Correio do Minho

Braga, quarta-feira

O menino que não conseguia acabar o texto

O que nos distingue

Conta o Leitor

2011-07-07 às 06h00

Escritor

Por Victor Gonçalves

Era uma vez um menino que não sabia como começar um texto, mas que normalmente o conseguia. O problema estava sempre no fim, aquela ideia que resuma tudo para trás num arremesso de poucas palavras. Não conseguia acabar um texto com aquela frase arrebatadora que muitas vezes substitui toda a genialidade do que foi escrito antes. Escrevia coisas que o faziam corar de vaidade, e soltava risinhos abafados e contentes no escuro, roubado à totalidade por um computador enfiado a um canto, onde o menino se debruçava para um teclado que, se fosse preciso, mudaria o mundo. Mas o menino não queria mudar o mundo. Nem queria nada. Chegava ao fim e não tinha chegado o fim. O dom parava onde os mediamente inteligentes conseguem grandes feitos: no fim de um texto. Aí, sem mais nada, o menino acabava sem acabar. Começava uma fr. Ase sem ter acabado a outra. Perdia-se e não chegava a feito nenhum.
Era uma vez um menino muito novo, talvez não menino mas de certeza muito novo, que sentia as palavras passarem-lhe à frente dos olhos, mesmo ali, quer dizer talvez não passassem à frente mas sim atrás, como se o menino muito novo a virar rapaz visse para dentro de si e tivesse acesso às palavras que descreviam a sua própria existência. E então via-se débil, sugado por tristezas, vícios, egocentrismos, moleza, amor, diferença, arte, anseio, Paris, Lisboa, vida, pessoas. E as palavras continuavam assim, a passar-lhe por dentro, com letras gastas e como se tivessem sido escritas numa máquina de escrever antiga, onde não era fácil apgar os errs. Ou então letras soltas, como se estivessem à espera, por uma qualquer magia, que as somasse numa palavra que, com as outras e em frases, entrassem por ele adentro com a força do
- Tu és assim e acabou
Mas a coisa não é assim tão simples. O menino (talvez rapaz) é novo, juntar letras e palavras dentro dele não tem ainda o tempo do
- Tu és assim e acabou
Porque a vida é uma descoberta e nenhum homem chega até si sem ser menino, rapaz, e ler no íntimo, com os olhos virados para dentro, as palavras letras e frases que passam, mesmo ali, a dizer-lhe quem ele é.
Às vezes palavras com som
- Estúpido
Outras vezes só ideias
- Não a imagines nua, nu.
E o menino (talvez não menino)
- Car***o, pára com isso
Outras vezes
- Escreve
Um sussurro alongado
- Escreve
A prolongar-se no tempo
- Escreeeeve
Pegar na esferográfica e
- Sobre o quê?
Num ápice a resposta
- Sobre ti
- Sobre mim?
E a verdade da resposta final
- Sim
E o menino-rapaz, novo e às voltas com pensamentos de velho, escreve agora sobre si e sobre a sua dificuldade em acabar um texto.

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