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O futuro do trabalho em Portugal

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O futuro do trabalho em Portugal

Ideias

2019-11-29 às 06h00

Rui Marques Rui Marques

Aevolução da economia nunca foi tão rápida, imprevisível e disruptiva como aquela a que estamos sujeitos na atualidade. Desafios como a digitalização da economia, a automação do trabalho e as alterações climáticas, à boleia da evolução vertiginosa da tecnologia, estão a revolucionar o trabalho e a obrigar as empresas a reinventar os seus processos produtivos e organizacionais.
Um estudo publicado recentemente pela CIP - Confederação Empresarial de Portugal, designado “O futuro do trabalho em Portugal – o imperativo da requalificação”, afirma que Portugal tem um elevado potencial de automação, referindo que, hoje em dia, 50% do tempo despendido em tarefas laborais é suscetível de ser automatizado recorrendo a tecnologias já existentes, podendo o mesmo aumentar para 67%, em 2030, mediante o aparecimento de novas tecnologias.
A taxa de adoção das tecnologias de automação pelas empresas, face à evolução potencial na próxima década, irá determinar a velocidade e o impacto que o processo da automação virá a registar no mercado de trabalho.
Certo é que um ciclo económico semelhante ao atual, com uma baixa taxa de desemprego, funcione como um incentivo ao investimento em automação, atendendo à dificuldade das empresas em encontrar mão-de-obra.
A automação é já hoje uma realidade que está a acontecer em diversos setores e empresas e o estudo, a partir da análise de um cenário em que metade das tarefas que têm potencial de ser automatizadas serão automatizadas até 2030, aponta que este processo poderá vir a extinguir cerca de 1,1 milhões de postos de trabalho.
As maiores reduções de postos de trabalho estarão concentradas em ocupações altamente repetitivas e físicas, nos setores da manufatura, comércio por grosso e a retalho, suporte administrativo e agricultura. Por outro lado, ocupações que exigem um elevado grau de aplicação de conhecimento ou interação humana serão menos implicadas, como as atividades ligadas à saúde e educação.
Contudo, este processo de automação irá, também, gerar a criação de novos empregos, devido, por um lado, ao crescimento direto dos setores ligados à oferta e manutenção de tecnologias ligada à automação, e, por outro lado, ao crescimento económico que decorre do aumento da produtividade que a automação proporciona.
O volume de criação de emprego dependerá das políticas adotadas pelo Estado em resposta à automação e da geração de novos tipos de ocupação. Num cenário onde estas fontes de criação de emprego se verifiquem, é possível que a quantidade de postos de trabalho, em termos líquidos, permaneça inalterada.
Não será, com certeza, tomando medidas anti-automação que o Estado garantirá um saldo nulo neste processo, nomeadamente com medidas disparatadas como a tributação sobre os robôs, ao nível da TSU. Pode fazê-lo sim, apoiando e estimulando a automação das empresas e, deste modo, a sua produtividade e, em paralelo, criando políticas públicas efetivas de apoio à requalificação das pessoas.
De facto, o que fica claro neste estudo é que, independentemente do número de postos de trabalho criados ou perdidos em termos líquidos, cerca de 700 mil trabalhadores terão de alterar a sua ocupação ou adquirir novas competências até 2030. Este é verdadeiramente o grande desafio colocado pela automação. É preciso que a força de trabalho se requalifique atempadamente para que os postos de trabalhos criados em ocupações e setores diferentes possam ser preenchidos pelos trabalhadores que viram a sua ocupação automatizada.
Prevê-se, assim, que, até 2030, 42% dos trabalhadores em Portugal tenham de atualizar as suas qualificações ou mudar de profissão para permanecerem empregados.
Esta requalificação implicará a mudança de qualificações dos trabalhadores quer a nível horizontal – na abrangência de novas aptidões – quer a nível vertical – no grau de especialização sobre cada aptidão, sendo que, em Portugal o investimento em requalificação de trabalhadores tem um retorno económico elevado: 4 vezes face ao custo, para um trabalhador que se encontre empregado, e 9 vezes para um que esteja desempregado.
Atualmente, os desafios da requalificação prendem-se com a falta de coordenação de políticas públicas por parte do Estado e de iniciativas públicas dirigidas para a população empregada, a baixa qualificação da maioria dos trabalhadores (cerca de 80% dos trabalhadores em Portugal apresenta baixo níveis de qualificação) que torna o processo de requalificação mais difícil e a ausência de incentivos aos empregadores, que, talvez por isso, invistam pouco na requalificação dos seus funcionários.
Ou seja, ao contrário do que alguns velhos do Restelo andam a apregoar, a crescente automação quando acompanhada pela requalificação da força de trabalho constitui uma excelente oportunidade para que os trabalhadores portugueses mudem de tarefas de baixo valor acrescentado para alto valor acrescentado, o que permitirá um aumento da produtividade dos trabalhadores e das empresas, com os consequentes benefícios que daí decorrem como a melhoria das condições salariais.

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