Correio do Minho

Braga, segunda-feira

O juramento dos hipócritas

Macron - Micron

Ideias

2015-11-29 às 06h00

José Manuel Cruz

No espaço desta coluna não cabe toda a história, o quadro coerente e exaustivo de um facto maior. Reconhecida a restrição, avançaria eu com um antes e um depois da entrada em cena da Rússia no combate à DAESH. Bem sei que vinham de trás os ataques dirigidos com drones, a resistência curda, yazidi e de pequenas milicias voluntárias católicas, os raides com aviões ocidentais e operações desconexas várias...

Mas vinha de trás, também, e de longe, a original ideia de que Bashar al Assad deveria abandonar o poder ou ser deposto, o jogo mais que dúbio da Turquia, o desinteresse negligente dos sauditas. Cientes de conduzir uma missão civilizacional de inspiração divina, das margens do Potomac tinham dimanado instruções para afrontamento sem quartel aos novos Cavaleiros do Apocalipse: a Fome, a Peste, a Guerra, a Morte, teriam novos nomes e conhecidas faces - Saddam Hussein, Moammar Gadhafi, Bashar al Assad... talvez, Vladimir Putin.

A missão civilizacional foi cumprida a preceito, e o numinoso reino Deus restabelecido na Líbia e no Iraque, tanto que as pobres almas locais nunca viveram tão bem como hoje, e não há dia que não nos tenham nas suas carinhosas orações. - Bem-hajam! - nos dizem, em nome das divindades que professem. Libia e Iraque de casa arrumada, e ala que temos pressa: - Xô Assad!!! Agora eu não sei: está a correr mal com a Síria, porque o Assad ainda por lá ande, ou se correu mal com a Líbia e o Iraque, porque de facto tenham conseguido abater os autocratas e estilhaçar os regimes?

As palavras são vento - as minhas, as de todos. Mas ele há ventos que sopram do lado de fábricas de celulose. Em Junho alguém cantarolava que o Assad era tão cavernoso, que até recuara as tropas de Palmira, a ver se a UNESCO e a ONU se condoíam, se os americanos invertiam a estratégia ou arrepiavam caminho. Foi bojarda de pasmar: não tinha Assad retirado de jazidas de petróleo e de gás natural? Não tinha Assad deixado para trás riquezas anónimas, transaccionáveis sem rasto?

E eis se não quando entra Putin ao barulho: - Cruzes, canhoto, olha o diabinho encarnado a por os corninhos de fora! - Olha o expansionismo e o imperialismo do Kremlin a saltar os murinhos da Praça Vermelha! - Ele foi a Crimeia, depois o Donbass, agora é a Síria... - Não tarda nada acampa-nos no Terreiro do Paço!

Ele há uma coisa que eu gostava que me explicassem, como se eu fosse loira, mas muito mais loira do que a Marilyn Monroe. É assim: de Washington a Riad, passando por Ancara, eles podem municiar milicias armadas e conspirar para derrubar um regime - e isso é cool. Mas, se ao abrigo de tratados bilaterais, legítimos à luz do direito internacional, Moscovo presta assistência militar a Damasco: - Ai valha-nos Deus que isso não pode ser!

Nunca sabemos da missa senão pela metade. Vá lá, os mais casmurros ou descarados ainda podem espiolhar o seu bocadinho. Riad e Ancara não vão à bola com Damasco, Teerão, e Amã de permeio. A oligarquia americana é unha com carne com os nababos da corte da saudita e amiguinha do peito dos otomanos. Os russos são mais ou menos amigos dos inimigos dos descendentes do grande ibn Saud. Está bom de ver: eu coço-te as costas, tu as costas me coças, e pelo caminho damos coça aos outros. Amigos ele é coisa que todos podem escolher, e como Benzema, até entre marginais. Eu só me abespinha que nos enrolem com amigos da onça de terceiros. Mas deixa lá, Assad, aguenta mais um nico. Beijinhos e deita-te cedo, e quando a coisa estiver composta, se quiseres, põe-me a contar camiões à saída de um poço de petróleo. Boas contas te faço eu: pataca a ti, pataca a mim, pataca a mim...

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