Correio do Minho

Braga, segunda-feira

O folclore, as festas e os festivais que o celebram

O mito do roubo de trabalho

Escreve quem sabe

2016-01-13 às 06h00

José Hermínio Machado

Nos anos oitenta do século passado, quando comecei as minhas actividades folclóricas em mais larga escala, não só para fundamentar alguns conteúdos curriculares escolares que então estavam na ordem do dia, mas também para sustentar a organização de um grupo folclórico de professores, a leitura de obras que nos contassem como é que trabalharam os recolectores, estudiosos, investigadores, folcloristas, etnomusicólogos, etc., não estava disponível como está hoje, o caminho tinha cada um que o fazer e inferir das obras e trabalhos publicados as metodologias que cada um seguiu e com que cada um se confrontou.

Hoje dispomos de obras sobre os métodos de alguns dos mais importantes estudiosos e investigadores dos conteúdos do nosso folclore, termo que precisa sempre de mais aprofundamentos. Recentemente, o realizador Tiago Pereira, o tal da Música Portuguesa a Gostar Dela Própria, tornou esta questão emergente, por força da visibilidade que os seus trabalhos estão a alcançar.

Recomendo, pois a leitura de duas obras que me parecem importantes para quem gosta destes assuntos: uma é portuguesa, Armando Leça e a Música Portuguesa , 1910-1940, da autoria de Maria do Rosário Pestana, publicada em 2012 pela editora Tinta-da-china; outra é americana, Alan Lomax: The Man Who Recorded The World, da autoria de John Szwed, publicado em NY: Viking, 2011, obra que li em versão electrónica e que constitui uma biografia de Alan Lomax, um dos maiores recolectores da música americana e das músicas do mundo. Para o artigo de hoje, o contributo destas obras está em mostrar-nos a evolução das ideias sobre o que consideramos folclore musical e não só, está em mostrar-nos o seu crescimento e a sua construção enquanto conteúdos culturais, patrimoniais, civilizacionais.

O facto de recomendar a leitura de obra de estudiosos de países diferentes é para que o leitor anteveja que, em diferentes regimes políticos, com diferentes metodologias, os problemas focados e os objectivos definidos transformaram os conteúdos estudados em valores imprescindíveis ao desenvolvimento dos povos. O leitor poderá confrontar, neste tipo de obras, como foram evoluindo as representações sobre o que se percebe como tradições dos povos e o que se pode fazer com elas em cada momento presente dos seus povos, para que é que se estudam e para que é que se mobilizam; e neste confronto, o leitor pode tomar consciência das dinâmicas que as tradições têm nos diferentes países.

Por exemplo, a propósito de festivais folclóricos, repare o leitor na conclusão a que chegaram os organizadores, em 1966, de um dos maiores festivais de Folclore, o Newport Folk Festival, realizado em Newport, Rhode Island, Estados Unidos, e que se iniciara em 1959: para além de discutirem novamente os conteúdos e os artistas e os desempenhos (os estilos, as variedades de reportório, as origens, os grupos e os indivíduos), para além de verificarem as mudanças de gosto e de público no consumo dos conteúdos mostrados ou exibidos, os organizadores concluíram que o festival precisava de mostrar, para além da música, também a cultura material, ou seja, a arte e o artesanato, o mobiliário, os brinquedos, as roupas, tudo o que mostrasse à audiência a vida quotidiana das populações rurais que fomentavam os conteúdos, o festival deveria incluir grupos de trabalho sobre a dança e a preparação de comidas, o que hoje denominamos «workshops», e ainda também programas de serviços religiosos (dada a variedade de manifestações musicais associada aos cultos, na América).

De então para cá, muitas ideias se concretizaram sempre no sentido de integrar, retomar e renovar as tradições na vida actual das pessoas que as continuam a prever como valores ou bens consumíveis. Estamos já em ritmo de preparação de festas e festivais para o corrente ano, estamos portanto em tempo de pensar que tradições devemos e podemos mobilizar para encantar o nosso dia-a-dia e o tornar mais contributivo para o nosso bem-estar.

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