebosa convidou um lavrador para o transportar, no seu carro de bois, tendo este recusado. O mesmo aconteceu com um segundo lavrador e ainda com um terceiro. Todos recusavam transportá-lo, mesmo depois de morto!

Às 10 horas da manhã do dia 4 de setembro de 1903, quando os peritos médicos e magistrados judiciais já se encontravam na morgue do Hospital para efetuar a autópsia, foram informados que de Tebosa não havia ninguém disponível para transportar o cadáver de Maximiano!
As autoridades decidiram então mandar à freguesia o carro funerário do próprio Hospital, com a finalidade de transportar o cadáver para ser autopsiado, com nova hora marcada para as 16 horas desse mesmo dia.
Mais uma vez ninguém, em Tebosa, mostrou disponibilidade para transportar o corpo de Maximiano, da sua residência, para o carro funerário, trabalho que acabou por ser feito pelo próprio pároco da freguesia!
Às 16 horas foi iniciada, finalmente, a autópsia de Maximiano, na presença de Gustavo Brandão, Juiz de Direito; Pereira da Silva, delegado do Procurador Régio; Durval da Mota Belo e Custódio, peritos de medicina legal; o escrivão Teles de Menezes e ainda os médicos Joaquim de Magalhães e Veríssimo Guimarães.

Os peritos de medicina legal foram unânimes em concluir que a morte de Maximiano não ocorreu de forma natural, tendo causado “estranheza o estomago, onde havia qualquer coisa de anormal, que só o exame toxicológico poderá evidenciar”. De seguida as vísceras de Maximiano foram colocadas em frascos e enviadas ao Laboratório Químico, no Porto.
Após a autópsia, o corpo foi devolvido a Tebosa, para serem efetuadas as normais cerimónias fúnebres. No entanto, mais uma vez a indignação tomou conta da população, pois ninguém se mostrou disponível para tratar do funeral “havendo até quem barafustasse contra a sepultura dos restos mortaes do finado na egreja parochial, onde jazem, á falta de cemitério, os demais parochianos extintos”.

No final de novembro de 1903, quase dois meses após o funeral de Maximiano, o Tribunal de Braga recebeu o resultado do exame toxicológico realizado pelo conselho médico-legal às vísceras de Maximiano Soares Ferreira, tendo concluído que não encontrou qualquer indício de envenenamento, caindo então as suspeitas de suicídio ou qualquer tipo de crime.
Contudo, nada limpou a imagem de Maximiano, de Tebosa, um dos mais controversos cidadãos da freguesia.

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