Correio do Minho

Braga, segunda-feira

O Filósofo, o Arcebispo e o Político

Escrever e falar bem Português

Ideias

2016-12-18 às 06h00

José Manuel Cruz

Quis escrever sobre Francisco Sanches, sobre vandalismos e negligências que tornam o pedestal do filósofo indecifrável. Polémicas à parte, bracarense de gema ou nem por isso, mas nosso, se por nós reivindicado, será o Sanches um dos mais insignes filhos da terra, pelo tanto merecedor de estudos que o exaltem, de homenagens que o revivam. Ou, no mínimo, de estátua em decente estado de conservação.

Registamos vagas de turistas que desembarcam na Arcada, para reganharem assento em autocarro que os espere não longe da Sé. Um par de horas de passeio, com regular fotografia ao painel publicitário da Brasileira, mais um ir-e-vir ao Jardim de Stª Bárbara, mais brejeiro apeadeiro defronte da Casa das Bananas - resenha de tradições e fálicas vasilhas de licor na montra - e ala para a Sé, que feita fica a visita.

- Largo de S. João de Souto? Nunca vi! Uns minuticos de palestra sobre Francisco Sanches, sobre o seu contributo para a Filosofia ocidental? Não, não consta do manual do guia diligente! É pena, pois, metido o Sanches ao barulho, outros exemplos de lusa cultura poderiam ser chamados à colação: por que não uma pagela com um soneto de Sá de Miranda como oferta? Tenho para mim que o turista é um recolector de únicos e curiosidades, e a nós a tarefa de fazermos bom uso dos trunfos que temos em carteira.

Quis escrever sobre Francisco Sanches a sério, e sobre D. João Peculiar por galhofa. Estátua de bispo de fálico báculo, composição proscrita, excomungada de nobre largo... E sugestões que tenho dado, para que tão emblemática obra seja deslocada uns métricos para poente, ali para o enfiamento da judiaria nova, pois que circuncidado o adorno do bordão cerimonial. Braga no seu melhor! Pénis litúrgico, ali à vista de velha rua de mulheres de má vida. Quem sabe, não viraria romaria? Quem sabe, não rivalizaria com o São Gonçalinho, com o Stº António, com as pedras parideiras? Quem sabe, não viesse a ser procurado por crentes com disfunção eréctil? Milagre! Milagre!

Quis escrever sobre Sanches e Peculiar, eu que pouco cuidado presto ao burgo, sobre vicissitudes e homenagens imperfeitas a homens de fino quilate. Arrasam-me, porém, os coros afinados que preitos tamanhos entoam em louvor de Mário Soares, o maior dos campeões entre os paladinos da nacional democracia. Possa Soares recuperar para alegria de amigos e familiares! Perecerá, naturalmente, pela regular ordem das coisas.

Passará ao Além envolto em perfumes de santidade republicana, terá pré acordada trasladação para o panteão nacional. Talvez nenhuma estátua lhe sobreviva dentro de quinhentos ou mil anos: e que contas faço, bom Deus! Mas melhor falarei hoje, que após fatalidade sobrevinda. Soares é incensado como nenhum outro político do novo regime, como se, sem ele, qual trave-mestra, todo o edifício democrático ruísse, ou sequer tivesse chegado a ser erigido. Republicanos retintos confessam que abjurariam a Republica em favor de nova casa real, semelhante a perfeição e exemplaridade soarina.

Precisamos de heróis e de ídolos, e até entre os políticos, mas eu gostava de estar certo de ser Soares figura de tal recorte. O regime que Soares e Cavaco implementaram é este que vivemos, o das bancarrotas e corrupções, o dos salários de miséria e das profundas disparidades sociais. Quanto à badalada Democracia, essa teria chegado de qualquer modo, com ou sem abriladas, porque até os outros teriam emendado a mão.

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