Correio do Minho

Braga, quarta-feira

O homem com perda de sentidos

‘Tu decides’ e o AE Maximinos move-se pela cidadania

Conta o Leitor

2015-07-01 às 06h00

Escritor

Márcio Gois

De súbito parei, para recuperar o fôlego, mas esse gesto revelou-se inútil, pois o meu corpo vinha, de há uns minutos para cá, empalidecendo a um ritmo vertiginoso, acabando por desmoronar, sem o amparo de alguém, num chão laborado de pedra. Ainda assim, antes de cair estatelado e de fronte no chão, consegui esboçar, ainda que de relance, um último olhar sobre um dos braços de Apolo, tendo logo, no segundo seguinte, tombado sobre o meu dorso um horripilante e comprido véu que anunciava a minha perda definitiva de visão. Deitado agora ao comprido no chão, só penso em levantar-me.

Tento então mexer o dedo indicador da mão direita, esforçando-me o mais que posso, porém, ele permanece imóvel. Eis que reparo que o sangue que devia ocupar seus vasos sanguíneos se recusa, sob qualquer pretexto, a caminhar até este membro. Em seguida, tento mexer os restantes dedos da mesma e da outra mão, tento ainda mexer as pernas e levantar a cabeça que está deitada no chão sobre a face direita do rosto. Todavia, por mais que tente desembaraçar-me desta teia, o desfecho acaba por ser sempre o mesmo, ou seja, o de me embrulhar ainda mais nos seus apertados e inquebráveis fios que me vão, paulatinamente, retirando a vontade de continuar esta contenda.

Não vale a pena continuar a insistir, pois todos os ligamentos que unem os membros do meu corpo deixaram de ter de vez a elasticidade que lhes era reconhecida, carecendo de um líquido próprio que lhes retire esta maldita ferrugem. A carne que elas ligam não é senão agora matéria inerte, pronta e deixada à mercê de animais babosos e famintos com vontade de se deleitarem com uma refeição fresca. O pior de tudo é que tenho a quase plena consciência de quase tudo o que se passa à minha volta.

Continuo a ouvir, em desassossego, os passos de homens e de mulheres a baterem no chão; o chilrar dos pássaros e o grunhido de outros animais dos quais não sei o nome; o estrepitoso barulho do vento a bater nos vidros e nas paredes dos casebres e nas folhas das árvores; o ruído ensurdecedor da música das colunas dos rádios e das rodas dos carros a deslizarem numa superfície lisa e cinzenta, feita de betão. Embora não compreenda a bizarria desta situação, a única coisa que de momento posso fazer é esperar que alguma destas almas que, vagueiam de trás para a frente e de frente para trás, se aperceba deste meu estado e me ajude.

Se a memória não me atraiçoa, nunca pressenti com tamanha clareza o medo de ficar o resto da vida paralítico. Além disso, sinto um nojo agoniante da minha palidez que é irradamente parecida com a de um nauseabundo, depois de injetar na sua única veia sadia uma dose mortífera de heroína. Mas afinal, ao que é, ou a quem é que se deve este meu estado?

Lembro-me de, antes disto ter sucedido, sentir uma cólera, semelhante à da ciumenta Medusa, embora esta fosse estranhamente agradável. Surgiu depois de uma brisa cálida e agridoce ter entrado pelo meu nariz. Ela não me era estranha e continua a não sê-lo! Antes pelo contrário, lembro-me tão bem dela como dos ditirambos que cantava quando era ainda um catraio às garotas de S. Julião. Mas a quem é que ela pertence?

A um animal ou a um homem não é certamente, pois não abjurei a sua presença, nem ainda menos tive o vómito a subir-me pelo esófago. Não, estas são hipóteses que não têm qualquer cabimento. Só pode ser de uma mulher! Mas qual delas? Espera, é ela, só pode ser ela. Não há que enganar. Apesar de estar absorto por não me conseguir mexer mais, sei quem é proprietária deste bálsamo. Desde que a conheci, não há um dia do calendário judaico-cristão que seja em que eu não me lembre dela. Memorizei-a, como quem decora a tabuada dos nove, lembrando-me na perfeição da genialidade de todos os seus traços, linhas, arestas e curvas.

Recordo-me que, na última vez que a vi, o seu cabelo era, tal como no nosso primeiro encontro, liso, comprido e da cor do café, cobrindo, à frente, a pele gasta e tesa da testa, e, mais abaixo, as sobranceiras finas, escuras e em forma de semiarco, que eram apenas destapadas quando Éolo soprava sobre este uma brisa brejeira. E, à medida que ia deixando de olhá-la de frente e movia, em uníssono, os músculos oculares e a coluna vertebral em direção às ilhargas e à retaguarda do seu corpo, ia vendo os inúmeros e incontáveis fios de cabelo espalhados e pousados, ao de leve e em forma de anfiteatro aberto, na parte superior de suas costas e seus ombros, enclausurando eles em si, as orelhas, as vértebras, e mais de metade do pescoço.

Em seguida, ao olhá-la nos olhos vi, mais uma vez, que estes se pareciam com pequenos búzios de água salgada, largos ao centro e achatados nas extremidades, cortados ao meio por uma ligeira fenda onde se viam duas pérolas de uma negrura rara e virgem, só comparável à do traje das panteras. Ao baixar os olhos, como se estivesse a descer os degraus de uma escada, vi o seu nariz, altivo e seguro de si mesmo. Detinha a forma de um triângulo retângulo achatado. Estava cercado em ambos os lados, direito e esquerdo, pelas maças do rosto, pálidas por natureza, adquirindo uma tonalidade especialmente rosada somente quando ela se via perante situações que considerava pouco confortáveis. Ao descer mais uns degraus, dei por mim a admirar a jovialidade dos seus lábios cor-de-rosa pálido. Pareciam dois riscos retilíneos cuidadosamente feitos com uma régua e um lápis de bico fino.

Por lembrar-me agora dela, o meu coração acorda, num tremendo sobressalto, começando a agredir com enorme ferocidade e fraca sobriedade as cavidades, os orifícios, os órgãos, as veias e as artérias que o ladeiam, ao mesmo tempo que vai bobeando, com enorme desdém e para fora de si, esguichos de um líquido espesso, de cor avermelhada.
Num lapso, o coração amaina e o estômago, que roncava de fome, começa a alimentar-se de sua própria carne. Como estará ela agora?
Sinto-me, por mais estranho que pareça mais calmo agora do que quando caí, sem nenhuma razão aparente, nesta manta de pedra.

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