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Braga, sábado

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O futebol é o haxixe do povo

Decisões que marcam

O futebol é o haxixe do povo

Ideias

2018-05-11 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

No passado sábado, 5 de maio, horas depois de Sporting e Benfica terem empatado no estádio de Alvalade e o Futebol Clube do Porto ter assegurado, com um número de pontos já inultrapassável por qualquer outro clube, a conquista do seu 28º campeonato nacional de futebol, o presidente do clube, Pinto da Costa, declarou a vários órgãos de comunicação social, em primeiro lugar ao Jornal de Notícias, que o que o continuava a animar para trabalhar dedicadamente (aos 80 anos) em prol da afirmação e sucesso do clube da Invicta era contribuir para dar alguma alegria àqueles que no dia a dia levam uma vida particularmente difícil, propiciando a essas pessoas, que poucos motivos de felicidade têm, momentos como esse para sorrirem e festejarem.

Surpreendeu-me essa inquietação social do presidente do FCP, quase tanto quanto o tom não triunfalista das suas declarações, embora, noblesse oblige, sem se coibir de umas alfinetadas ao rival vermelho, cada vez mais enredado em suspeitas de ter ganho os últimos campeonatos usando esquemas pouco lisos, quiçá mesmo ilícitos, e de assinalar, com manifesto deleite, que o sonho de um penta-campeonato só o clube nortenho ainda o realizou. Perguntei-me ao ouvi-lo: será que Pinto da Costa se tornou marxista? Na verdade, recordei, ele revolucionou, juntamente com José Maria Pedroto, o FCP e, por arrasto, o futebol português a partir de meados da década de 1970. Terão sido eles, portanto, o Fidel Castro e o Che Guevara da bola entre nós?

Uma associação naturalmente se impôs: então não é que também estamos no ano em que se comemora o nascimento de Karl Marx, curiosamente também a 5 de maio de 1818!? E como uma associação depressa conduz a outra, facilmente evoquei na minha mente as palavras imorredoiras do pensador germânico em Para uma crítica da filosofia política de Hegel (1843): A miséria religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, a alma de um mundo sem coração, assim como o espírito de estados de coisas embrutecidos. Ela é o ópio do povo..

No nosso tempo, nem a papaver somniferum, cujos efeitos maravilhosos o contemporâneo de Kant e de Marx, Thomas De Quincey, descobriu na cura de uma dor de dentes e mais tarde na melhor compreensão da conhecida Crítica da Razão Pura da autoria do primeiro, é já a droga mais consumida, nem a religião goza da popularidade desses tempos. Essa reputação têm-na hoje a cannabis sativa e o futebol. Nesse sentido, melhor será talvez adotar a paráfrase: o futebol é o haxixe do povo.
Pinto da Costa, ao contrário de Marx, deteta no culto do futebol politeísta, com cada um adorando o seu deus que pode ter cores diversas, azul para uns, verde para outros, vermelho para aqueloutros, embora quase todos clamem a necessidade de um Concílio de Niceia aspetos positivos.

Assim, onde o filósofo de Trier lia uma inaceitável servidão (aparentemente) voluntária a criaturas imaginárias, uma humilhação antropológica enraizada numa ilusão alienadora bem urdida pelas classes dominantes para servir interesses seus, o presidente dos dragões vê um inebriamento existencialmente útil.
Segundo ele, pois, o inalar dessa mística, dessa devoção ao FCP, em que cada adepto se deixa unir e absorver no corpo maior que é o do clube, para desse modo participar de algo maior que a seu projeto de vida individual, tem o poder de confortar.
Tendendo a concordar com Marx, consolo por consolo, então que seja em tons de azul.

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