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O futuro do sistema político e a crise no PSD

Assim-assim, ou assim, sim?

O futuro do sistema político e a crise no PSD

Ideias

2019-01-20 às 06h00

Manuel Barros Manuel Barros

As últimas semanas ficaram marcadas por vários acontecimentos de grande relevância política em Portugal, na Europa e na cena internacional. De entre os factos, vou dedicar esta crónica a uma reflexão sobre a situação que o PSD enfrenta neste momento, pelo seu impacto na dinâmica política nacional, com especial enfoque na vida interna do partido. Destaco este facto, pelo seu papel estruturante do nosso sistema político, e pelo seu papel no contexto de consolidação do nosso sistema democrático, da estabilidade democrática, do equilíbrio, da clarificação ideológica e da governabilidade do País.
Um sistema político que tem vindo a manifestar sinais de obsolescência. Sinais que se prendem com a capacidade de recrutamento de quadros com qualidade e aproximação das novas gerações, com a formação e a qualificação de quadros e de militantes. Desafio que está ao alcance dos responsáveis políticos e, neste caso concreto, ao alcance do PSD. Um processo fundamental para evitar a falência do sistema, porque as pessoas estão disponíveis para darem o seu contributo de forma empenhada. Colocando a política no centro da agenda da reforma do sistema e do partido. Uma reforma que deverá estar assente numa abertura maior, transparência, proximidade e renovação, sustentada na meritocracia dos atores políticos.
Neste sentido, esta crise no PSD, pode consubstanciar uma excelente oportunidade de abertura à sociedade e uma dinâmica de renovação interna. Um ponto de partida para uma reflexão sobre o sistema partidário português. Criando e promovendo as condições para reafirmar a sua dimensão de um grande partido na construção do nosso futuro coletivo, e não uma mera máquina de poder e defesa dos interesses individuais ou de grupo. Renovando a sua capacidade de perceber os grandes desafios do mundo atual e no futuro. Evitar o afastamento dos portugueses dos partidos políticos e da democracia representativa, deixando as lutas internas pelo poder em favor de uma nova visão, uma nova estratégia e um novo projeto político. Um problema extensivo a todos os partidos políticos.
O problema não está nos cidadãos. Os portugueses têm dado provas de capacidade, apetência e disponibilidade para a participação cívica. A dificuldade está na incapacidade dos paridos políticos de criarem de espaços de debate e de intervenção, fora do espaço tradicional de ação política e da lógica tradicional de militância e das lutas intestinas pelo poder, que os partidos têm demonstrado. Foi contra este estado de coisas, que Rui Rio assumiu os destinos do PSD, preconizando uma liderança forte, sólida e um novo projeto político. Uma liderança legitimada pelos militantes, suportada por uma visão para Portugal, suportada por uma vitória nas eleições legislativas, que dispõe do maior grupo de deputados eleitos no parlamento, e neste momento está empenhada na construção de uma visão alternativa para o país. Pressupõe um PSD estabilizado, mobilizado e determinado, que se diferencia coligação que suporta o governo. Como um partido, que apesar dos acordos de regime pontuais, não cabe no “bolso” do PS ou da Geringonça.
Neste perspetiva, as análises e as apreciações positivas ou negativas devem ser contidas, sob pena de prejudicarem, gravemente, a credibilidade e a visão alternativa, que está a ser construída. Sob pena de enfraquecer e debilitar a dinâmica de oposição, e contribuir para a afirmação de uma visão única, com consequências negativas imprevisíveis para o país. Por esta razão, a resposta à tomada de posição assumida por Luís Montenegro, deverá ser serena e equilibrada, porque foi legítima apesar de não ter sido oportuna. Uma posição que teve o mérito de ter intensificado o debate interno, num ano que vai ser marcado por três atos eleitorais. Uma resposta que deverá ser capaz de afirmar uma alternativa política credível e assertiva, á atual solução governativa.
O momento de instabilidade política que o PSD está a viver, exige uma análise profunda e de alguns ajustamentos de metodologia e de alguns protagonistas. Depois de vencer as eleições diretas, há apenas um ano, Rui Rio apresentou o seu ideário e as suas prioridades políticas. Instituiu o Conselho Estratégico Nacional e definiu as áreas prioritárias de intervenção. Desde logo a reforma e um novo pacto para justiça. A “estratégia para a década” na educação, registou uma evolução bastante significativa, com enfoque no problema da falta de alojamento no ensino superior, na rejeição da ideia de acabar com as propinas e na questão do tempo de serviço dos professores, com sustentabilidade orçamental.
A proposta de uma lei de bases da saúde, equilibrando a oferta entre o Estado, os privados e o setor social, numa perspetiva de “proximidade inteligente”. Foram, na mesma linha, realizadas ações de atualização do pensamento sobre as políticas sociais, e muito em particular da segurança social. As reformas estruturais, a descentralização e a desconcentração e o combate sobre o desenvolvimento do interior, são áreas onde foi desenvolvido muito trabalho. Uma dinâmica que definiu prioridades, que culminaram na reforma do sistema político, para a qual foi nomeada uma comissão com a missão de promover uma reflexão de fundo, sobre o funcionamento do partido e do sistema do político. Muito já foi feito, e neste contexto, alguns processos foram iniciados com base numa grande mobilização de quadros do partido, do ensino superior, do setor empresarial e do setor social da sociedade, que terá o seu ponto alto na Convenção Nacional a ter lugar em Coimbra.
Entretanto, reuniu o Conselho Nacional, órgão máximo entre congressos, onde foram confrontadas ideias de forma elevada e leal. A situação de crise interna foi clarificada, e a posição do líder foi reforçada. Criando as condições de pacificação, para continuar o trabalho em torno do futuro do sistema político e, de forma mais pragmática, no ajustamento estratégico do partido, em relação aos atos eleitorais que se avizinham. Fazendo jus da sua matriz social democrata, deverá reafirmar que não é, seguramente, um partido de direita, recentrando o seu espaço político.

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