Correio do Minho

Braga,

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O milho e o burro do moleiro

Como vai ser a proteção do consumidor europeu nos próximos anos

Ideias

2018-09-30 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Quem percorre por estes dias a região do Minho depara-se com localidades repletas de riquezas agrícolas e com uma azáfama de trabalhadores na colheita destes produtos.
Apesar da evolução do mercado, que oferece ao longo de todo o ano produtos alimentares típicos de uma época exclusiva, o certo é que não há nada que se compare aos produtos frescos, produzidos numa região tão rica, como é o caso da nossa.
Não querendo aqui debruçar-me sobre os vários produtos desta época de colheitas, vou sucintamente recordar a importância que o milho teve e tem ainda para esta região. Para termos uma ideia, em 2011 existiam 67.000 explorações distribuídas por todo o país! Esta elevada quantidade de explorações justifica-se pela enorme riqueza nutricional deste cereal, que está num patamar elevado na alimentação, quer dos homens, quer dos animais.
Até há apenas uma geração, os campos no Minho eram a base do sustento económico das populações. Não admira, por isso, que esta época de colheitas mobilizasse grande parte das populações, que se entreajudavam na recolha de produtos agrícolas, como é o caso do milho.
Nos campos, ao som de cantares regionais, os homens, as mulheres e as crianças cortavam as canas do milho, traziam-nos em carros de bois para as eiras, retiravam as espigas e colocavam-nas em cestos de verga. O milho, cujo termo advém do numeral “mil” uma vez que as espigas possuem uma enorme quantidade de grãos, era então espalhado na eira e aí ficava a secar enquanto as chuvas não chegavam.
As desfolhadas, frequentes nesta altura do ano, funcionavam também como um momento de convívio de gerações, aproveitando para cantarem em grupo, mas também comendo o pão de milho, as sardinhas, o presunto regados de um bom vinho! Era nestes momentos que as pessoas mais velhas transmitiam aos mais jovens as suas histórias de vida, a dos seus pais ou avós, mantendo-se desta forma uma cultura popular tão típica da nossa região.
Por outro lado, os jovens participavam com alegria nestes encontros, procurando de entre as espigas uma que fosse vermelha, o milho-rei, que depois de encontrada dava direito a cumprimentar todos os presentes. Era também nas desfolhadas que muitos jovens aproveitavam para ficarem mais próximo das raparigas, resultando desses momentos muitos casamentos.
O milho era de tal forma importante para a economia das populações, nomeadamente para as freguesias que nos circundam, que na altura em que o milho estava nas eiras e, por isso, de mais fácil acesso a estranhos, alguns homens dormiam ao relento, durante a noite, bem próximo da eira e bem amados!
A preocupação com este cereal era de tal modo grande que os espigueiros tinham uma função primordial na sua secagem. Construídos em pedra e madeira, estavam numa posição elevada do solo para impedir que os roedores ou as aves devorassem estes preciosos grãos!
Os espigueiros traduziam, também, a riqueza de uma casa agrícola ou de uma região. Em Carrazedo, freguesia de Bucos (Cabeceiras de Basto), existe ainda um espigueiro, construído em 1853, de 29,40 metros, e onde podiam ser armazenados 30 carros de milho! Este espigueiro, considerado o maior de Portugal, demonstra a imponência da casa agrícola que o acolhia!
Depois de secos, os grãos de milho eram colocados em sacos e transportados ao moleiro mais próximo. Muitos recordar-se-ão de histórias de infância vivenciadas, ou de narrativas transmitidas pelos nossos pais ou avós, da existência de burros que transportavam os sacos de milho ao moleiro mais próximo. A expressão “burro do moleiro”, também muito conhecida em Trás-os-Montes, era bem caraterística desta região!
As freguesias que são atravessadas pelo rio Este tinham um ou mais moleiros, cuja função primordial era moer os grãos de milho! Muitas pessoas, não tendo dinheiro para o pagar, entregavam ao moleiro uma percentagem de milho, como forma de gratificação pelo trabalho prestado pelo moleiro!
Com os sacos de farinha em casa estava garantida uma importante percentagem da alimentação destas populações, pois o pão que daí advinha podia ser consumido durante vários dias, em muitos casos mais de uma semana!
Com a evolução da nossa sociedade e da nossa economia, todas estas tradições poderão perder-se com o tempo, embora a procura de espigueiros seja intensa por aqueles que querem embelezar o jardim de suas casas. Atualmente, a colheita do milho, na forma original, constitui uma atração turística realizando-se, nesta altura do ano, festas relacionadas com esta tradição.

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