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O homem da vaca

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Ideias

2016-12-04 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Que voavam, assegurou o Costa. Que, à voz encantatória que é a dele, até vaca pastosa se elevaria com graça nos céus. Mago em lugar de banal primeiro-ministro! Economia estrangulada, estagnada? Qual quê, se dos lombelos de mágico ruminante, qual Aladino, o nosso vaqueiro-mor farejará os constrangimentos, o nosso falcão peregrino, arguto, fisgará o progresso - essa presa esquiva -, contornará as tibiezas abjuradas de fútil coelho, bestiolita à qual asa não cresceu.

Queríamos nós, que aos anos de penúria, de vacas magras, se sucedessem anos de bíblica abundância, de gorducha galega ou barrosã. Mas eis que nos troca os passos, o guardador de vacas e de sonhos que toca a manada. Servos de novilha de lata, nós que nos quereríamos adoradores de bezerra doirada. E Costa que não é Moisés!
Costa não é monteiro de partida de chocas, roliças, reluzentes, vaquedo que encha o olho e do qual se aguem as bocas. Costa é faquir de verbo anafado, sacerdote de vitela minguada, esquálida, içada das poeiras fétidas por vento forte de monção: bicharoco que esvoaça porque de nula substância.

Sortilégio que o Costa enuncia - com ele tudo será possível, pois se as vacas voam. Costa finalista de Hogwarts. Costa de eficacíssimo ‘vingardium leviosa’, conjuro para o qual não teria mão subqualificado, minimal Coelho.
Acreditará, Costa, na força das palavras? Eu, sim! E nem cairei no exagero de um Tomás de Aquino, que, não dando parte de fraco, a patranha que lhe pregavam, de haver vaca cruzando o firmamento, insistia o santo doutor da igreja em perscrutar os horizontes, angelicamente, pois, segundo ele, mais pronto vaca voaria que bento frade mentisse. Olho, pois, para o primeiro-ministro com credulidade aquina. Ele acreditará, ou fingirá crer.

Quererei que as vacas voem? Nem tanto! Basta-me a metáfora, a alegoria da viabilidade dos quase-impossíveis. Que o País boline entre escolhos e progrida, é o que espero. Fórmulas? Receitas? Eu, não tenho. Nem poderia ter. Mas, em reino de fábula, tal que também vacas concorrem pelos ares, banqueiro não cabe que coma de cinco mil bocas, atafulhando-se com o que é sonegado a cinco mil de iguais bocas que jejuam. A menos que a figura de estilo seja um entretém para o zé-povinho, um viático para suster cóleras e obviar insurgências.

Metáfora armadilhada. A vaca que voa sugere-nos que não há mais lugar para um Portugal de pequenos passos, como tampouco há já lugar para uma Europa que insista em matriz falida. Se era insustentável a Europa social, de que sustentabilidade faz gala a Europa liberal? Que as ditaduras não são solução, soluçam os que de costume tresmalham o voto de confiança que recebem nas urnas.

Sonhos e ilusões. À falta de líderes decentes, vão os povos em balelas. Trump, o tal que se apresentava contra o sistema, vem de nomear um barão do Goldman Sachs para a sua administração. Macron, que assumiu altas responsabilidades ministeriais nessa França de néscio socialista, pois não é ‘o homezico’ um delfim dos Rothschild, um arauto de todos os liberalismos?
Enfim, têm governado mal, as esquerdas, têm alisado caminho para as boas direitas. Sacudidos os compagnons de route, de que esquerda será o Costa? Da esquerda cow-boy?

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