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Braga, quarta-feira

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O morto de Famalicão que veio gastar a fortuna a Braga

Plano, Director e Municipal …

Ideias

2017-12-10 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

O fenómeno da emigração tem sido recorrente no nosso país desde o tempo dos Descobrimentos. São inúmeras as pessoas que procuram um futuro melhor noutros locais. Enquanto nos séculos XX e XXI o destino dos que partiram é, maioritariamente, os países europeus, na segunda metade do século XIX o destino preferencial dos portugueses era o Brasil.

O Brasil era, na altura, o destino predileto para milhares de portugueses, não só pelo facto de ter sido uma colónia portuguesa, que se tornou independente em 1822, por se falar a Língua Portuguesa, por ter muitos costumes semelhantes aos nossos, por professarem a mesma religião que a nossa, mas também por ser um país com uma área geográfica enorme e oferecer muitas oportunidades de emprego.

Do Minho foram milhares os que embarcaram com destino a esta ex-colónia portuguesa. Alberto Pimentel, em “Espelho de Portugueses” (1901), retrata bem esta conjuntura, ao afirmar que “Eu vi muita vez, na Foz do Douro, saírem iates e barcas que levavam a seu bordo centenas de rapazes do Minho (…). Os emigrantes eram tão numerosos que toda a gente tinha pelo menos um brasileiro na família e as heranças eram tão importantes, que frequentemente chegavam para enriquecer os herdeiros e os intermediários”.

Foi o que aconteceu com João da Costa, da freguesia do Louro, concelho de V. N de Famalicão, que embarcou para o Brasil em 1907, à procura de um futuro mais promissor. Tinha então 29 anos. Depois das naturais dificuldades de adaptação ao clima e ao país, João da Costa foi desenvolvendo uma atividade na área da carpintaria, conseguindo ganhar uma considerável fortuna, fruto do seu trabalho árduo e da poupança permanente.

Como era frequente na altura, muitos dos portugueses que iam para o Brasil deixavam de dar noticias aos seus familiares que se encontravam em Portugal. Foi o que aconteceu com este famalicense, chegando mesmo a notícia aos seus familiares do Louro que João Costa tinha falecido. Apesar de não o conseguirem confirmar, a família reuniu-se e decidiu repartir entre si todos os bens que João Costa tinha.
Contudo, em janeiro de 1928, João Costa regressou a Portugal causando um embaraço quer na sua família quer na freguesia do Louro, de onde era natural, pois todos o julgavam já falecido. Este permaneceu na freguesia do Louro durante os meses seguintes, mas sempre desconfiado dos familiares e dos vizinhos, pois temia que estes lhe roubassem o dinheiro que tinha.

Em julho desse ano resolveu instalar-se em Braga, na casa de Maria Joaquina Rodrigues, uma casa de má fama, situada no Largo de S. Paulo.

Quando aí chegou, João da Costa trazia consigo todo o dinheiro que tinha, receoso de que alguém o roubasse. A quantia, de 19 mil escudos, era de tal ordem elevada, que João Costa pediu a Maria Rodrigues que lhe guardasse todo esse dinheiro.

Esta situação invulgar foi aos poucos conhecida pela população bracarense, que comentava o comportamento de João Costa, pois este mantinha hábitos de grande simplicidade, mas gastava quantias avultadas na casa onde estava alojado.

Tal situação acabou por chegar ao conhecimento da polícia que, uma semana depois, resolveu inteirar-se das razões que levavam este homem misterioso a gastar tanto dinheiro, em Braga. O chefe da Polícia de Investigação Criminal, Augusto Lobo, de forma disfarçada, passou então a frequentar a casa de Maria Rodrigues e analisar o comportamento de João Costa.

Uma semana depois, quando João Costa se preparava para regressar a Famalicão, o referido chefe interrogou-o, tendo este confirmado que tinha com ele 19 mil escudos e que os entregou à guarda de Maria Rodrigues, proprietária da casa onde estava alojado. Ao ir-se embora, a proprietária apresentou-lhe o valor da despesa que este tinha feito durante uma semana, de 5 000 escudos! Perante esta enorme quantia, o chefe da Polícia exigiu o detalhe das despesas, tendo Maria Rodrigues dito que se tinha enganado na faturação e que afinal o valor era menos de metade.

Os 5 000 escudos que Maria Rodrigues apresentou a João da Costa davam para comprar, sensivelmente, 20 000 kg de carne de gado bovino; 20 000 litros de azeite e 20 000 litros de vinho!

Devido a este abuso, o chefe da Polícia informou a proprietária da casa de prostituição que esta teria que responder perante a Justiça. Mas, colocado a par desta situação, João da Costa resolveu perdoar o abuso de Maria Rodrigues, pois dizia que confiava plenamente na senhora! Como prova da confiança total que depositava na proprietária da casa, este famalicense informou ainda o chefe da Polícia que iria confiar todo o dinheiro que lhe restava (13 825$50) a Maria Rodrigues!

Este caso, que foi muito comentado em Braga e em Famalicão, ficou conhecido como o vivo que era morto mas que afinal estava vivo, e que confiava mais na proprietária de uma casa de má fama, do que na sua própria família!

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