Correio do Minho

Braga,

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O fantasma de Montalegre e Satanás com calças na mão

Como vai ser a proteção do consumidor europeu nos próximos anos

Ideias

2010-06-28 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

A sociedade oitocentista portuguesa, principalmente a rural nortenha, ficou marcada por alguns acontecimentos que se tornaram célebres. Merecem ser agora recordados dois deles, devido ao mediatismo que então alcançaram.

O primeiro ocorreu em 1885 na freguesia de S. Vicente de Chã, no concelho de Montalegre, terra actualmente conhecido pelas suas actividades centradas na questão do “sobrenatural”, dinamizadas pelo conhecido Padre Fontes.

Nesta freguesia existia um lavrador que era conhecido pela sua astuciosa valentia. Forte e robusto, tinha o hábito de trabalhar nos campos até longas horas da noite. Como na época, sem luz eléctrica, a escuridão é que marcava as frias noites do Inverno montalegrense, todos se admiravam com a coragem e o destemor deste lavrador. Segundo o jornal “Cruz e Espada”, de 31 de Janeiro de 1885, este lavrador ”Não era medroso, affrontava os mistérios do silêncio, ignorava o sobrenatural e, sobretudo e o mais provável, confiava no seu braço de boa tempera para affrontar visões”.

A valentia deste lavrador era tema de conversa de toda a freguesia. Aliás, até nas freguesias vizinhas de S. Vicente de Chã eram muitos os que comentavam esta coragem do lavrador.
Perante esta fama, não faltava quem lhe quisesse pregar partidas, de forma a testar a sua real valentia. Foi por isso que, no final do mês de Janeiro desse ano de 1885, três jovens da freguesia resolveram embrulhar-se em lençóis brancos e, pegando numas velas, correram em direcção do lavrador que, durante a noite, executava sossegadamente os seus trabalhos de lavoura!

Perante esta provocação, o lavrador desatou a correr para casa, facto que provocou enorme risota aos três jovens. Orgulhosos, conversavam entre si acerca do susto que o homem tinha apanhado, preparando-se para, no dia seguinte, contar o episódio a toda a freguesia de S. Vicente de Chã!

Regressado a casa, o homem ainda pensou em pegar na caçadeira e dirigir-se ao campo mas, de repente, decidiu enfrentar os fantasmas “cara a cara”. Então, resolveu também ele embrulhar-se num lençol e, com velas em punho, apareceu de surpresa aos três fantasmas! Estes, perplexos com o que lhes estava a acontecer, correram a toda a velocidade pelos campos, fugindo rápido e para bem longe da presença do fantasma!

O problema é que o lavrador, agora vestido de fantasma, correu tanto que conseguiu apanhar um desses rapazes, que se encontrava calçado com uns enormes tamancos.
Depois de o identificar, deu-lhe uma reprimenda, mas deixou-o partir sossegadamente. No entanto, o susto que o jovem apanhou foi de tal forma violento, que acabou por lhe ser fatal. Segundo o jornal acima mencionado, o jovem esteve três dias em casa, doente, findo os quais, “dava a alma a Deus, assaltado de pavores, ardendo em febre e a tiritar no leito”.

O segundo episódio que aqui quero apresentar ocorreu em Vila Verde, em 1884.
Os finais do século XIX ficaram marcados por momentos de crise económica, de crise social e ainda de alguma conflituosidade política. Era uma época em que a economia, pouco lucrativa, centrava-se numa indústria quase inexistente, num comércio externo deficitário e numa agricultura com bases rudimentares. Os portugueses, aqueles que podiam, emigravam para o Brasil, enquanto os outros limitavam-se a sobreviver no Portugal marcadamente rural.

A região do Minho estava marcada por um ambiente económico baseado no contrabando, onde a fuga aos impostos e a ruralidade da nossa economia era uma constante. Por isso, quando se falava em inspector das finanças ou em comissário da polícia, as pessoas parece que viam o diabo! Foi o que aconteceu em Vila Verde, no dia 6 de Junho de 1884.

Estavam várias pessoas no café do senhor Ferreira Braga quando, de repente, viram um homem a abrir a porta e a espreitar sorrateiramente para dentro do estabelecimento. Mal viram esse senhor, as pessoas que se encontravam dentro do café desataram a correr como uns autênticos desalmados. Fugiram, uns pelas janelas e outros para o telhado, apavorados que esse senhor fosse o comissário da polícia, que na altura assustava tanto como “Satanaz”!

De facto, o senhor Pimentel, o tal que entrou no café, apenas pretendia dirigir-se à casa de banho, uma vez que se encontrava desesperado para fazer as suas necessidades fisiológicas. Abrindo a porta devagar e colocando a sua cabeça dentro do estabelecimento, as pessoas desataram a correr, porque viram um homem com uma pêra: “É o commissario da polícia - diziam umas almas bemfazejas que se achavam n’aquella sala…” (1).

Mal ouviram estes desabafos, gerou-se uma tal confusão que, uns “correram para os telhados a procurar refugio nas casas visinhas, onde há gritos de - aqui d’el-rei ladrões - outros procuraram esconder-se em sítios occultos; e ainda outros, precipitando-se sobre um telhado de vidro que põe em estilhas, vêm cair n’uma garrafeira que fica nas trazeiras da casa e próximo da cosinha!”.

Estupefacto com toda esta situação, o senhor Pimentel, de calças na mão, observava todo este alarido, também ele preocupado e sem perceber muito bem o que estava acontecer. Mais à frente é que o senhor Pimentel compreendeu que foi a sua maldita pêra que causou toda esta situação!

Para “grandes males grandes remédios”. Por isso, o senhor Satanás, perdão, o senhor Pimentel, decidiu cortar a sua pêra pelo “tronco”, para evitar que a mesma causasse novas confusões.


1) - Jornal “Cruz e Espada”, de 7 de Junho de 1884.

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