Correio do Minho

Braga, quarta-feira

'O Gato', por Ana Maria Monteiro

Um futuro europeu sustentável

Conta o Leitor

2010-07-21 às 06h00

Escritor

Tirou uma lata de cerveja do frigorífico. Abriu-a enquanto se sentava no banco da mesa da cozinha.
O gato olhava-o fixamente em quietude plena, patas dianteiras juntas, as traseiras sobre a mesa em apoio a todo o tronco em ligeiro declive.

Deu um longo trago directamente da lata e estalou com a língua. Que prazer! A sensação da cerveja fresca a inundar-lhe primeiro a boca e a escorrer-lhe em seguida pela garganta, era um dos poucos prazeres que lhe restava. Mas, tal como dos outros, não tinha disso a menor consciência, limitando-se a usufrui-lo com ligeireza e displicência.

O gato mantinha a mesma posição e o mesmo olhar fixo como se lhe perscrutasse nos recônditos da mente os segredos de uma existência esvaziada de sentido aparente.
Desviou-se ligeiramente para evitar aquele olhar que lhe causava um certo incómodo. O gato, absolutamente imóvel, acompanhou o movimento mantendo-se inalterada a situação relativa de ambos.

Maldito gato! Amaldiçoou-se uma vez mais a si próprio por o ter acolhido. Para que raio queria um gato?
A verdade é que não o acolhera propriamente; aparecera uma vez, sentado no peitoril da janela (na postura exacta em que se encontrava agora) enquanto ele comia qualquer coisa ali naquela mesma mesa e, supondo (com razão) que tivesse fome, dera-lhe indiferentemente o prato com os restos do almoço. Aparentemente aquilo agradara ao gato que voltou no dia seguinte, e no outro e no outro… lentamente, foi entrando na cozinha, depois no resto da casa e, por fim, sem pedir licença, também dentro dele.

Sem dar por isso e sem sequer nunca lhe ter dado nome (limitava-se a ser “o gato”) passara a viver acompanhado. O gato entrava e saia pela janela quando muito bem queria, vivia em plena liberdade, mas aquela casa passara a ser sua também.

Fartava-se de vociferar interiormente com “a porcaria do gato”, mas a verdade é que não desgostava de partilhar com ele o seu espaço e a sua solidão que desta forma ficava um pouco habitada.
O gato tinha aquele hábito de o olhar fixamente com ar de conhecimento absoluto, como se soubesse perfeitamente os seus medos e segredos e vivesse muito bem com todos eles.
Mas o gato não sabia nada. Se soubesse era igual, porque não passava de um gato, mas não sabia.

O gato nada sabia da guerra, de Bissau, de Fá Mandinga, do cheiro a mato, dos camaradas mortos, das inúmeras atrocidades da guerra.
O gato nada sabia porque era apenas um gato.
E ele, ele Manuel Álvaro, que sabia ele?
Nada. Absolutamente nada. Apenas que para ali fora enviado “Pela Pátria” e que por ela supostamente lutara, lado a lado com muitos outros que não regressaram ou voltaram estropiados de corpo, de alma, ou de ambos.

Que sabia ele?
Quando regressou, o pai já tinha morrido e a mãe chorara lágrimas de alívio e regozijo pelo seu regresso são e salvo. A terra recebera-o em festa a ele, ao Luís e ao Zé Pedro, todos os três regressados aparentemente incólumes.

O luto pelos que iam ficando fazia-se em silencio, dia após dia, no coração de quantos os haviam amado e nos longos suspiros das noivas e namoradas que haviam deixado: viúvas infecundas ainda antes do casamento, corpos normalmente virgens e almas perdidas em sonhos e divagações, que essa viuvez antecipada permitia pintar das mais belas cores, cores com que certamente a realidade nunca as teria brindado.

Deixara a terra e fora para a cidade. À procura de um futuro, dissera. Mas era falso. Antes não suportava a tacanhez da aldeia, a proximidade física, os paparicos da mãe com o seu olhar de perpétua ansiedade quanto ao seu humor e a tudo quanto lhe dissesse respeito, os bebés gordinhos e anafados das irmãs sempre presentes nos almoços dos Domingos e as memórias comuns duma infância que se perdera e que, em todo o caso, só fora feliz porque é esse destino marcado de quase todas as infâncias.

Na cidade, virara-se como pudera, ia arranjando uns biscates e sobrevivendo, um dia de cada vez, sem pensar muito no futuro e tentando, isso sim, conciliar no presente um sono sem pesadelos - que raramente vinha.

Deixara o gato entrar na sua vida porque era um gato - silencioso, parco de movimentos (embora gracioso e ágil) e porque lhe fazia alguma companhia não pedindo em troca nada mais que estar ali.

Com o gato não havia perguntas que exigem respostas, não havia gestos de carinho de que se espera a correspondência, não havia apelos de qualquer tipo ao seu ego irremediavelmente ferido e marcado por uma guerra em que participara apenas porque para ela fora enviado, e de que regressara sem nunca ter chegado a sequer procurar compreender o seu sentido.
Mas o gato passara a incomodá-lo. O seu olhar fixo e penetrante substituía-se às perguntas que a nenhum humano ocorria perguntar-lhe.

O gato, que nada sabia, aparentava tudo saber. O gato, que nada esperava, sentava-se numa ausência de movimento expectante, como se dele, a qualquer momento pudessem sair enormes feitos. O gato, que nada dava, aparentava a majestosidade daqueles a quem tudo é devido.
Levantou-se e dirigiu-se ao frigorífico para tirar mais uma cerveja, mas haviam terminado.
Sentou-se de novo, desanimado. Hesitava se iria ou não à mercearia do outro lado da rua buscar mais. O dinheiro era pouco e a vontade nenhuma, a inércia dominava em boa parte os seus dias. Em contrapartida, de noite, era o frenesim. Adormecer era acordar quase invariavelmente lá, na guerra, rodeado de perigos visíveis e invisíveis, minas e armadilhas, emboscadas, buracos abertos à pressa, sede, muita sede, e mosquitos ainda mais - embora o menor dos inimigos.

E matar e morrer. E deixar para trás corpos insepultos, para repasto dos bichos e não saber nunca qual seria o seguinte, quando seria o seu.
E acordar e ver o gato e ter uma cerveja à espera no frigorífico.
E adormecer de novo e voltar ao horror.
E um dia segue-se a uma noite que por sua vez dá lugar a mais um dia.

Ainda foi ao médico procurar ajuda para dormir em paz, o médico disse-lhe imensas palavras cujo sentido lhe escapou, falou-lhe em stress pós não sabe o quê e em terapias e grupos de apoio.
Não quis saber, aviou os comprimidos.
Durante algum tempo, dormiu mais mas não melhor. Não, não melhor; o sono era pesado e em vez de lhe ser proporcionado o alívio do acordar quando era demasiado mau, o comprimido mantinha-o lá, a sonhá-lo e a vivê-lo.

Nem os tomou todos, deixou-os ao alcance do gato, podia ser que os quisesse. Mas o gato é sábio - nunca lhes tocou e acabaram por desaparecer da vista, perdidos num canto qualquer, envergonhados pela sua ineficácia.

A vida continua, sempre igual: uns biscates, umas cervejas, noites longas e temidas.
O gato está lá sempre.
Fixa-o com o seu olhar de gato.
Imóvel, acompanha-lhe cada movimento, esquadrinha-o por dentro e por fora.
E continua ali.
Sempre.
Olha, mede, avalia, pesa.
O gato. O gato. O gato….

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