Correio do Minho

Braga,

O futuro dos jornais

Macron - Micron

Ideias

2018-09-13 às 06h00

José Agostinho Pereira

Basta olhar para a lista das previsões falhadas – o Observador publicou há pouco uma lista de 40 que falharam tanto que fazem rir -, para se perceber que o futuro é uma caixinha de surpresas. Em todo o caso, à luz daquilo que somos e dos padrões do comportamento humano que estamos habituados a constatar, ousamos com frequência algumas sentenças futuristas. Uma das mais comuns nos dias que correm é a de que o jornal em papel jamais acabará porque a sua natureza física não só é insubstituível, como é também uma espécie de reserva deontológica da classe jornalística – o argumento foi realçado há relativamente pouco tempo por várias vozes a propósito do fim da edição em papel do Diário de Notícias. Nas antípodas deste, mas igualmente posicionado em jeito de sentença, está a previsão de que o papel tem os dias contados e que a via digital deterá num futuro próximo a exclusividade para o fluir do caudal informativo. Encontro-me entre os que consideram a discussão um tanto ou quanto inútil e centro o assunto não no tipo de suporte para a comunicação de futuro, mas na qualidade da mesma.

É verdade que o advento das redes sociais e a adesão dos órgãos de comunicação social, mesmo os de maior referência, ao irresistível apelo dos ilusórios gostos, fez criar a ideia de que tudo é farinha do mesmo saco. Muito por culpa da utilização que as pessoas e também muitos dos jornais deram e dão às redes, o espaço digital foi ficando associado ao mundo da superficialidade, da volatilidade, do relativismo e das notícias falsas. Embora o sendo também, não o é de todo exclusivamente. O problema é que no espaço digital cabe tudo e neste tudo há um potencial de guarida de lixo absolutamente gigantesco. Mas o inverso também é verdade. Também cabe, à distancia de um simples clique, todo o saber humano de rigor científico, assim como as mais bem construídas reportagens jornalísticas e as mais belas e bem estruturadas histórias do que acontece à volta do mundo.

O desafio que se coloca nesta questão da comunicação é, por isso, duplo. A nós, leitores e consumidores de informação, é-nos exigida cada vez mais a capacidade de filtragem da informação. Não podemos comer tudo o que está disponível. Temos que ser ponderados e utilizar o bom senso, que mais não é do que o bom uso da razão. Esta é uma responsabilidade nossa, e prescindir dela é alienar a nossa individualidade. E convém notar que, com um pouco de atenção, é fácil perceber de que lado está o trunfo.
Aos jornais, pelo menos àqueles que conhecemos e que damos crédito, o importante é que não percam a face e se mantenham fieis, independentemente do suporte através do qual veiculam a informação, às suas linhas editoriais. Esta é uma responsabilidade deles, dos órgãos de comunicação social.

Todos conhecemos bons e maus projetos e não é pela simples condição de serem impressos que são uma ou outra coisa. Assim como não é por serem nacionais, regionais ou locais que são mais ou menos importantes.
A minha sentença é que o jornalismo terá sempre o seu lugar no mundo, independentemente da forma como é veiculado. Cabe-nos a nós cidadãos separar o trigo do joio, porque os dois estão lá como sempre estiveram, embora sob outras roupagens. E não haja dúvidas, quanto mais valorizarmos os bons projetos, dedicando-lhes tempo e atenção, mais eles vão subsistir e deixar a sua marca no mundo.

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