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Como vai ser a proteção do consumidor europeu nos próximos anos

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Ideias

2019-11-10 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Dado à morte, sem o primeiro dos gestos de amor e boas-vindas. Feto-embalagem-descartável de soluto vazio, que triste criatura por desgraça absorveu. Semente que em ermo de desvalidos germina, em terra-mãe depauperada, por impulso de um destino que queremos que lhe assista, passada a provação, por força de um apelo melancólico à maternidade, dialogado em segredo, e renegado no último, fatal instante: «Tive-te durante nove meses, ou sete ou cinco – aqueles em que te soube em mim – para não te querer daqui para a frente.» – poderia a mãe-monstro ter dito, nos negrumes despedida.
«Não te matei antes, para te matar agora: some-te, maldição!». Quão desinformada estaria a moça das possibilidades legais de abortar? Já seria tarde para o efeito, quando se consciencializou da gravidez? Consciencializou!? Quão desinformada estaria a jovem para as possibilidades de levar a termo a gravidez, apoiada num refúgio, prescindindo legalmente do gerado, e regressando, se o quisesse, se outra sorte não tivesse, a vidas de vagabunda, que de vida nada têm?
A mulher! A mulher é o hediondo sujeito da acção. E mulher é, de facto. Embora ninguém nos reprovaria se a designássemos por jovem. Quantas das nossas filhas de 22 anos nós qualificámos como “mulher”? Quanta responsabilidade não recai a mais na “mulher”, que atenuada fica na “jovem”?
Desengane-se, quem julga que vergo a vara, para dar a verduga por vítima. Raramente invoco o título profissional que nesta caixa se ostenta, que é opa que já não visto, e nem sei se a enverguei de modo a bem poder orgulhar-me. Saiba quem lê, que me ponho rente ao chão, e que desse nível procuro raciocinar. Há a Lei, e a Lei penalizá-la-á. Antes da Lei, e depois da Lei, há toda a repulsa que experimentamos por um acto abominável. E depois, fora das contas que nos convêm, há a erosão de tudo. Há um corpo sem alma, um corpo de alma silenciada para poder subsistir como corpo, sem perspectivas, sem esperanças, sem consolo. Diz, a Psicologia que existe, que camada sobre camada se constrói a competência de uns e o malogro aberrativo de outros.
Quem a conhecia? Quem lhe terá proposto bons caminhos, que ela por marginal soberba recusou? Explique, quem souber, porque é que a rapariga não procurou ajuda, com tanto que corre de boca em boca sobre casais ansiosos por adoptar, de preferência à porta da maternidade? De nada ela estava a par? Chiça! Então é atoleimada, como não há memória nos anais.
Miséria social – sociedade de misérias. Onde esteve a jovem aos dez anos de idade? Aos quinze, aos vinte? Resvalou em plano inclinado aos olhos de quem lhe voltou a cara? À vista de quem a considerou dispensável, uma espécie de beco que afunila e se afunda em si? Não, de heroína luminosa nada ela tem, mas quanta determinação não lhe inscreveríamos, se quiséssemos ponderar uma gravidez que é levada em trevas, para culminar num parto solitário, num pariu e andou, que não envergonharia nenhuma das vénus primevas?
Que méritos na sua educação e formação podemos nós invocar? Vivemos sob o estigma auto-induzido da pequenez lusitana, e pequenos nos fazemos de cada vez que alimentamos a desqualificação daqueles que escolhemos para que fiquem pelo caminho, em relevo da meritocracia do apelido e vantagens afins. Por ninguém que se perca, pode a Sociedade lavar as mãos. Muito menos se jovem for. Comenta, quem a deteve, que não indicava abuso de substâncias que assimilamos a hábitos degradados.
Bons pais, para o catraio. Juízes benévolos para a jovem.
Que pena me dás!

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