Correio do Minho

Braga, terça-feira

O grau abaixo de zero da política!

Confiança? Tínhamos razão.

Ideias

2017-02-26 às 06h00

Artur Coimbra

A telenovela da Caixa Geral de Depósitos está mais acesa do que nunca e promete uma sucessão interminável de novos capítulos, enquanto a direita não conseguir levar a água ao seu moinho, passe o plebeísmo. Houve uma comissão de inquérito cujo presidente se demitiu por alegadamente não conseguir fazer o que o seu partido nunca deixou fazer à oposição, é bom recordar, quando estava no poder; comissão de inquérito que querem levantar, por “agendamento potestativo”, obviamente com puros objectivos de tacticismo político.

Parece que francamente no país não há assuntos políticos mais importantes para debater. Parece que não há, porque as coisas correm de feição para quem governa, o que “irrita” solenemente as forças oposicionistas. Para a oposição, obviamente, importa mais massacrar o ministro das Finanças, Mário Centeno e o primeiro-ministro António Costa, numa altura em que os indicadores económicos são favoráveis, com insinuações sobre mensagens electrónicas e telefónicas trocadas com o inenarrável António Domingues, um homem que parece ter o rei na barriga e se crê estar acima de leis e regulamentos do próprio país e que se aplicam a todos os gestores públicos.

A mim, Deus me perdoe, que nunca me fez mal, causa-me náuseas aquela atitude do sonso!
Se o governo prometeu a Domingues um regime de excepção, de forma a ganhar mais e a retirar do escrutínio democrático o seu património, fez mal. Imensamente mal. Cometeu um grave erro, que está agora a pagar, com a guerrilha que lhe está a ser movida pela direita. Até porque a doutrina do Tribunal Constitucional vai no sentido de que os gestores públicos são obrigados a apresentar as suas declarações de rendimentos. E muito bem! O próprio Domingues vai ver divulgada a declaração de rendimentos que tanto se esforçou por esconder, vá-se lá saber por quê!...

Quanto à oposição de direita, ressabiada por não conseguir estar a trucidar os portugueses com a austeridade que lhe deu fama internacional (mas revolta entre os portugueses, como ainda este fim de semana reconheceu o social-democrata Fernando Seabra, ao admitir que o PSD fez sofrer os portugueses, não admirando que as sondagens lhe sejamdesfavoráveis…), tem como agenda política legítima opor-se ao que o executivo vai fazendo. E tanto tem para se opor!...

Mas apegar-se a mensagens electrónicas trocadas entre um indigitado gestor do banco público, que já passou à história, e um ministro das finanças que já mostrou ser mais competente que todos os antecessores do defunto governo juntos, é mesmo de quem não tem mais argumentos para a política activa. É o grito do desespero e da impotência elevado ao absurdo!..

Como cidadão, gostaria apenas de deixar algumas questões:
1) Que interesse objectivo é que tem continuar a novela das mensagens, se é verdade que Domingues já é passado, que a Caixa já tem nova administração e o que interessa é avançar para o futuro?
2) Ou essa gente que se entretém com a obsessão das mensagens tem objectivo interesse em que as coisas piorem para o banco público, de modo a que a recapitalização se problematize, e a Caixa venha a acarretar para os contribuintes os mesmos problemas que tivemos com o BPN, o BES ou o Banif? É isso que pretende? É esse o 'interesse nacional' que a direita defende?
3) Como é que se entende que as mensagens privadas entre dois interlocutores cheguem ao conhecimento do Presidente da República, que não é nenhum dos pares envolvidos: a PIDE ressuscitou e voltou a funcionar e a interceptar comunicações? Ou uma das partes resolve divulgar o que apenas a ele diz respeito? Alguém acha esta situação normal?
Não protege a Constituição da República o sigilo das comunicações? Com que autoridade é que os deputados querem ter acesso a mensagens privadas, ainda que sobre assuntos públicos?
4) Se os partidos da oposição, que deixaram a Caixa numa situação miserável, fossem governo, fariam diferente? Como é que fariam? Ou limitar-se-iam a cavar os “buracos” financeiros que legaram aos portugueses nos anos mais recentes e que todos estamos mais que fartos de pagar?
5) Mais importante que a palermice das mensagens, são as questões bem equacionadas pelo director executivo do Jornal de Notícias, Rafael Barbosa: 'Os 50 maiores devedores da CGD. Os 50 maiores créditos em incumprimento na CGD. Os 50 grupos económicos mais endividados na CGD.
Os devedores de montantes acima de 5 milhões de euros na CGD. A acompanhar todas estas listas, a indicação dos montantes, do nível de incumprimento, dos créditos reestruturados, das imparidades, das datas e das garantias concedidas. Bem como a identificação de quem decidiu os créditos e, se for o caso, a sua renovação ou reestruturação. Finalmente, uma lista discriminada de créditos superiores a um milhão de euros concedidos desde 2000, com a indicação dos que estejam em incumprimento'.
Isto é que era importante que fosse esclarecido. O resto, são amendoins e mera diversão de quem não tem mais nada que fazer na vida!...
6) Demitiu-se o presidente da comissão de inquérito à CGD, Matos Correia, deputado do PSD. Alegando que não conseguiu levar a cabo o seu trabalho, porque a maioria dos deputados da comissão (neste caso, de esquerda) não lhe permitiu fazer o que queria.
Que grande novidade: basta olhar para o que aconteceu nos quatro anos em que a direita teve a maioria e em que o PSD fez mais e pior nas comissões de inquérito em que estava dominava numericamente e nunca se queixou, nem se demitiu do seu 'excelente' trabalho!... Nem se preocupou com os “direitos da oposição”, esmagada pelo peso da “força da maioria”…
Mário Centeno é o primeiro ministro português das Finanças, em 42 anos, que baixou o défice para os 2,1%, melhor que o desempenho da Itália ou da França. Que recuperou o emprego e baixou o desemprego. Que aumentou as exportações e estancou a sangria da emigração dos jovens qualificados.

Mas a direita, que deixou para este governo resolver dossiês gravíssimos como os da TAP, Novo Banco, Banif ou Caixa Geral de Depósitos, que estão a ser ultrapassados, está apenas preocupada em saber se Centeno prometeu a Domingues o que não poderia cumprir!...
Ou seja, o grau abaixo de zero da política!...

PS - Nos últimos dias, mais lenha aparece para a fogueira do debate político. O caso offshores, que ameaça a queimar quem esteve no poder entre 2011 e 2014, ao caucionar, aparentemente, por acção ou omissão, a fuga de 10 mil milhões de euros para os paraísos fiscais.
Saia mais uma comissão de inquérito para a mesa do canto!...

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