Correio do Minho

Braga, quarta-feira

O FUZIL DE MÉLENCHON

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2016-06-12 às 06h00

José Manuel Cruz

Dirá, recente relatório do FMI, que as virtudes do Neoliberalismo teriam sido aditivadas, e os riscos, se os ponderaram, relegados para segundo volume, mas a escrever 40 anos depois. Com a peça na rua, o chefe-economista da casa apressa-se a atestar que a nocividade da teoria é marginal, e que os conselhos que nela assentam resistem a todos os entorses. O FMI produz relatórios a esmo, aliás deve ter gente especialmente tomada para o efeito, que no papel a realidade é muito mais asséptica e operável. Como bem sabemos, o ‘concreto’ é uma solene chatice.

Não quero alardear ciência que não possuo, e assim reconheço que não li o papelucho, que pouco dirá que eu - nós! - não saibamos de antemão. Ignoraremos que, sobre qualquer assunto, se pode afirmar algo e o seu contrário? Não nos apercebemos nós da progressiva degradação de salários e trabalho, da vida em geral, nos últimos anos? Pelo prisma que miro a realidade, diria, sem grande erro, que o capitalismo era mais modesto ao tempo da Guerra Fria, e que, com o comunismo soviético degolado, se deu a um ‘posso-quero-e-mando’ sem freio, majorando os benefícios do capital a expensas do denegado a uma distribuição equitativa, a serviços públicos de qualidade, ao bem-estar das populações.

Mas não há mal que não acabe, não é verdade, e aqui e ali sentem-se os perfumes da mudança. Domingo último ouvíamos a Jean-Luc Mélenchon, truculento líder do francês Parti de Gauche: “vós, que como eu pensais, que os boletins de voto são as balas dos vossos fuzis!” Levava boa vintena de minutos, a alocução, quando esta frase se fez ouvir. Disse-a com voz contida, pleno de candura, como se murmurasse harmoniosa cançoneta de embalar, só que para adultos, e para que a repetissem, os eleitores que o ouviam, ali mesmo, na Praça da Batalha de Estalingrado, e por todo um ano, no antegozo de eleições presidenciais, como quem se afirma e predispõe para que desta vez seja a tal.

Frase proferida em tom encantatório, despedida de raiva, mas transbordante de convicção, à imagem do Sena que em fundo se vislumbrava, rio por estes dias prenhe de águas avassaladoras. Roçou Mélenchon os quatro milhões de votos em 2012: duplicará o score em 2017? É certo que nem com o dobro da votação verá ser-lhe confiado o chaveiro do Palácio do Eliseu. Mas, com um PS francês em frangalhos, porque incapaz de governar, porque impotente perante os contínuos protestos de rua; perante um PS paralisado, refém de reinvestidura por inerência de presidente em funções, ainda que Hollande não agrade nem ao menino Jesus, não se vê, de facto, quem melhor que Mélenchon para absorver os votos da esquerda, tomando de assalto o próprio PS, a começar pelos órfãos aglutinados no protesto ‘eu nunca mais votarei PS’.

Uma peça notável de oratória, o discurso de Mélenchon. Absteve-se de nomear ou de se posicionar contra Marine Le Pen - o grande leito, aquele por onde escorre uma parcela importantíssima do eleitorado francês, incluídos os votos de uma fatia do operariado. E se o eleitorado, farto de décadas de abusos, cansado de ser razoável, se decidir pelas extremas? Soltam advertências e esconjuros, os do costume: que por uma se cairia na abominação fascista, e por outra na penúria, que recuariam os capitais para não mais tornar! E não valerá mais o Homem que o Capital? E não seremos já crescidinhos para que nos assustem com papões?
E se a segunda volta em França se disputar entre Le Pen e Mélenchon? Seria bonito de acompanhar. Certo, certo, é que a Europa não seria mais a mesma.

* Psicólogo
(Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico)

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