Correio do Minho

Braga, segunda-feira

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O flagelo das tabernas em Braga

Comunidades de aprendizagem

Ideias

2019-03-17 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

A relação do Homem com a sociedade esteve sempre em constante evolução, nas mais variadas áreas. Na maioria das situações, essa evolução esqueceu o passado e alterou regras e procedimentos vigentes até então. Contudo, em algumas áreas, baseou-se nas tradições do passado e um dos exemplos mais surpreendentes está ligado às tabernas.
Conhecidas também por tascas, as tabernas no nosso país tiveram grande importância durante todo o século XIX e até às últimas décadas do século XX. A partir daí, começaram a perder importância e quase desapareceram. No entanto, nos últimos anos, especialmente nas grandes cidades, como Lisboa, Porto ou Braga, assistimos a uma recuperação de casas de pasto tradicionais, baseando-se nas tabernas que pensávamos já terem passado o seu tempo de vida. São tabernas de requinte, que nos oferecem alguns dos melhores pratos de cada região.
Em Braga, a partir da segunda metade do século XIX, assistimos à afirmação das tabernas como locais de convívio popular, enquanto os cafés destacavam-se como espaços de convívio mais distinto, mais intelectual. Por vários locais da urbe, no período de tempo atrás referido, predominavam em tão elevado número, que causavam grande incómodo aos vizinhos ou a quem por lá passava.
Quase exclusivamente frequentadas por pessoas do sexo masculino, as tabernas começavam a ter muito movimento, logo pela manhã, quando os camponeses e artesãos, ao dirigirem-se para o trabalho, não dispensavam aí a sua primeira ingestão de bebidas, nomeadamente vinho tinto ou aguardente, para “matar o bicho”, como costumavam dizer.
Ao final do dia, no regresso do trabalho, os homens voltavam a aí entrar, para o consumo de uma (ou várias) malgas de vinho, mas agora acompanhado por alguns petiscos, destacando-se os carapaus, a sardinha, a cavala, o bacalhau e outros peixes fritos, sempre acompanhados por uma consistente broa de milho e uma ou outra sopa. Claro que o centro de toda esta refeição era o vinho, normalmente servido aos quartilhos (meio litro) ou às meias canadas (de litro).
Os taberneiros, para melhor atrair os seus clientes, permitiam a realização de jogos, nomeadamente as cartas, mas também o jogo da malha ou do fito e o da laranjinha, jogo onde se lançam bolas de madeira, em direção a uma bola mais pequena, com nome de "laranjinha".
Ao final do dia, quando alguns já estavam cansados do trabalho, outros cansados de nada fazer, associados à quantidade de álcool ingerido, os jogos tradicionais que se desenrolavam nas tabernas eram motivo para acesas disputas, muitas delas terminando em agressões. As pessoas que circulavam nas proximidades das tabernas assistiam, com frequência, a discussões entre os clientes, com uma linguagem tão inconveniente e desbravada, que fazia corar todos os que a ela assistiam. Muitas dessas discussões terminavam após graves agressões físicas.
Associado a esta situação, muitos mendigos juntavam-se à porta da taberna, criando situações de grande reboliço social. O jornal “Correio do Minho”, de 9 de janeiro de 1929, fazia eco deste flagelo, que acontecia um pouco por toda a cidade de Braga. Afirmava que o “perigo das tabernas é cada vez mais evidente e todas as medidas que tendam a reduzir esse perigo merece gerais simpatias”. Para além das tabernas, a mendicidade era outro flagelo em Braga, que se “alastra pavorosamente por todas as artérias da cidade, tomando o caracter dum verdadeiro flagelo”.
A preocupação dos bracarenses, quanto ao elevado número de tabernas existentes nos bairros de Braga, era tão intensa que o Governador Civil ordenou ao Comando da Polícia que impedisse “a colocação de ramos de loureiro ou doutras árvores à porta das tabernas existentes nas principais artérias da cidade”. O Governador Civil solicitou também à Polícia que averiguasse quais “as tabernas que, pela sua frequência de reputação duvidosa ou frequentes conflitos, convirá que sejam encerradas ou que não devam funcionar depois do toque habitual do recolher”. A preocupação dos bracarenses relativamente ao elevado número de tabernas era tão grande, que tudo o que fosse feito para reduzir o perigo desses estabelecimentos comerciais era bem-vindo.
A apreensão quanto à mendicidade era também evidente, ao ponto de o Comando da Polícia estar obrigado a fazer “recolher às terras da sua naturalidade os mendigos de fôra do concelho”.
Alguns dos locais, onde se destacavam mais tabernas e mendigos, era a rua Justino Cruz, na qual “se aglomeram mendigos como se aquela rua fosse caminho para uma romaria”! Também a própria rua de S. Marcos, tão central e atrativa, estava marcada por uma multidão de mendigos!
Hoje, assistimos de novo à afirmação das tabernas, agora locais de requinte, tendo os clientes à sua disposição, tal como no século XIX, os carapaus, as sardinhas fritas, a cavala, o bacalhau, a broa de milho e, também, um bom vinho!

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