Correio do Minho

Braga,

'O Insuspeito Jardim', por Ana Leonor Rebelo da Silva Godinho

Escrever e falar bem Português: Um item complicado

Conta o Leitor

2011-07-26 às 06h00

Escritor

O Jardim poeta incerto escrevinha no improviso das ramagens o murmurejar de encenações e peripécias confidentes, vindas do nascedouro interior de uma inusitada actriz. Mas antes de entrar na história propriamente dita, há que penetrar sem convite na mente rutilante de embaciamento desta actriz, que é a principal. E quem melhor do que o Jardim, espectador e expectante de assiduidade forçada para levantar o véu eflúvio da sua intimidade.

Numa varanda que desponta para o Jardim habita uma Irmandade no feminino, composta pela Atriz, a Sra. Senescência e a Gata X. O cenário meteorológico e sazonal é indiferente. Quer os dias desabrochem como cinza vulcânica, montanha azul citadina, friúra lacrimosa de inverno ou calorescência do deserto na miragem de um oásis europeu,é indiferente, pois o vaivém de aparições da assombrosa Atriz do não-descanso figura incessante.

Ela é a essência de uma personagem dramática, contudo, quando invadida por dupla ou tripla personalidade cai no ridículo da comédia em que ela própria se encerra e projeta, virando tragicomédia. Dá a conhecer a sua intimidade com palavras desavergonhadas que lança sem o reflexo do pensamento.

Na iminência de uma suposta desgraça, esta é no mínimo, patética, pois a sua real dimensão é um indizível nada de insignificante.Os monólogos que enceta são tão intensos que cai no oblívio do mundo que a rodeia e não desarma do transe psicadélico da sua ladaínha monocórdica, que por vezes sofre variações de humor, se estiver disposta e inspirada para tal. Tem o dom de asfixiar o ar com uma verborreia em ecos pairantes e o incrível, é que a perseverante saliva permanece incólume à extinção. O ar entra, refrigera e transmuta-se em líquido. A cada símbolo religioso, que marca o calendário, a Atriz surta e propaga um grito assassino aos ouvidos do Jardim:-Tu mataste-o!E ele remetia-se à excogitação na inquietude da paralisia:
- Quem matou quem?
Inúmeras vezes invoca o nome de Deus em vão e não poupa o Seu Filho, nem a Virgem Maria. Todos são convocados para uma ladaínha aprimorada com um murmurinho que desagua num trucidante e enfático choro.E do nada,a Atriz do laudatório irreconhecível, ressurge coruscante como se nunca tivesse existido pranto.

Certa vez, o Jardim até foi conspurcado pela vidraça aberta, que soltava uma sessão de ais de solitária monogamia, semelhantes a um convite de lasciva intimação à luxúria viril.E o seu perfil?

Hipocondríaca, bacante, compêndio de farmacologia, oradora obsessiva-compulsiva para quem as pausas são meras utopias. Este currículo multifacetado e de orquestração genial, é invejável!A nossa Atriz retorna agora,aos dias de monólogos de dispersão estranha,onde em simultâneo ri e chora na miscelânea de um bipolarismo atroz.E o cartaz continua a promover a peça que se encontra em estática e constante exibição. Não há indícios de finalização à vista, apenas uma tendência lateja na certeza medonha de que tudo isto é propenso a piorar a cada passada dos dias.

O Jardim testemunho da sua decadência teatral, despe para nós o epítome dessa decadência que culmina com o prólogo desta história, intitulada:'Crónica de um Almoço Indigesto'.Era uma azáfama angustiante de tachos, invocações, panelas, choro e gritos dementes. Durante a preparação do amaldiçoado menu, todos os ingredientes foram denunciados pelo grito histérico do rótulo de que estavam 'falsificados'!Momentaneamente, a Sra. Senescência ia até à cozinha infernal, onde ouvia a frase repelente do costume:
- Tu mataste-o!
E retirava-se de cena indo dormitar no eco uníssono do repelente. Toca a campainha. É o pânico! O Jardim nem bulia na expectativa. A Atriz na cozinha invoca o nome de Deus em vão... o pânico é real, total e grave. A campainha insiste frenética, mas em vez de ir abrir a porta aos convidados, dirige-se à janela da sala e berra:
- Quem sacudiu aqui os pêlos profanos?
- apontando o dedo acusador à Sra. Senescência. Quanto à Gata X, essa, nem se ouviu! O Jardim tombou corcunda num ramalhar de risos, as raízes soltaram gargalhadas a sete palmos de terra e as árvores ginastas inclinaram-se solidárias.
A Atriz resolveu abrir a porta, mas esqueceu-se de sacudir os famigerados pêlos profanos. Mal os convidados se sentaram à mesa, desertaram pela denúncia gritante dos pêlos mortuários sobre a mesa.
A porta fechou-se. A Atriz entrou em cena com a Bíblia na mão, abriu-a num capítulo ao acaso, e leu em voz alta um versículo. No término deu uma gargalhada colossal saída dos confins da terra, e disse:-Eu tenho em casa o Satanás! - apontando para a Sra.Senescência, que se remeteu a uma sonolência ensaiada e estóica. O alarido do monólogo que se seguiu foi tal, que a Gata X de negrume eriçado, olhar de verde esbugalhado em brasa e vidrado pelo opiáceo medo,trauma e saturação acionou os seus mecanismos de autolibertação atirando-se da janela rumo a uma árvore que a fez esgadanhar até ao Jardim.

Entretida na sua crise ególatra e demencial, a Atriz nem deu pelo passar do tempo, que não era só tempo,mas metamorfoseou-se em tempo-noite. O ciúme da frustração e a procura de um culpado para o sucedido toldou-lhe o discernimento, quando constatou que a Gata X fugira e estava, agora, rodeada de pretendentes, arremeçou tudo o que tinha à mão, exibindo os seus dotes de artista circense. E nem o Jardim, neutro por natureza, escapou à sua declaração de guerra.

Quanto ao exército de amantes felinos, também esses foram abatidos um por um. Calma! Não houve mortes só ferimentos atordoados. Depois deste bailado aéreo e danos colaterais à mistura, o Jardim dormiu sobre o assunto. Na manhã seguinte a Atriz foi visitada pelas autoridades...
Na sinopse da ameaça ao seu comportamento,a exaltação deflagrou:-Quem me entalou?
Mas a nossa Atriz ficou remetida ao entalanço da resposta ausente. Quem a entalou fui eu, o insuspeito Jardim!

E se esta atriz voltar a cair nas manias de morba loucura... não se admirem que eu o Jardim não lhe apare a queda! Se o surrealismo anedótico deste conto-história persistir e martelar na dura realidade, isso, meus caros, é pura intencionalidade ou coincidência inconveniente para alguns, mas não para mim!

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