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Braga, quinta-feira

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O futebol e a praxe académica como arquiteturas do vazio

Artistas que Monserrate viu nascer

Ideias

2017-12-18 às 06h00

Moisés de Lemos Martins Moisés de Lemos Martins

A agência americana de notação financeira, Fitch, acaba de tirar Portugal do “Lixo” - o que é uma grande notícia para o país. Mas enquanto isso, o lixo permanece a paisagem obrigatória e uma figura maior do nosso quotidiano. O lixo é ambiental, e tanto constitui o nosso ambiente físico, como o nosso ambiente mental. Tornado coisa natural, o lixo faz hoje parte das evidências do nosso mundo.

Esta evidência entra-me todos os dias pelos olhos dentro na Universidade. Em cortejo de rebanho humano, de verme a remexer a terra, de manada conduzida pela arreata, as imediações do Campus universitário, e o próprio Campus, encenam o ano inteiro, do cantar do galo ao sol-pôr, esta habitualidade de caserna, esta pedagogia boçal, de aprender a dobrar a cerviz. A toda a hora, hordas de sargentos lateiros, fardados à urubu, refastelam-se em seus festins, cobrindo de negrume a Academia, pela reativação incessante do jogo dos tiranos.

Embora não seja especificamente na praxe académica que centro a minha reflexão, porque gostaria de refletir sobre os programas televisivos de futebol, apenas na aparência este quotidiano académico é distinto desse quotidiano que as televisões nos servem, em enxurrada. A praxe académica e os programas televisivos sobre futebol não têm outro imaginário que não seja o lixo. É no lixo que se atolam. E é no lixo que nos colocam, a nós cidadãos.

Mas também é verdade que em ambos os casos a apatia dos média e a apatia dos cidadãos têm sido a regra, quando de modo nenhum o deveriam ser. Porque o lixo é o efeito de uma sociedade sem exigência, anémica e tíbia, de uma sociedade que já está por tudo e que a tudo encolhe os ombros. O lixo é um programa para embrutecer à vontade. O imaginário imbecil e boçal que entretece a praxe e os programas televisivos de futebol, apenas serve a bestazinha, que habitualmente se encontra bem acachapada em nós, mas que no Campus universitário e nos programas desportivos da televisão têm liberdade para correr, a bom galope, em devastação.
Centremo-nos no futebol. Presidentes de clubes, do Benfica, do Porto e do Sporting, personagens escorregadias e sem qualquer grandeza. Diretores de comunicação ao serviço destes clubes, quais sociopatas, que não dão com a porta de entrada do hospício, de onde parece terem fugido.

Comentadores de televisão, em grande parte enfeudados a clubes, que vivem da arruaça e da quezília, alimentando-as infindavelmente. As claques organizadas, legalizadas ou não, quais hordas de jagunços, sempre prontas a alinhar numa batalha campal. E então, aquela gente mafiosa, que viceja na órbita dos clubes e que se impõe às suas direções; porque é usada a fazer trabalho sujo, os clubes são incapazes de a dispensar. Enfim, antigos árbitros, que não desgrudam do lixo e nele remexem incansavelmente, e que assim prolongam o estertor agonizante do futebol.

Carlos Daniel, grande jornalista, e apresentador e comentador de exemplares programas desportivos, disse-me um dia que o jornalismo desportivo era um caso à parte no jornalismo. Imagino que me disse isso, porque o desporto, sobretudo o futebol, mobiliza e exacerba as mais violentas paixões, sendo que, na paixão, por regra se perde a cabeça.
Mas de modo nenhum a paixão justifica a calamitosa situação por que passa, hoje, o futebol em Portugal.

E, todavia, eu ainda me lembro do “cantinho do Morais”. Foi em 1964, na final das Taças das Taças, uma competição europeia que já não existe. Num jogo de tira-teimas, o Sporting venceu, com um pontapé de canto direto, depois de ter empatado o jogo da final das Taça das Taças por 3-3, contra o MTK de Budapeste. Ah! e sei tudo sobre “os cinco violinos”, o fabuloso quinteto de ataque do Sporting, que se impôs no futebol português da segunda metade da década de 40 do século passado.

E também me lembro bem do fabuloso golo de calcanhar do Madjer, com que o Porto anulou a vantagem do Bayern de Munique, para depois selar a vitória, com um golo de Juary, na final da Taça dos Campeões Europeus, jogada no Praterstadion, em Viena. Estávamos em 1987 e o que eu vibrei com a vitória do Porto! Juro que ainda sei de cor os nomes de toda a equipa, de Młynarczyk a Paulo Futre.

E que fabulosa era equipa de Mourinho, com Ricardo Carvalho, Jorge Costa, Deco e Derlei, uma equipa que em 2004 fez do Porto campeão da Europa, ao bater o Mónaco por 3-0, em Gelsenkirchen, na Alemanha.

É verdade, gosto mesmo muito de futebol - para mim, um desporto incomparável. Quando andava no sétimo ano (hoje, 11.º), joguei no Mafrense. Era médio avançado. Ainda há poucos dias, um amigo meu, remetendo-me para os tempos em que eu tinha nos olhos a eternidade, colocou no meu mural do Facebook a equipa dos meus radiosos 17 anos, comigo logo na fila da frente.
Sou benfiquista, com uma alma forjada a ouvir relatos de futebol no rádio, em que os meus heróis eram Costa Pereira, Águas e Eusébio, e que por meados dos anos sessenta ficava deslumbrado diante da TV, quando o Benfica era metade da seleção nacional, a sua metade dianteira, de Jaime Graça e Coluna, José Augusto, Eusébio, Torres e Simões.
Sou benfiquista, mas sobretudo gosto de futebol. E, por essa razão, posso entender a grandeza dos clubes que rivalizam com o meu, seja o Sporting, seja o Porto. E também gosto do Braga, o clube da minha cidade. E do Vitória de Guimarães, um clube cujos ecos atravessaram a minha infância, tendo eu nascido em Vila Cova da Lixa, no Concelho de Felgueiras, a duas dezenas de quilómetros de Guimarães.

Por essa razão me dói a alma diante da atual transformação por que passa o futebol - uma verdadeira entronização do lixo, com o país parado, a ver, não sei se fascinado por esta tenebrosa arquitetura do vazio.

Diante da atual pedagogia imbecil e boçal de intolerância cívica, de fechamento ao outro, mais, de aniquilamento do outro, que as televisões nos servem nos seus programas sobre futebol, ainda o que mais me surpreende são as audiências, que os justificam. Apenas uma sociedade sem exigência pode tolerar este imaginário, imbecil e boçal, e se permite assumir o lixo como programa para embrutecer à vontade. E não se conclui outra coisa dos comentários dos adeptos nos jornais desportivos, e também nas redes sociais: sendo o assunto o futebol, por todo o lado vemos a mesma bestazinha, a correr, a bom galope, em devastação.

Hoje, discutir o jogo e picarmos os novos rivais com graçolas, de boa camaradagem e boa disposição, parecem já não têm lugar no futebol. Do futebol como prática desportiva apenas restam, verdadeiramente, os extraordinários pontapés na bola, que se podem dar dentro das quatro linhas. Mas que, sintomaticamente, também por regra, são dispensados pela generalidade dos programas desportivos.

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