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O ‘Lobo da Reboleira’ que veio de Celorico de Basto

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Ideias

2011-01-03 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

A crise que tem afectado Portugal e a Europa nos últimos anos levam-nos a procurar, no passado, exemplos de pessoas que se destacaram, ao longo da sua vida, no desenvolvimento e criatividade que colocaram ao serviço da sociedade.
Como actualmente escasseiam os casos de pessoas de sucesso, quero apresentar hoje, neste início de 2011, a história de alguém que obteve uma projecção nacional e internacional, fruto da persistência e da tenacidade das suas ideias e atitudes. Trata-se de António da Cunha Sousa Lobo, mais conhecido por “Lobo da Reboleira”, título atribuído uma vez que este vivia na então Rua da Reboleira, no Porto.

Foi em 1785 que Sousa Lobo nasceu, no Lugar de Breia, freguesia de Veade (Celorico de Basto). A sua família, então muito conceituada nas terras de Basto, resolveu enviá-lo para o Seminário de Braga, com o objectivo de o tornar sacerdote.
Até aos 17 anos, Sousa Lobo ainda se manteve no Seminário, obtendo altas classificações nos seus estudos. No entanto, a partir desta idade, resolveu enveredar pela actividade comercial, escolhendo então o Porto para começar a trabalhar.

Como bom comerciante portuense, Sousa Lobo dedicou-se à exportação de Vinho do Porto para a Inglaterra, obtendo avultados lucros neste ramo comercial.
Aproveitando a sua boa vertente para o negócio, o Lobo da Reboleira passou a comercializar outros produtos, então muito procurados no nosso país, nomeadamente bacalhau, arroz e açúcar, fazendo com eles uma considerável fortuna. No entanto, o seu próspero negócio sofreu um grande desastre, quando um enorme temporal destruiu toda a sua frota de navios mercantes, causando a miséria ao, até aí, rico Sousa Lobo.

Vivendo momentos de grande dificuldade, este celoricense pediu ajuda a muitos amigos, principalmente àqueles a quem tinha prestado ajuda quando passavam por dificuldades. Mas, ao contrário do que esperava, nenhum dos seus amigos teve a bondade de o ajudar.
Revoltado com esta situação, o Lobo da Reboleira não desanimou e aplicou-se, ainda com mais força, na recuperação do seu negócio, de tal forma que conseguiu “não só refazer mas decuplicar a fortuna perdida” (1). Este novo sucesso serviu-lhe de exemplo, uma vez que Sousa Lobo ignorou a partir daí todos aqueles que lhe pediam ajuda. Perante a fortuna que crescia permanentemente, na sua casa “empilhava-se o ouro às arrobas” (1).

Esta sua nova atitude, de recusa em ajudar quem lhe pedia, fez com que a população o baptizasse de “avarento sórdido e mesquinho”. Mas Sousa Lobo, o “Lobo da Reboleira”, não se importou. Antes pelo contrário, decidiu participar activamente no desenvolvimento da sua terra de adopção, o Porto. Conseguiu isso através da sua acção política, como Vereador na Câmara do Porto, mas principalmente como grande capitalista, que tudo resolvia com a “força do ouro”.

A fama de grande capitalista extravasava as fronteiras portuguesas, ao ponto do próprio Rei Carlos Alberto, da Sardenha, ter recorrido a este capitalista celoricense, para o socorrer perante as dificuldades financeiras por que passou, quando foi forçado a abdicar do trono, em 1849.
Outro episódio que marcou a vida de Sousa Lobo ocorreu em 1852. Foi no dia 29 de Março desse ano que o vapor “Porto” naufragou, causando a morte a mais de cinquenta pessoas, entre elas vários comerciantes e directores de bancos, mas também a José Augusto da Silveira Pinto, delegado do governador régio no Porto, a Mr. Destrès, cônsul de França, e, entre outros, ao bracarense António Plácido Braga, pai de Ana Plácido, a jovem e bela mulher por quem Camilo Castelo Branco se perdeu de amores.

Impressionada com este acidente, a Rainha D. Maria II resolveu visitar o Porto. Nessa ocasião, a Câmara Municipal, para receber a monarca, começou a preparar uma enorme festa, à qual se opôs veementemente Sousa Lobo, argumentando que o que ocasionou a visita da Rainha foi um acontecimento trágico, por isso, dispensavam-se perfeitamente as festividades de recepção à monarca.
O percurso de vida social, económica e política de Sousa Lobo entusiasmou de tal forma a Rainha D. Maria II, que esta pretendeu condecorá-lo com um título, mas este recusou peremptoriamente.

As várias contribuições do “Lobo da Reboleira” para instituições de cariz social, como a Santa Casa da Misericórdia do Porto e ainda o Hospital de Alienados do Conde Ferreira, mereceram destas instituições rasgados elogios, encontrando-se o seu retrato, durante muitas décadas, nas paredes dos edifícios que albergavam essas instituições.
António da Cunha Sousa Lobo morreu no dia 6 de Março de 1866. Tinha 81 anos.

1) ‘Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira’, Vol. 15, Pág. 354.

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