Correio do Minho

Braga,

O espírito de Natal

Verbos defetivos

Voz às Bibliotecas

2018-12-20 às 06h00

Victor Pinho

Se há livros que são procurados nesta época natalícia, estes são os álbuns ilustrados sobre o Natal, a Bíblia e as passagens que falam da vida de Jesus Cristo, bem como os diversos livros e colectâneas que publicam poesias alusivas à época. Não são de menosprezar ainda as obras que falam das terras onde se deram os principais acontecimentos há mais de dois mil anos, destacando-se a cidade de Belém, no tempo do rei Herodes.
Este espírito natalício, da ternura, da paz e da solidariedade, percorre as salas, os gabinetes de trabalho, os muitos leitores que procuram a tranquilidade e o conforto dos nossos espaços e as crianças e jovens que participam no projecto “Férias Divertidas”.

Mas, o espírito de Natal existe ainda na decoração feita, com carinho e ternura, onde avulta o presépio, a cabana feita com livros, com as principais personagens desta história milenar: as figuras da Sagrada Família (São José, a Virgem Maria e o Menino Jesus), os pastores e os três Reis Magos, Belchior, Baltasar e Gaspar. Algumas Bibliotecas chegam mesmo a fazer o presépio tradicional português, acrescentando animais domésticos, os moleiros e os seus moinhos, as lavadeiras, ranchos folclóricos, bandas de música, mulheres com cântaros à cabeça, entre outras figuras populares, peças que resultam do trabalho incansável e prodigioso dos nossos ceramistas. Aliás, nesta forma de produção artesanal, Barcelos é singular, apresentando uma variedade de estilos e de figuras que marcam a diferença relativamente a outros Municípios e o consagram como Cidade Criativa da Unesco.
O espírito de Natal existe ainda nas inúmeras actividades participadas por crianças e jovens que procuram os nossos serviços, nesta época de férias escolares, repovoando as salas e os cantos, outrora cheios, mas que a carga escolar e extra-escolar descartou.

Algumas Bibliotecas, alargando a época festiva ao balanço do ano, elegem os seus melhores leitores, atribuindo prémios, que outra coisa não poderia deixar de ser, se não livros.
Época de Natal, tempo de aconchego e de amizade, em que nos tornamos mais solidários, e mais irmãos.
Permitam-me que recorde aqui um episódio deveras curioso, passado há já alguns anos, nas antigas instalações da Biblioteca Municipal, na rua Infante D. Henrique. Frequentava-a um leitor, para além da meia idade, internado na Casa de Saúde de S. João de Deus, por questões de “escrúpulos”, como me referia, quando o interrogava das razões da sua vinda para aquele estabelecimento, e que gozava de total à vontade para entrar e permanecer, livremente, nas duas salas de depósito de livros. Além de ter traduzido do latim o foral afonsino, que chegou a ser publicado no Boletim Bibliográfico e Informativo da Biblioteca Municipal, o seu entretenimento, ao tempo, era cotejar uma tradução da “Eneida”, de Virgílio, do século XVIII, com uma da actualidade e apontar as suas diferenças.

Muito religioso, exercendo até as funções de sacristão na igreja da Casa de Saúde, um dia descobre o livro “Os Crimes de Jesus Cristo”, de José Agostinho, editado, no Porto, por António Figueirinhas e com ex-libris de A. Álvares da Silva, que fazia parte da biblioteca particular deste ilustre causídico barcelense, residente na freguesia de Pedra Furada – Barcelos, e doada ao nosso Município na década de 1950. Tirou-o da estante e colocou-o em cima da minha secretária com a anotação manuscrita que devia ser retirado da Biblioteca, por o considerar impróprio de ser lido. Aliás, as mensagens manuscritas sobre os mais diversos assuntos, numa escrita demasiado elaborada e, às vezes difícil de compreender, eram frequentes, o que me deixava, por vezes, perplexo.

Certo dia, convidei-o para ir passar a ceia de Natal comigo e com os meus familiares, depois de obtida a devida autorização. Recordo a sua satisfação e alegria. Na hora da troca de prendas, lá ofereceu aos meus dois filhos, então ainda pequenos, duas pilhas eléctricas, objectos com que se iluminavam, de noite, quando a luz dos dormitórios se apagava, até ao nascer do dia. No ano seguinte, de novo o convidei, mas não compareceu. Nunca soube o motivo.
Pouco tempo depois, obteve carta de alforria e foi viver para um lar de Trancoso, terra da sua naturalidade, onde o cheguei a visitar e permanece ainda, nos seus noventa e três anos de idade.
Espírito de Natal que leva as pessoas a olhar para os outros de forma diferente. É que, tal como o poeta Ary dos Santos escreveu: “E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei / fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei / pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei / és meu irmão, amigo, és meu irmão.”

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