Correio do Minho

Braga, terça-feira

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O maleitas

Viva o Verão de forma segura

Conta o Leitor

2022-07-04 às 06h00

Escritor Escritor

Texto José Manuel Cruz

Aniceto de Sá Maleitas abraçou a carreira médica sem noites mal dormidas, sem penosos de estudo. Tudo se lhe dava com a naturalidade do músico que vai a todas de ouvido, equivalendo a dizer que canhenho lido era canhenho arrumado. É certo que um amargo que outro lhe sobreveio, nomeadamente em matérias em que uma sumidade debitava ciência como se a solo existisse, sem antes nem depois, sendo que, ao lado, autoridade não menos eloquente firmaria pé em vaidades de igual teor. Em tais circunstâncias, instado a joeirar um no crivo do outro, para fazer pão limpo com a farinha dos dois, Aniceto embestava, sendo avesso à menor das sínteses equilibradas, à eclosão da perigosa singularidade de um ponto de vista individual. Aniceto não tinha opiniões, Aniceto nadava em certezas alheias. Verdade se diga, a generalidade dos que o forçavam a aviso pessoal tampouco o teriam de sua parte e, o que o picavam, em si o tomavam por desconto, que rápido se esfumam as nossas burrices, quando ocasião se presta de operarmos a frio as burrices de quem nos passe diante da lanceta.
À força de ser encurralado, Aniceto descortinara saída airosa: que era novo e manifestamente inexperiente para se atrever a retalhar e recoser sobre fosse quem fosse, que luzes se lhe fariam com o correr dos anos. Saída de almanaque, e nem de almanaque inteiro, porque se é verdade que quem espera sempre alcança, por verdade não menor passa, igualmente, que não chega a santo quem em esperas se impacienta. Assente-se, porém, que Aniceto não era dos que desesperassem, contando inclusive calcorrear velhices, qual patriarca dos primórdios.
O nome, como se percebe, foi um problema, mormente pelo segmento correspondente à linhagem paterna. Não que se envergonhasse de conjugar um “de Sá” de ressonância heráldica, com um “Maleitas” de póvoa de socas de pau, em que de alcunha de calçada incerta se forja sobrenome aceite por notário, e pelém de todo não se mostrara, esse longínquo Maleitas, já que prevalecera e deixara descendência. Prestava-se o apelido a risinhos e ao achincalhamento de colegas. Feridas que não o prostravam, piadas a que respondia por cima, segredando que tinha nome de algoritmo, como aqueles com que a Autoridade Fiscal baptiza as empresas de supetão. Ia ao ponto de se confessar um holograma, uma estrutura de inteligência artificial corporizada. Em suma, deflectia com assertividade, embora o confirmassem impiedosamente como um totó.
Deixei de o ver, concluídos os estudos, para o apanhar em casa, diariamente, em horário nobre televisivo, quando a porra da pandemia se instalou, vergando-nos à vontade de idiotas acagaçados, como se o vírus de hoje ceifasse à escala da bactéria que em trezentos arribou à Europa, chegadinha aos sopapos dos confins do Quirguistão.
Algo fiz por saber e adivinhei o resto. Longe de carreira vivificante, Aniceto ultrapassara brilhantemente todos os degraus do cinzentismo. Entrincheirara-se num gabinete, arejando de simpósio em simpósio, à boleia de posters e comunicações em matérias de esbatida envergadura. Compilava ocorrências, apurava rácios de expansão de febres e quebreiras sazonais, viajava com olho guloso por histogramas, como citadino por souto de carvalhais ou castanheiros na trilha de tortulhos para petisco outonal. Era um às de curvas em «U» invertido, de curvas em «S» de gradiente exponencial ou achatado; palpava tendências e alertas onde ninguém veria senão uma massa dispersa e informe de eventos individuais. Escusado é de sublinhar que se levava a sério, que em cada eclosão de uma pestilência via a emergência de um cataclismo de proporções próximas da extinção da espécie. Deve ter reclamado uma oportunidade hollywoodesca de refulgir, e os deuses ouviram-no.
O ano de 20 para alguém deveria ser uma bênção, ao Aniceto deram-lhe corda e ele bailou. Contundente e seguro, com aquele brilhozinho nos olhos de canção, estendia apuros de jornada como petiscos de piquenique: o acréscimo diário de casos eram os rissóis, os internamentos valiam pelos bolinhos de bacalhau, as recuperações pelos panaditos, e dispenso-me de passar aos entubados e aos falecidos, para não desviar definitivamente o apetite das chamuças e do indispensável churrasco de frango.
Foi-se o 20, entrou o 21. Foi-se o 21, entrou o 22. Quanto aos outros, não sei, mas eu passei a sentir-me como aquele repórter meteorológico que regressava permanentemente às 6 da manhã do dia anterior, mas eu com o enfado em meteórica aceleração centrífuga. Julguei pirar, à conta de fazerem da palha palheiro. Quis fugir e, se ninguém me impedia de acariciar a televisão a martelo, se ninguém me impunha que a horas certas me plantasse diante de janela monótona com vista para a favela da saúde pública, o certo é que lá me apanhava fielmente, digo eu na esperança do dia em que necrófagos compungidos proclamassem a última rodada do festim.
Até que me cruzei com o Aniceto, bela manhã de sábado, na Marginal. Estás radiante, digo-lhe. Não me reconheces? O Aniceto tirou dois bons minutos para me remirar, para me colocar em confronto com qualquer imagem varrida. És o Antunes? ¬– aventou a medo. Deixa que te toque, digo, de tanto te ver em toda a parte, cheguei a convencer-me de que te transformaras no holograma. Lembras-te, quando com essas e com outras ladeavas picardias?
Recordações sem sombra e sem dor. O Aniceto era manifestamente outra criatura. Teria uns quilos a mais, o exercício a que se permitia não faria as delícias de nenhum médico acompanhante, mas a firmeza da postura, a cintilação da pele, a confiança e a determinação das expressões, cotavam-no entre os vencedores, entre aqueles para quem tornamos o olhar. Tal estava que não me admiraria de o ver como figura publicitária de perfume ou champô, de traje de alta-costura para executivo XXL.
Prosperaste, rematei, deixando no limbo o tempo invocado como termo de comparação, se os anos estudantis, se o estado e aparência imediatamente anterior à pandemia.
Desejei-lhe sucessos na frente de combate a morcão velho com halo de novo, e muita garra para acomodar a sétima vaga, a oitava, e por aí adiante, que o bicho continuaria na pista das atracções, vivo e garrido, apanhando sãos e abalados, dando um piparote nos primeiros e arrumando os segundos, arcando com o odioso dos desacertos que campeiam no planeta.
Apalavramos encontro para depois das férias, a pretexto de romance exaltante que eu estimaria escrever, assim lhe apanhasse a veia, que herói já tinha. Deixei-o encantado. Olha, atirou-me já em voo, cuidado com molhos e maioneses, com ovos e marisco. O Verão presta-se a disenterias. Envio-te os dados por mail.

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