Correio do Minho

Braga, sábado

O Livro da Vida

Escrever e falar bem Português

Conta o Leitor

2011-08-17 às 06h00

Escritor

Por Mário Viana

Da janela da sala, o homem apreciava aquela magnífica tarde de Setembro, olhando o horizonte, onde a tarde avançava, com os tons azuis a cederem lugar aos tons dourados. A temperatura era tão amena que sentiu vontade de sair de casa.
- Vou dar uma volta - disse à mulher.
Saiu de casa, tomou a direcção do monte e, pela estradinha de paralelo, começou a subir a encosta até à capela, onde só ia de longe a longe. Do adro da capela, cheio de árvores que começavam a largar folhas amareladas, demorou-se a olhar a paisagem. Lá ao fundo, o céu de Outono espelhava-se no rio, que deslizava de mansinho por entre as veigas.
Então, o homem abeirou-se da capela fechada e, por um postigo emoldurado na porta principal, espreitou lá para dentro. Na penumbra silenciosa da ermida, a imagem da Senhora, que fitava um ponto indefinido da parede, deu-lhe a impressão de estar a olhar para si, pelo que, subitamente inquieto, deixou de espreitar.
Contornou a capela, para nascente, e deparou-se com um carreiro, por entre o mato. Achando que tinha tempo, resolveu continuar o passeio por aí. Uma centena de metros adiante, o trilho desembocou num estradão de terra batida, que desaparecia sob as árvores altas da mata. Estranhando a existência daquele estradão, que imaginou ter sido obra recente dos madeireiros, o homem começou a percorrê-lo. Numa das bermas, escondidas entre as ervas altas, corriam águas alegres. Alarmado com os passos do homem, um gaio rasgou o silêncio da mata e levantou voo dum pinheiro.
Depois de andar um bom bocado, numa curva do caminho, o homem teve uma visão surpreendente: o arvoredo dava lugar a uma clareira e o caminho terminava defronte dum edifício antigo, que lhe pareceu um convento. Era um edifício de granito, com paredes brancas e janelas largas, onde o sol faiscava. Um muro de pedra, coberto de trepadeiras, cercava a propriedade. Na parte frontal da casa, erguia-se um portão alto, de cor verde, encimado por uma sineira. Pelo portão entreaberto, o homem espreitou, mas não viu ninguém no terreiro defronte da casa. Impelido pela curiosidade, que ele próprio estranhou em si, o homem atravessou o terreiro, entrou numa porta, igualmente aberta, passou um pequeno átrio e veio desembocar num claustro, em cujo centro, brilhando ao sol, a água cantava num chafariz lodoso. Sobre um chão lajeado, foi até uma escada gasta de granito, que subiu, também sem encontrar vivalma. No andar de cima, achou-se num corredor sombrio, para o qual davam as portas das celas fechadas. Parecendo-lhe entrever o vulto furtivo dum monge, a dobrar a esquina do corredor, o homem percorreu sem temor o chão de soalho e viu-se numa sala onde a luz entrava a jorros pelas janelas altas. Era a biblioteca. Lombadas de livros forravam de alto a baixo as paredes laterais, enchendo estantes de madeira escura. Mesas de trabalho alinhadas debaixo de cada janela pareciam aguardar a chegada de monges copistas. Ao centro da sala, sobre uma mesa mais comprida, encontrava-se aberto um único livro.
O homem acercou-se da mesa e começou a ler o texto. Aos primeiros parágrafos, espantou-se porque o livro narrava a sua própria história. Aturdido, sentou-se, prosseguindo a leitura, profundamente absorto no que ia lendo, repassando, folha após folha, os anos da infância, da juventude e, finalmente, da vida adulta. O mais assombroso era que o autor não só narrava os factos, mas também conhecia os próprios pensamentos do protagonista. E assim, pela pena implacável daquele cronista desconhecido, na solidão da biblioteca, o homem reviveu as emoções da sua vida inteira. Perdido do tempo, leu e releu, ora sorrindo, ora emocionando-se, envergonhando-se até com o que ia lendo. A tarde morria, quando o homem terminou a leitura, na passagem em que se encontrava a espreitar pelo postigo da capela.
O homem fechou o livro, esfregou os olhos cansados e ergueu-se para se ir embora. Só então viu que a porta da biblioteca desaparecera, e que existia uma parede branca no seu lugar. Angustiado, lembrou-se da mulher e dos filhos e, como um pássaro cativo em busca duma saída, olhou em volta as janelas onde o crepúsculo pusera um tom pardacento. Mas foi um instante fugaz, porque depois não se lembrou de mais nada, sentiu que a angústia dava lugar a uma paz imensa. Do outro lado da sala, emergindo da brancura da cal, abria-se agora outra porta, sem que fosse possível ver o que havia para além dela. O homem ainda hesitou:
- Mas ainda tenho tanto que fazer…
Depois, a paz tomou de vez conta de si e, em passos lentos, cruzou serenamente o limiar dessa porta misteriosa.

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