Correio do Minho

Braga,

- +

O marketing no lugar da ideologia

4 ponto quê

O marketing no lugar da ideologia

Ideias

2019-12-03 às 06h00

Jorge Cruz Jorge Cruz

Não sei se a responsabilidade deve ser assacada aos novos partidos ou às pessoas que, integrando as suas listas, vieram a ser eleitas para a Assembleia da República. Do que não tenho dúvidas é de que estes novos deputados vieram acentuar uma tendência que já se vinha a fazer sentir, embora com muito maior intensidade noutras latitudes, ou seja, uma certa prevalência do marketing e da publicidade sobre a ideologia.
Os tristes e até dramáticos exemplos de derivas deste género terão tido o seu expoente máximo nos Estados Unidos e em Inglaterra, para citar apenas dois modelos, mas pelos vistos o fenómeno está a sofrer rápida propagação.
Para atingir os fins pretendidos com a máxima celeridade e com a maior massificação, os tão falados “spin doctors”, isto é, os especialistas em comunicação, utilizam intensamente as redes sociais, plataformas tecnológicas nas quais é possível, com a maior das facilidades, disseminar a mensagem propagandística, verdadeira ou falsa, pouco interessa.

O problema, lá como cá, é que tais campanhas influenciam numa primeira fase muitos dos utilizadores intensivos das redes mas acabam por chegar, directa ou indirectamente, a uma parte considerável da sociedade. Surpreendentemente, muitos jornalistas também contribuem, de uma forma consciente ou involuntária, para que os tais objectivos sejam conseguidos.
Estes são os ingredientes do caldo que está a alimentar a gestação de populismos. Numa primeira fase, na angariação dos votos. Depois, no reforço da imagem construída. E embora esta prática seja apanágio dos grandes partidos, daqueles que têm capacidade para grandes investimentos em comunicação e propaganda, geralmente suportados por contribuições de grupos económicos, a verdade é que o fenómeno está a alastrar-se.
Embora com diferenças acentuadas, creio que quer Joacine Katar Moreira quer André Ventura cavalgam ondas que pretendem rebentar na mesma praia, ou seja, mais do que políticas, querem impor os seus projectos pessoais.
O caso de André Ventura é substancialmente diferente de Joacine porquanto o agora deputado é o líder do partido pelo qual foi eleito, um partido que ele próprio criou à sua imagem, depois de ter abandonado o PSD, e que, nessa medida, se assemelha assustadoramente a uma empresa unipessoal.

Para tentar obter o apoio da direita identitária com a qual, aliás, parece identificar-se plenamente, Ventura não poupa nas palavras nem nas propostas (?) que apresenta, não hesitando minimamente em abusar do marketing político como veículo de lançamento de uma corrente populista que visa exclusivamente o aumento da sua própria notoriedade e na qual, portanto, as propostas ideológicas não têm lugar. Contudo, a retórica vazia que o caracteriza consegue chegar aos ouvidos, não apenas de alguns saudosistas do fascismo e outros nacionalistas, mas por vezes também encontra eco nas desesperadas vítimas de injustiças.
O advento de Joacine, por seu turno, decorre do facto de o Livre ter aberto, melhor dizendo escancarado, as portas das suas listas de candidatos a pessoas exteriores ao partido fundado por Rui Tavares. Com as inovações introduzidas, que em grande medida são querelas contra os partidos tradicionais, embora geralmente mantendo com eles claras relações miméticas, o Livre perdeu a sua identidade e, pior ainda, deixou cair por terra o seu próprio programa, como aliás ficou bem patente há dias no Parlamento, quando a deputada Joacine optou pela abstenção na votação de condenação do ataque israelita na Palestina. Outro caso paradigmático ocorreu com a entrega fora de prazo do projecto de lei sobre a nacionalidade, uma matéria que, como é sabido, constitui uma das bandeiras do partido.

Tenho muita dificuldade em perceber como é possível uma deputada eleita por um partido de esquerda vacilar em relação ao seu sentido de voto, numa questão tão óbvia. Como também ninguém entende o ridículo e gravíssimo acto de pedir uma escolta para circular nos corredores da Assembleia da República – a casa da Democracia!
Obviamente, o que está em causa na postura presunçosa e conflituosa de Joacine e, já agora, do assessor que a coadjuva, é o facto de ter a sua própria agenda política, nem sempre coincidente com a do partido que ela utilizou como barriga de aluguer para entrar na Assembleia da República. Este fenómeno é, aliás, recorrente em casos de eleição de um único representante embora por vezes, e em contextos muito precisos, possa surgir a tentação de um cabeça de lista tentar impor a sua agenda ao partido em cuja lista foi eleito. O município de Braga foi, aliás, palco durante alguns meses de uma situação similar. Neste caso, o seu epílogo ocorreu ontem, quando o vereador finalmente concluiu pela impossibilidade de impor o seu projecto pessoal ao programa político do partido pelo qual se candidatou e, naturalmente, apresentou a sua renúncia.

No que toca às relações futuras entre Joacine e o Livre, ignoro naturalmente qual vai ser o seu desenvolvimento. Mas mais do que a evolução do relacionamento político entre as duas partes, que já se antevia muito difícil por uma questão de disputa do espaço político, temo que o radicalismo do discurso da deputada possa provocar o reacender de um certo racismo, como aliás já se tem verificado nas redes sociais, ou até um populismo anti-português nas comunidades de outras etnias imigradas no nosso país. Em qualquer dos casos seria um claro recuo civilizacional e a abertura de portas para situações que a maioria dos portugueses não deseja e repudia.?

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.