Correio do Minho

Braga, sábado

- +

“o episódio de Lisboa...”

A bacia cor de laranja

“o episódio de Lisboa...”

Ideias

2021-06-28 às 06h00

Filipe Fontes Filipe Fontes

De certa forma, o momento pandémico que se vive – ainda não se sabendo bem onde nos situarmos, apenas adivinhando uma esperança maior e mais real na ciência e nas vacinas – por mais contraditório que possa parecer, trouxe uma certa acalmia e silêncio sobre o nosso quotidiano, seja ele físico e material, seja ele social e mais intangível.
Por momentos, o espaço público parece que fica tomado pelo vírus e por tudo o que gravita e se relaciona com ele: vacinas e propagação, distanciamento e cerca sanitária, RT e contágios, epidemiologia e saúde pública, confinamento e desconfinamento, entre outras. Parece que congelamos o dinamismo do quotidiano e o tempo pára à espera que o vírus seja vencido, no mínimo vá sem direito a regresso. Por momentos, avistamos as nossas cidades em silêncio, com ruas sem carros e praças sem pessoas, restaurantes de porta fechada e museus sem gente para apreciar riqueza, céu limpo como há muito não se alcançava e varandas feitas, de facto, prolongamento da habitação.

Por momentos, infelizmente longos momentos, a vida parece tomada e diferente, indesejavelmente marcada por uma diferença não reclamada e generalizadamente rejeitada.
Talvez por isso é que notícias que retratam o que somos e o que fomos, que nos evidenciam que, afinal, aparentemente muito do essencial não mudou, conseguem-nos surpreender, ganhando um protagonismo ainda mais inesperado, por vezes impactante, tão impactante que se chega a percepcionar competir com a própria pandemia.
Não se fala da “marquise do Ronaldo”, tema do último texto, do futebol açambarcador do espaço televisivo ou dos desencontros políticos, sejam eles reais e naturais, cúmplices e artificiais. Fala-se sim, do caso ocorrido na Câmara Municipal de Lisboa e da partilha de informação pessoal que coloca em causa a denominada protecção de dados e segurança dos cidadãos.

E fala-se deste “episódio” infeliz ou desta “história” ainda não terminada porque, acredita-se, que a mesma é retrato fiel de um certo modo de estar e ser, de fazer e silenciar que se generaliza na nossa sociedade, que se afirma e impõe no nosso meio político alastrado à administração pública.
Não importa aqui perceber os detalhes de como tudo se processou, de quem é culpado e porquê, se teria sido possível evitar por acção ou omissão… Não importa aqui julgar, mas sim, fria e distanciadamente (quanto for possível), discernir sobre o que esta mesma realidade significa, o que a atitude revela- da pelos responsáveis demonstra e comprova perante todos nós.

Como alguém diria, há sempre três “coisas” e, aqui, encontramos: não há (nunca) culpados, há sempre desculpas e, na realidade, somos adversários dentro da própria equipa.
De tudo o que já conhecemos, o ocorrido corresponde a um procedimento antigo, sustentado numa lei anacrónica que todos questionavam mas ninguém conseguiu evitar ter que a aplicar ou induzir a sua alteração. No fundo, o ocorrido retrata um certo modo de fazer “porque sempre foi assim”. E porque sempre assim foi, está enquadrado e desculpabilizado. Não se questiona nem se acha estranho, não se provoca ou compara. Aceita-se acriticamente…

Depois, não há culpados, verdadeiramente culpados e responsáveis, porque há sempre uma vírgula fora do sítio, um procedimento tão inócuo quanto indispensável (que jamais poderia ter sido ultrapassado), porque há sempre alguém de menor dimensão hierárquica que se esqueceu de “fechar a porta” e tal era fundamental para a segurança e correcção da situação, porque há sempre um e-mail perdido ou uma assinatura que não se concretizou…
Por fim, concluiu-se que somos todos adversários dentro da mesma equipa e não partes solidárias de um todo (que estimulam e convergem para o mesmo fim). Afinal, não há culpados porque quem tem o poder da decisão “não pode tudo dominar, tudo saber e tudo verificar”. E, por isso, quem o ajuda nessa matéria é o responsável (porque, na verdade, foi incapaz de bem ajudar).

Mas, na verdade, perante a complexidade da “coisa”, também estes ajudantes não são capazes de, humanamente, abarcar tudo e socorrem-se de outras ajudas para verificar, analisar e produzir. Esses sim, que só verfiicam, analisam e produzem, é que são os verdadeiros elos incontornáveis do processo. Acontece que até estes mesmos se limitam a trabalhar em função do que lhes é colocado “à frente”, nada mais do que isso. Não são responsáveis pelas propostas que são apresentadas, as vontades formuladas e os desejos expressos, des- cobrindo-se que, afinal, se estes não existissem… nada de errado teria acontecido. Esta é, talvez, a parte mais triste: elementos da mesma equipa, que deveria respirar solidariedade, partilha e unidade, afinal uns crucificam os outros e estes silenciam-se e omitem-se…

Do “episódio de Lisboa”, guardo esta lição: o meio político e a administração pública em confronto e não em articulação, a decisão política e o procedimento administrativo sem perspectiva hierárquica e sem conformidade funcional, a identificação de responsabilidades e revisão crítica dos factos (para não voltar a acontecer) aniquilada pela preocupação de “eu não erro, eu não sou culpado”.
O potencial da política e da técnica não está na ausência do erro nem do anonimato da culpa, antes na constância da partilha, na segura solidariedade e na cumplicidade do risco. E na assumpção do papel de cada um. Não pode ser de outra forma. E a todos nós compete lutar para inverter esta realidade. Assim queiramos…

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho