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O médico que combateu a pandemia nas aldeias do Minho

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O médico que combateu a pandemia nas aldeias do Minho

Ideias

2020-12-13 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Nos últimos meses a sociedade portuguesa desdobra-se em agradecimentos à classe médica, como reconhecimento pelo trabalho no combate à presente pandemia. Têm sido meses não só de enormes dificuldades como de desgaste físico e emocional, que todos devemos reconhecer. Neste sentido, será importante recordar como era combatida, na nossa região, a pandemia que atingiu o nosso país e o mundo, há cerca de 100 anos.
Um dos maiores testemunhos deste combate foi descrito, ainda na parte inicial da Gripe Espanhola, a 14.11.1918, pelo médico Joaquim A. Pires de Lima, cujo testemunho foi publicado na separata do Portugal Médico, 3.ª série, Vol. Iv, n.º 11, 1918, intitulado “Notas sobre a Epidemia Gripal”. *

Joaquim Pires de Lima nasceu a 7.3.1877 em Areias (Santo Tirso) e efetuou os estudos primários na freguesia Natal e os seguintes em Braga e no Porto. Quando a pandemia se começou a sentir com intensidade, J. Lima residia em S. Simão de Novais (V. N de Famalicão). Preocupado com o que estava a acontecer à sua volta, e mesmo de férias, resolveu percorrer as freguesias da área, usando como transporte um cavalo, com o qual percorria as freguesias de V. N de Famalicão, Guimarães e Santo Tirso.
Devido à pandemia da Gripe Espanhola, o concelho de V. N. de Famalicão foi dividido em várias zonas sanitárias, correspondendo um médico a cada uma dessas zonas. No entanto, estes não conseguiam atender aos doentes mais distantes da sede do concelho, pelo que J. Lima teve de socorrer os habitantes isolados das freguesias de Ruivães, S. Simão, Carreira, S. Fins, Bairro e Delães!

O material médico que o acompanhava era um termómetro, um fonendoscópio e uma seringa de Pravaz. Na obra supracitada, o médico refere que “tendo de visitar cada dia algumas dezenas de doentes, dispersos, em habitações quasi sempre insalubres, por uma região bastante acidentada e mal servida de caminhos, vi-me forçado a fazer pura clínica rural, nas mais precárias condições”.
No Outono de 1918 a população destas freguesias rurais trabalhava, ou nos campos, ou nas fábricas de fiação, que proliferavam nas margens do rio Ave e do seu afluente Vizela. Nestas fábricas trabalhava-se ininterruptamente, noite e dia, em dois turnos, com centenas de mulheres e crianças a trabalharem durante o turno noturno! Por outro lado, o estado físico destas populações também se dividia pois, segundo o médico, os jornaleiros eram “fortes e sadios”, mas as operárias fabris, do sexo feminino, eram “débeis e pálidas”, constituindo “terreno propício para devastações largas da clorose e da tuberculose pulmonar”. Perante este cenário, ao primeiro olhar, o médico logo concluía se esse habitante trabalhava no campo ou na fábrica!

Também as casas destes residentes eram diferentes: a dos camponeses, era feita de pedra com pelo menos uma cama “onde o doente, quando espera o médico, está envolvido em alvos lençóis de grosso linho, com ingénuos bordados e rendas”. Mas as habitações dos operários fabris são diferentes: apesar do “fabricante, conquanto ganhe melhor salário que o jornaleiro dos campos, revela na sua habitação o mais miserável desleixo” sendo as habitações “ignóbeis barracas de madeira, onde o vento e a chuva (mas não a luz) entram livremente”. Em algumas dessas habitações de operários fabris, o médico Joaquim Lima constatou que nem sequer havia uma cama, os doentes, em grupos de dois e três, estavam deitados em palha húmida e podre e apenas com uns farrapos a tapá-los!
Numa das habitações referidas pelo médico encontrava-se “uma rapariga abandonada, que vivia absolutamente só numa barraquita, onde o único aposento possuía como mobiliário apenas umas tábuas atravessadas, onde a pobre inquilina jazia doente”.

O primeiro caso grave tratado pelo médico foi na segunda quinzena de setembro de 1918. No final desse mês a pandemia grassou pela região do Ave com grande intensidade, tendo esta surgido nas fábricas de Bairro, S. Fins, Delães e Sant’Ana.
Na altura, nas habitações, o material de escrita era raro, pelo que o médico tinha de registar a receita a lápis, no verso de alguma estampa religiosa que existia na casa ou nas margens de alguma carta que a família recebera de um filho ausente na 1.ª Guerra.
Os sintomas eram descritos pelos doentes quase sempre da mesma forma: “muito frio, dores de cabeça, dores nas pernas e no corpo todo”, acrescentando ainda os arrepios.

Joaquim Lima refere que “Entre S. Simão e Ruivães há um estreito e pedregoso caminho ladeado de casas. Na primeira daquelas freguesias lavrava havia dias a epidemia, enquanto Ruivães estava indemne. Depois, pouco a pouco, as famílias que viviam nas casas do referido caminho iam sendo invadidas pela moléstia, que em seguida irradiou por toda a freguesia de Ruivães”. O médico acrescentou ainda que na freguesia de S. Simão “há uma aldeia chamada Saldanha, que ficou intacta durante muito tempo. Surge, porém, um caso fatal no extremo norte de Ruivães. Membros da família, residentes na Saldanha, vão de noite velar o cadáver; poucos dias depois, toda a família estava contaminada, e a doença estendia-se pela aldeia, até aí respeitada pelo contágio”.
O corajoso médico tratou, sozinho, nos primeiros 25 dias de outubro de 1918, 505 doentes, das freguesias referidas.

Alguns destes doentes tinham sintomas de delírio. Um deles, alcoólico, “só falava em vinho: diante de si uma pipa com a torneira aberta despejava vinho, os lençóis estavam encharcados de vinho, menos êle doente, que se considerava um desgraçado, por ter um pai tão cruel que o deixava morrer sem saciar os desejos. O delírio mantinha-se neste doente, mesmo apirético. Por fim morreu, assim como todos os outros referidos…”.
De mencionar que nesta região espalhou-se a ideia de que o vinho poderia ser a solução para esta cura. Houve um doente que, só de uma vez, bebeu meia garrafa de vinho do Porto, convencido que trataria desta forma a gripe!
O médico dá o exemplo de um doente com “uma bronco-pneumonia e febre elevada, segundo me asseguraram levantou-se da cama, indo a uma taberna próxima beber meia canada de vinho novo. Ao chegar a casa, falecia”. Também nas mulheres gravidas o perigo foi extremo: normalmente o parto era prematuro, seguido da morte para a mãe e para o feto!

Estávamos, como já referi, no Outono de 1918. O próprio médico tinha dúvidas acerca da origem desta epidemia, ao referir “que não julgo suficientemente provado que, entre a actual influenza pneumónica, e a levíssima e fugaz “espanhola” que invadiu o Pôrto no mês de Junho, haja uma identidade perfeita”!
Não é demais referir que a gripe espanhola espalhou-se pelo mundo entre janeiro de 1918 a dezembro de 1920 e infetou uma estimativa de 500 milhões de pessoas, cerca de um quarto da população mundial na época.
Quando todos pensamos que as informações e os documentos sobre a pneumónica em Portugal eram parcos - porque as atenções do país estavam viradas para a 1ª Guerra Mundial - este testemunho do médico Joaquim Lima, que criou (1920) e dirigiu o Instituto de Anatomia da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, constitui uma verdadeira preciosidade!

* LIMA, Joaquim A. Pires de Lima. “Notas sobre a Epidemia Gripal”, separata do Portugal Médico, 3.ª série, Vol. Iv, n.º 11, 1918.

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