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O futuro do mundo rural

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O futuro do mundo rural

Ideias

2021-11-11 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

Do coração da aldeia do Sistelo, integrada no Parque Nacional Peneda-Gêres, partem trilhos mágicos que nos levam a uma experiência única. No domingo passado, decidimos em família fazer o Trilho das Brandas. Seguimos monte acima, até aos pontos mais altos onde se encontram ainda os antigos abrigos de pedra que serviam de casa temporária aos pastores que no verão ficavam no monte, guardando os rebanhos e as manadas de gado.
Pelo caminho tanto a urze como o tojo florido, tudo nos parece sorrir como quem abre as portas de casa e nos convida a entrar. A abundância de água é tal que corre literalmente por entre as pedras dos caminhos e por todo o percurso, ao longe, ouvem-se as cascatas ao encontro do Rio Vez. Pouco tempo passa até encontrarmos as primeiras cachenas que nos olham, curiosas mas tranquilas, para logo retomarem a rotina do pasto e da ruminância, nada temendo da presença humana. Segue-se um bosque frondoso, atapetado por húmus denso e folhas caducas. Por fim, inicia-se a descida entre granito fragoso, de novo ao encontro das cachenas, mas não sem antes olharmos vezes sem conta para a linha alargada do horizonte e nos sentirmos no topo do mundo.
Em todo o percurso, fomos testemunhas humildes e comovidas da união profunda e harmoniosa entre a Natureza e as gentes que desde há séculos moldam a paisagem do Sistelo. Caminhando em plena Reserva Mundial da Biosfera, torna-se assim mais clara, se mais clara poderia ser para mim, a necessidade de lutar pela vitalidade das nossas zonas rurais.
Desde o início do meu mandato parlamentar, assumi a defesa da vitalidade do mundo rural como uma das minhas prioridades de ação no âmbito da Comissão da Agricultura e do Desenvolvimento Rural. Por essa razão, a minha recente nomeação como relatora para o relatório de iniciativa do Parlamento Europeu sobre as zonas rurais, na sequência da comunicação da Comissão Europeia sobre uma visão a longo prazo para as zonas rurais, deixou-me particularmente feliz.
Esta será uma oportunidade de contribuir para uma posição do Parlamento Europeu que seja efetivamente reveladora da importância que atribuímos ao mundo rural e ao papel central que desejamos venha a ter num futuro que se exige mais verde, mais justo e mais resiliente. As zonas rurais exigem desde logo políticas públicas que no seu desenho e na sua concretização contemplem a importância estratégica das parcerias locais com os atores que no terreno melhor conhecem os seus desafios e potencialidades, que melhor entendem a necessidade de aumentar a sua atratividade, mas sem as descaracterizar nem por em causa a riqueza da sua biodiversidade. Refiro-me a atores tão importantes e distintos como as autarquias, os grupos de ação local, as cooperativas, os produtores locais, parceiros fundamentais na concretização de projetos de valorização do mundo rural, e que necessitam por conseguinte dos meios e da autonomia para agir localmente.
As zonas rurais também nos exigem o reconhecimento da centralidade da atividade agrícola nestes territórios, seja pela riqueza da própria biodiversidade agrícola que lhe está associada, seja pela capacidade quase única de ancorar populações, evitando o despovoamento e abandono das terras. A agricultura é por isso uma atividade económica essencial à vida do mundo rural, não sendo substituível por outras atividades e devendo por isso congregar todos os apoios que permitam, nomeadamente, a continuidade dos métodos e práticas agroecológicas, da pecuária extensiva, dos sistemas agroflorestais tradicionais.
Uma terceira nota. As zonas rurais devem ser preservadas, mas não têm de ser condenadas a uma existência museológica.
Necessitam de interconetividade, de infraestruturas físicas, de serviços sociais, de tudo aquilo que enfim possibilita a vida no dia a dia de uma família, que deseja educar os filhos, erguer um projeto de vida, dinamizar os seus produtos agrícolas num mercado cada vez mais digital... O mundo rural não é nem um cenário ‘do passado’ nem um cenário ‘de veraneio’ para as urbes cansadas. O seu tempo e o seu espaço coexistem na mesma contemporaneidade do tempo e do espaço urbano e como tal têm o mesmo direito a ser parte integrante do nosso futuro, o que implica decisões políticas que as acompanhem nessa trajetória.

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