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O erotismo na política

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O erotismo na política

Escreve quem sabe

2020-06-05 às 06h00

Carlos Alberto Cardoso Carlos Alberto Cardoso

Nos últimos tempos, têm proliferado nos media estudos de opinião e sondagens sobre o grau de erotismo e sexualidade dos políticos nacionais e internacionais. Por todo o mundo, são muitas as listas dos políticos mais sexys feitas por órgãos de comunicação mais ou menos respeitáveis do panorama internacional.
Sabendo que cada vez mais a política é também saber seduzir os eleitores, decidi estudar e investigar, em tese de doutoramento, a problemática do erotismo nas relações dos políticos com o eleitorado. Parti então para as seguintes questões: O erotismo é uma fonte de comunicação utilizada pelos políticos? O erótico é o quarto capital dos políticos? Está a política, à semelhança da publicidade, a utilizar o corpo como objeto de culto? Os políticos portugueses exploram, consciente e deliberadamente, o seu capital erótico para comunicar e relacionar-se com o eleitorado? E o eleitorado português deixa-se, de alguma forma, influenciar por esse capital erótico, quer seja no voto ou, simplesmente, na preferência? É ainda interessante estudar as diferenças entre homens e mulheres, enquanto emissores e recetores desse capital erótico. Ou seja, as mulheres e os homens políticos do nosso país utilizam de forma diferente o seu capital erótico? E como esse é percecionado pelo eleitorado feminino e masculino?

A reflexão sobre o erotismo, como forma privilegiada das relações interpessoais, nasce com a civilização. Já em Platão, está presente um dos aspetos mais relevantes da reflexão erótica: a função libertadora de Eros, problema que foi retomado pela psicanálise ao descrever o seu aspeto libertador para o indivíduo (Freud) e para a sociedade (Jung e Reich), bem como para ressaltar o seu caráter de confronto com o sistema (Marcuse, Bataille).
Convém destacar que as motivações eróticas de um indivíduo ou o interesse sexual que um objeto pode criar em alguém é, habitualmente, qualificado com “objeto sexy”. Segundo Octávio Paz, erotismo é aquilo que a imaginação acrescenta à natureza.
Assim, erotismo é uma manifestação de sexualidade, que provoca ou motiva interesse sexual, sentimento de desejo, de liberdade, noutros indivíduos e cujas caraterísticas variam segundo a sociedade que se escolhe como modelo de análise em determinada época de existência.

A investigadora Olivia Munõz-Rojas, publicou um artigo no “El País”, com uma
reflexão sobre o atrativo estético e sexual do então ministro grego das Finanças, Yanis Varoufakis, aquando da sua visita oficial à Alemanha, no ano 2015. “Pobre, mas sexy” foi um dos títulos que mais circulou na imprensa internacional, em referência a Yanis Varoufakis, que seduziu os alemães nesta sua deslocação. Escreve a investigadora espanhola que, “independente de concordarmos ou não com as suas posições na negociação sobre a dívida grega, a imprensa alemã não poupou elogios para descrever o seu físico (“irradia uma masculinidade clássica que associamos normalmente às estátuas gregas”) ou o seu caráter carismático e ao mesmo tempo informal. Os elogios continuaram na imprensa de outros países, conforme Varoufakis se reunia com os diferentes líderes políticos europeus”.

Varoufakis não é o único político considerado pelos media como “sexy” e “atraente”. Na verdade, de acordo com estes, seria possível dizer que, hoje, proliferam os homens e as mulheres atraentes na política europeia, especialmente no sul do continente: o grego Alexis Tsipras; o primeiro-ministro italiano Matteo Renzi; o primeiro-ministro francês Manuel Valls; o primeiro ministro espanhol, Pedro Sánchez, o deputado da Esquerda Unida, Alberto Garzón, o líder de Ciudadanos, Albert Rivera e o porta-voz do PP no Parlamento basco, Borja Semper; a presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen; são alguns exemplos. Em parte, isso pode acontecer por uma simples mudança de geração, que permitiu o surgimento de rostos mais jovens e frescos. No entanto, se aplicamos a teoria de Hakim, esta não será a única explicação.
Em 2010, Catherine Hakim acrescentou o capital erótico aos capitais apresentados pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu, que afirma que para vivermos em sociedade, devemos usar, essencialmente, os nossos capitais económico, social e cultural, ou seja, o nosso poder aquisitivo, a nossa rede de contactos e amizades e o nosso conhecimento da cultura e da arte. Ora, Hakim sugere que é preciso acrescentar um quarto tipo de capital: o erótico (a mistura de charme, elegância, beleza e sex appeal), que deverá ser usado sem ressalvas para avançar na vida e na carreira.

Segundo a mesma autora, estamos habituados a valorizar o “capital humano”, como um conjunto de habilidades que envolvem qualificações, instrução e experiência para um bom desempenho profissional. Mas, segundo ela, todos estes indicadores são insuficientes para avaliar pessoas que obtêm sucesso, tanto na vida social como profissional. Razão pela qual cunhou a expressão “capital erótico”, que leva em conta “a união de atrativos físicos e sociais que torna alguns homens e mulheres companhias agradáveis e bons colegas, atraentes para todos os membros da sua sociedade e, especialmente, para o sexo oposto.”
Talvez esteja aqui parte da justificação para que a apresentação do Plano de Recuperação Económica da Europa, na voz da Ursula Von der Leyen, tenha parecido muito mais interessante. Nos dias que correm, podemos perguntar ainda se as máscaras higiénicas interferem no processo? Claro que sim, a uns ajudam, a outros prejudicam! Voltarei novamente a este tema, em próximos artigos.

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