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O imponente testamento de Machado Caires

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O imponente testamento de Machado Caires

Ideias

2022-02-06 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Quando morremos, o nosso património é normalmente distribuído pelos nossos sucessores legais, num processo a que damos o nome de herança.
Associados às heranças, os testamentos são documentos importantes usados para comprovar a forma como são repartidos esses bens.
Apesar de apenas nas últimas décadas os testamentos terem vindo a ganhar cada vez mais importância na recuperação da nossa memória coletiva, estes funcionam, também, como uma importante fonte documental sobre o comportamento individual ou até familiar de uma determinada época.

Um destes documentos, de conhecimento público, foi o de Joaquim Machado Caires, bracarense que nasceu no dia 4 de junho de 1827, em Maximinos (no então Monte de Penas), e faleceu a dia 1 de novembro de 1886.
Confrontado com o Portugal de Oitocentos, marcado por um ambiente de muitas dificuldades económicas e pouca pujança social, que também caraterizava esta região, Joaquim Machado Caires seguiu o destino de milhares de portugueses de então: partiu muito novo para o Brasil, país onde se afirmou profissional e socialmente, conseguindo uma considerável fortuna.
Machado Caires foi um dos portugueses que mais contribuiu com a sua fortuna para desenvolver o seu país e, mais do que isso, fazer muitas famílias pobres saírem da miséria extrema em que viviam.
No testamento de Joaquim Machado Caires, apresentado na administração do 4. ° bairro de Lisboa e dado a conhecer publicamente cinco dias após a sua morte, ficamos a saber que os testamenteiros foram José Rodrigues de Carvalho, Lucas Fernandes Falcão, Joaquim Victorino da Rocha, Estevão José Brochado, José Joaquim Caires Loureiro, José Pereira Cardoso e Gabriel Osório de Barros. Nesse testamento, Machado Caires deixava um legado absolutamente impressionante, revelador do seu vastíssimo património.

A seguir recordar-se-ão algumas partes do fabuloso testamento deste bracarense. Segundo este documento, Machado Caires era casado com Guilhermina Rosa de Almeida Caires, natural da Baía, Brasil.
Deixou à sua irmã, Maria Rita Caires Madureira e ao seu marido António Bernardino Pinto Madureira, residentes em Braga, o usufruto da sua propriedade na rua do Anjo, assim como 50 ações do Banco de Lisboa & Açores, e 10 do Banco do Minho, com o encargo de darem 4$500 réis mensais a Mana Rebelo, sua ama-de-leite, e 60$000 réis todos os semestres ao seu irmão António Joaquim Fernandes Caires, pagamento que deveria ser efetuado desde a data do seu falecimento.

Deixou ao seu sobrinho José Joaquim Campos Loureiro e sua mulher Maria Júlia Monteiro o usufruto da sua casa na calçada da Estrela n.º 46 e do terreno que fica entre essa casa e outra que possui na mesma rua n.º 40 e de outros pedaços de terreno, anexos, tudo em Lisboa!
Aos filhos deste casal entregou o usufruto de 53 ações do Banco Lisboa & Açores, que passavam igualmente em uso pleno aos seus filhos, com o encargo de uma pensão mensal vitalícia de 10$000 réis a entregar a Narcisa Cecília Caires Loureiro.
Ainda em Lisboa, Machado Caires entregou à Câmara Municipal um terreno da extinta cerca de S. Bento, ficando a Câmara Municipal de Lisboa com a decisão de ordenar a abertura de duas ruas com doze metros de largura! Convém recordar que o Palacete de S. Bento (atual residência oficial do Primeiro-Ministro, ou Chefe do Governo) teve como seu primeiro proprietário, precisamente, o bracarense Joaquim Machado Caires, que o mandou construir em 1877.

Para a viúva do negociante Joaquim Pereira Pestana e, por morte desta a sua filha, o usufruto de 40 ações da Sociedade do Comércio da Baia, de 100$000 réis nominais, que passariam em propriedade aos seus filhos.
Ao Asilo Maria Pia, também em Lisboa, deixou cinco ações do Banco do Minho.
Mas o legado de Machado Caires não se ficou apenas pela distribuição dos seus bens à família ou ao círculo de amigos. O bem público também foi salvaguardado, com a impressionante distribuição dos bens que a seguir se referem:
À Câmara Municipal de Braga e ao Hospital de S. Marcos deixou a sua propriedade, então conhecida como “o Passal de Maximinos”, que incluía uma casa anexa, um palheiro, um lagar e servidões, que foram da igreja de S. Pedro de Maximinos.
A Câmara Municipal de Braga ficou com a incumbência de escolher no “Passal de Maximinos” o terreno que considerasse mais adequado para a construção de uma casa para escola primária do sexo feminino. O restante terreno destinava-se à abertura de uma rua, junto à estação dos caminhos de ferro. A propriedade que sobrasse teria de ser vendida pela Câmara Municipal, entregando esta metade do valor da venda à administração do Hospital de S. Marcos.

A Câmara Municipal de Braga ficou com a responsabilidade de retirar 100$000 réis para custear as obras da igreja de S. Pedro de Maximinos. O restante dinheiro seria para custear a construção do edifício da escola.
As famílias pobres de Maximinos também não foram esquecidas. Assim, entregou a cada uma das 25 famílias necessitadas da freguesia de S. Pedro de Maximinos, que seriam escolhidas pelo seu cunhado António Madureira e, na sua ausência, pelo seu amigo Domingos José Soares, 4$000 réis.
A mesma quantia decidiu entregar a 25 famílias pobres e honestas da freguesia de Santa Isabel de Lisboa!
Ao seu sobrinho José Joaquim Caires Loureiro, entregou o relógio e corrente de ouro que costumava usar. Ao seu amigo dr. Francisco José da Cunha Vianna, entregou o seu relógio de ouro.
Todos os móveis e demais objetos que existiam na casa da rua do Anjo, em Braga, onde morava o seu irmão António, foram entregues à sua irmã Maria Rita Caires Madureira.
O legado de Joaquim Machado Caires merece ser sempre recordado com, por exemplo, uma estátua da dimensão da existente a Santos da Cunha, precisamente em Maximinos.

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