Correio do Minho

Braga, terça-feira

O ‘landês’ da tasca

Prémio Nobel da Medicina

Ideias

2017-03-26 às 06h00

José Manuel Cruz

Quem mal trabalha, a medo entorna, e por mulheres não corre, resta-lhe como entretêm descoser na vida alheia. Ora é o meu caso. Não vai longe, cortei nas entretelas de luxo-em-burguês. Hoje puxa-me para home ‘landês de camisa aberta e mangas puxadas, senhorio de mesas corridas, reservados e moçoilas de favores.
Quem sou eu, para descrer do sermão? Pois não é com olores de santidade que nos apresentam os magos da alta finança? Pois não são lentes de palavra pouca, acção muita, e ciência por Deus ciumada? Não nos governam, eles, pelo tudo que saibam a mais do que nós, por mor de segredos que nós jamais penetremos, sequer atinjamos? E se oráculo prenuncia, o feitor do euro-rupto, que mal vamos e pior ficamos, enquanto não abandonarmos a tacinha de branco e a cinta de ligas, repito: quem sou eu - quem somos nós - para darmos por falaz diagnóstico de físico-curandeiro, mestre de primeira apanha em prescrições avulsas de sanguessugas e sangrias redentoras?
Estou, vai-não-vai, no limiar do insulto ao Cruyff do malabarismo financeiro. Mas, lufada de ar fresco, chegam-me as novas de hermeneutas encartados e de populares de mau-agouro: a pinga e a fêmea, o dinheiro nelas vertido, não é ofensa, é metáfora. Bravo, sinhor ministro! Bravíssimo! Bis, bis... Que falta nos fazem estadistas como Vexa, na pena ágeis como no ábaco!

Já não sei o que me apetece: se tirar o tampão ao país dos baixos, se jogar da varanda os Migueis de Vasconcelos de serviço. Será por deformidade católica, tanto mea culpa, mea maxima culpa? Não há pachorra: o home disse o que disse, e ouvimo-lo a repeti-lo. E mais: que não se arrependia, de tão seguro estava da enfermidade.
Ele há lá palhaçada maior! Em que matriz de análise entra a sobrevalorização artificial da nossa economia aquando da adesão ao Euro? Em que matriz de análise entra o desemprego virtuoso da velha economia, face ao maremoto da economia digital e dos serviços? Em que matriz de análise entram os biliões evaporados pelo aquecimento global da virginal finança? Em que matriz de análise entram as desigualdades escavadas na distribuição da riqueza? Em que matriz de análise, enfim, entra tudo aquilo que nós desconhecemos?

Como pode um capataz do charuto, champagne e caviar, transferir culpas para um zé-ninguém de meia tacinha em taverna ao pé da porta? Onde está a proporção? Más contas faça um zé-ninguém, e fá-las dentro dos limites do seu magro rendimento. Por burrice pedirá um empréstimo, para casa ou futilidade, e seguro é que o paga até ao osso. E, por um ou outro que ferre o cão, pois que é isso com os milhares de milhão desencaminhados pelos pontífices da banca, correctoras e agências de notação? Há, já sei: quando a coisa corre para o torto… pronto, são os imponderáveis da Economia!

Mais do que insultar, mente, o tal do ‘landês. Mente, e sabe que está a mentir. Diz, no entanto, mais coisa, menos coisa, o que repete o sinhor da cadeirinha de rodas, e outros que tais que afinam pela mesma bitola. Eu ainda me lembro do bate-barbas do presidente checo ao nosso Cavaco, aí por 2010, a propósito do deficit orçamental português. Erros? Oh se os cometemos!.. Alguns dos quais servidos de bandeja a partir de Bruxelas, em nome de tudo, até da identidade continental e do paraíso da economia global. Estamos feitos. Assim não damos a volta, nem se vê que eles mudem de disco. Eles? Quem? Olha, os falsos puritanos da liga hanseática, e os franchisados que por cá os representam.

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