Correio do Minho

Braga, quarta-feira

O Mistério do Avião desaparecido

O que nos distingue

Ideias

2014-04-06 às 06h00

Carlos Pires

Nos nossos dias, a humanidade, cheia de admiração ante as próprias descobertas e poder, debate, porém, muitas vezes, com angústia, as questões relativas à evolução atual do mundo, ao lugar e missão do homem no universo, ao significado do seu esforço individual e coletivo, enfim, ao último destino das criaturas e do homem”.

1. Era com este excerto da encíclica “Gaudium et Spes” (“Alegria e Esperança”), saída do Concílio Vaticano II e assinada pelo Papa Paulo VI, em 1965, que iniciava a minha sebenta de “Introdução ao Estudo do Direito”, disciplina do ano propedêutico do Curso de Direito da Universidade Católica de Lisboa, no qual eu acabara de ingressar (1986).
Nunca mais esqueci a força daquelas palavras, simples mas tão cheias de conteúdo, e reconheço o importante papel que tiveram na minha visão do mundo e dos acontecimentos, naquela especial década em que Portugal, em virtude da assinatura do Tratado de Adesão à então chamada CEE, ora União Europeia, em Junho de 1985, iniciava mudanças estruturais, incluindo desenvolvimentos, tecnológicos, sociais e outros, que indiciavam um notório incremento da qualidade de vida das pessoas.
Contudo, tal como alertava o texto da encíclica, a evolução traz acoplados a si diversos riscos e problemáticas que antes não existiam. O grau de admiração ante as descobertas é diretamente proporcional ao grau de angústia ante os novos desafios: não tenhamos ilusões! E esta parece ser uma verdade insofismável, comprovada nas décadas seguintes, até aos nossos dias. Em Portugal e no resto do mundo.


2. Vêm estas cogitações a propósito do (misterioso) desaparecimento de um avião, um Boeing 777-200 das linhas aéreas da Malásia, no passado dia 8 de Março, que levava 239 pessoas a bordo e que fazia o percurso Kuala Lampur - Pequim (voo MH370).
Caro(a) leitor(a), já teve a oportunidade de viajar de avião? Os aeroportos são locais únicos, onde pululam equipamentos informáticos e eletrónicos (antenas, radares, computadores) que não vemos no quotidiano. Certo? Lembre as inúmeras regras que é obrigado a respeitar, as rígidas barreiras de segurança que tem de travessar até chegar à porta de embarque, sujeitando-se por vezes ao incómodo “apalpanço” porque, v.g., esqueceu de retirar o relógio ou o cinto e com isso fez ecoar as sirenes do detetor de metais. E já no interior do avião? Impiedosos olhares dos assistentes de bordo não perdoam qualquer falta - v.g. a colocação do cinto ou da bagagem.
Todo um aparato, validado por uma aparente, sofisticada e ultra futurista tecnologia, que sempre nos fez acreditar que nada poderia falhar. Certo? E, mesmo quando algo corre mal (situação altamente improvável naquilo que dizem ser o transporte mais seguro do mundo!), é desencadeada toda uma panóplia de diligências, assentes nos registos, destinadas à obtenção de uma cabal explicação para o sucedido. Que sempre tem surgido.
Passou 1 mês. Continua o desaparecimento do avião sem qualquer resposta objetiva e comprovada. Os peritos não conseguem apontar com precisão o que se passou, admitindo, como provável, qualquer das teses em confronto - ataque terrorista, suicídio do piloto, avaria, acidente -, nem tão pouco certezas possuem quanto à localização da aeronave. Terá caído algures no Indico? Ou estará escondida não-se-sabe-onde? Os familiares das pessoas que seguiam naquele avião não se conformam e clamam, justamente, por uma resposta. Como é que é possível, na era da informação, que nenhum satélite ou radar contenha um mínimo registo que permita seguir, com fieldade, o rasto daquele avião?
O mistério do voo MH370 vai para sempre deixar-nos na memória de que a tecnologia é falível. Este episódio, que tem compreensivelmente captado a atenção de líderes e “media” mundiais, não se reconduz, quanto a mim, ao campo “stricto sensu” da aviação. Na verdade, é sintomático das fragilidades globais da vida humana contemporânea, não obstante esta apresentar-se revestida de (cada vez mais complexa) técnica e ciência - de que é flagrante exemplo o moderno ecossistema das viagens internacionais.
A insegurança é afinal a maior multinacional do mundo? Esta é a grande questão que, com angústia, hoje se coloca ao Homem (e à Tecnologia).

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