Correio do Minho

Braga, quarta-feira

O escriba encornado pelo próprio conto

O que nos distingue

Conta o Leitor

2015-07-20 às 06h00

Escritor

António Viana

Ouvi-me agora, senhores, uma estória de espantar, uma estória dos tempos de hoje e com tendência a continuar.
Fala de um escriba com pretensões a escrever, que não fosse a escrita míngua do seu dia-a-dia de afazeres, mas com o sonho de mais acrescentar ao já tanto que foi escrito, e na sua escrita feita de ímpetos, mais do que labores, lá escreveu pequeno conto que tanto prazer lhe deu.
Não sabia se grande escrita, sabia é que era em prosa, em contraciclo da poesia, e disso queria aquilatar um pouco, mas sempre tartamudeando nos caminhos a percorrer.

Sabedor de um desafio interessante, emanado por um periódico lá do burgo, lá se fez de brios e enviou o seu conto, o primeiro dos muitos que entendia escrever, para a proposta jornaleira de possível edição do que se enviasse.
Entre receios e resfôlegos enviou uma história de título, ‘História da Menina do Reino do Faz de Conta’, que era a menina dos seus olhos por ter sido a primeira escrita em prosa.

Pobre escriba, educado em linhas de agradecimento pelas acções de dádiva ou de trocas espontâneas entre os seres, vê-se confrontado com o silêncio da outra parte. Nem um seco, ditado por automatismos que este mundo das comunicações produz, “acusamos a recepção do seu conto”. Nada, um nada que o fez perguntar-se, “então se nada, porque me meti em nada e se nada é o que resta, há que retirar o texto do nada, como se nada se tivesse passado”.

Deu o escriba mais uns dias, desejando estar enganado, desejando que uma pequena nota lhe dissesse que as pessoas afinal até tinham alguma educação e a ausência de sinal de vida não mais fosse do que produto de muito trabalho, tráfego excessivo nas linhas, interrompendo as tais saudáveis trocas de palavras que tornam o mundo um nada melhor.
Seis dias, passaram seis dias e o nada subsistiu. Logo pegou na tinta do teclado e escrevinhou a sua indignação, comunicando que independentemente da apreciação deles retirava o seu texto e desautorizava a publicação do mesmo.

Sentiu que tinha corrigido aquele desvio de percurso que o levara ao nada, sentiu-se vingado, limpando o percalço em objectivo de nada daquilo ter acontecido e os dias de escrevinhação continuarem em crença de, um dia quem sabe?
No dia seguinte ao envio do corrector de erros, ou seja, neste caso ao envio do e-mail, que apagava qualquer sinal de acontecimento do fosse do que fosse, recebe um atónito e-mail. Dizia o conteúdo, que não compreendiam o teor do e-mail do escriba, dado o conto ter sido publicado no dia tal, dois dias antes, em data de aniversário do dito matutino.

Se indignado estava, agora a indignação saía-lhe pelos poros, por cada orifício que tinha, mesmo por aquele que diariamente rejeita o que de indigno temos no corpo por inaproveitável.
Foi salvo da apoplexia indignada pelo pensamento, “eles publicaram e logo no dia de aniversário deles”. Ficou a salvo da apoplexia, mas com a indignação a continuar. Sentia-se um corno do seu conto, o corno que é sempre o último a saber. Corno, mas não manso, havia que espernear, dar coices, vociferar e, sim, usar as hastes, que lhe encimavam agora a testa, em golpes de retaliação.

Num rasgo de isto não pode ficar assim, mais uma vez alapa os dedos nas teclas e aí foi ele em escrita de indignação misturada de agradecimentos, que mesmo indignado ele era educado, a tal educação de retribuição e reconhecimento dos gestos agradáveis praticados. Havia que separar o trigo do joio e reconhecer o que está mal, assim como o que está bem.

Isto e aquilo e etc., dizia na sua indignação, que deviam comunicar o dia da publicação por aquilo e isto, que não acusaram a recepção e nem um olá de agradecimento e etc., que obrigado pela publicação apesar de tudo, os tais gestos de urbanidade, educação, reciprocidade, que gostaria de ter comprado uns quantos exemplares para si e para os próximos, etc.

Enviado o e-mail, acalmou, centrou-se no gozo de terem publicado o seu conto, mesmo que os critérios fossem o que fossem. Tinha um conto seu num jornal.
Não durou muito esta satisfação, porque não tardou a resposta jornalística, que pediam desculpa, nem se sabe ao certo de quê (talvez fosse circunstancial), que etc., que fornecesse o escriba a morada, pois teriam todo o gosto em enviar uns exemplares.

Já refilava de si para si o escriba, a questão não estava em dois ou três exemplares gratuitos e muito menos na edição inteira, convenhamos que não convinha, pois retirava a possibilidade aos leitores do periódico a leitura do seu conto, (ehehe), mas sim na ausência de dois simples e-mailinhos, um a dizer, ”Acusamos a recepção do seu conto. Obrigado pela participação”, e o outro de conteúdo, “Serve a informar que o seu conto vai ser publicado no próximo dia X”. Coisa simples, não acham? - achava assim o escrevinhador.

Responde, não responde, morada, não morada, pensava o coitado metido onde nunca pensou meter-se. Decisão! Nem resposta nem morada, nem mais nada, iria à sede do periódico comprar três exemplares sem minimamente se dar a conhecer e esquecer todo este episódio. Assim pensado, assim feito, …bem, não totalmente verdade, porque esquecido não ficou, dado me ter contado toda esta história.

Tal como o escriba eu também acho que sim que bastavam dois simples e-mailinhos e por isso me encontro nesta posição de narrador desta história do escriba que foi encornado pelo seu conto, para que se lhe faça a justiça de não voltar a ser encornado, não pelo conto, pobre coitado que só quis ganhar mais asas, mas pelos que editaram a sua história sem um olá de resposta.

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