Correio do Minho

Braga, sexta-feira

O encontro

Amarelos há muitos...

Conta o Leitor

2016-08-02 às 06h00

Escritor

Isa Pontes

Tinham combinado assim: Quem chegasse primeiro, deixaria a porta entreaberta. Era o sinal.
Ela olhou o edifício de cinco andares, onde se viam, aqui e além, letreiros de médicos, advogados e modistas. Bem na ponta do 4º andar, destacava-se um, de cores garridas, o qual indicava tratar-se do corpo de senhoras, com novas técnicas de acupuntura. Era ali, naquele andar.
Subiu as escadas e deslocou-se pelo corredor escuro, dando graças a Deus por faltarem algumas lâmpadas, no local.
A porta estava encerrada e voltou a dar graças a Deus. Tinha sido ela a chegar primeiro. Teria tempo para se acalmar. O seu corpo esguio parecia ligado a qualquer ponta elétrica. - Que coisa esquisita! Como é possível eu ficar assim?!
Andou pelo quarto e postou-se ante o espelho. Teve vontade de fugir.
Louca! Acorda! Olha para ti, os teus pobres braços a abanarem; a tua tez de tantos outonos, macilenta; encolhe um pouco a barriga mulher! As pernas estão duras, bem sei, mas a sua beleza, de outrora já se foi. Estás convencida que os olhos de um lago manso, azul, te salvam? Louca, pobre louca… Dá meia volta e foge, depois arranjas uma desculpa; trocaste o dia, a hora…
E, ao tentar abrir a porta para sair, tremendo ainda mais, ele apareceu.
Como sempre, trazia um livro na mão. Cadenciava o corpo naquele jeito inconfundível, calmo, sereno, dono de tudo à sua volta; indiferente às gentes, às banalidades, atento às pequeníssimas coisas. Mesmo na penumbra do corredor, adivinhou-lhe o sorriso breve que a fazia ficar parada em silenciosa contemplação. Ele!
Como era possível?
Haviam-se conhecido no Jardim Central. Ela recorria, com frequência, àquele espaço, para olhar as gentes, estudá-las, analisá-las, desnudá-las, para as fazer surgir em seus romances. Nada como estar parado num espaço público e VER. Era fantástico! Fazia sempre essa escolha, no início do outono. Ele, por vezes, aparecia no mesmo lugar, livro na mão e deixava-se ficar por lá uns bons tempos. Acreditava que ele não estava lá; tornava-se visível a sua ausência. O que lhe chamou a atenção, logo nos primeiros tempos, foi o sorriso que ele deixava escapar, às vezes, levantando os olhos das páginas do livro, e passeando-os pelas gentes. E os seus olhos, doces, meigos e apartados de tudo, também, eram da cor dos seus.
Um dia…
- Olá!
- Olá!
- Hoje traz um caderno… Escreve?
- Escrevo… umas coisas… e o senhor? Vejo-o sempre de livro na mão…
- Pois… não sei viver sem livros, são o meu grande vício. Lá em casa, a família é grande e torna-se complicado arranjar um espaço para mim, para a minha paixão, então fujo para este lugar que é imenso, cheio de verde e de sombras. Tomo as árvores por cúmplices dos meus sonhos, ou seja, do que os livros me fazem imaginar.
Pelos dias seguintes, por muitos dias, encontravam-se naquele espaço que passou a ser mágico para eles. A magia que os unia transformou-se, rapidamente, numa ansiedade sem limites. Já não podiam passar um dia sem se ver, sem se falar. Quando chegavam perto um do outro, já quase não falavam. Adivinhavam-se, sabiam do outro, tudo, só pelo olhar. Apaixonaram-se.
Mas…
No regresso a casa, sempre, ela interrogava-se: como é possível? Eu sou muito mais velha que ele! O meu corpo está um farrapo! Ele quase pode ser meu filho! Por quê tudo isto, agora, nesta altura da minha vida? Porque me eleva ele num pedestal de mimos? Porque me olha e adora daquele modo? Por quê?
E chegou o dia em que não adiaram mais toda a ansiedade e a pressa de se terem.
Estavam ali, os dois. Duas crianças feitas de tremuras e sem voz. Só os olhos feitos de anil se procuravam. Já tudo havia sido dito entre os dois; tudo jurado, tudo desfeito em nada, quando as nuvens escuras eram trazidas por ela…
A porta fechou-se.
- Meu amor… ( como nos grandes momentos era ele que sempre começava ) tenho algo para te dizer que é um pouco complicado, aborrecido, até… Estás a ver? ( e desabotoou a camisa ) tenho o peito ligado. Caí e dei tal pancada que tive de ir às urgências; puseram-me aqui um emplastro e ligaram-me. Desculpa-me… Logo havia de acontecer nesta altura…
Ela encheu-o de beijos, na boca, nos olhos, por onde calhava.
- Anda… anda… Espero-te há séculos meu amor! Anda, não vamos pensar na ligadura, eu terei cuidado.
E amaram-se. Ela espantou-se pelas horas todas em que esteve nos braços dele. Era a resposta a todos os dias e noites em que era dele, sem ele, no silêncio do seu quarto. Ficou a conhecer cada curva de seus braços, a tal cavidade de Bósforo que ouvira no filme “ Um Paciente Inglês “, ali, no seu pescoço, no comecinho do peito tapado com aquela faixa branca; brincou com os cabelos lisos, dele, e com o dedo, fez-lhe caracóis; com o mesmo dedo provocou-o no ventre; beijou-lhe as pernas duras e subiu por todo o seu corpo nu de Botticelli. Adivinhava, sob a ligadura, uma floresta por explorar mas, nem isso a fez parar nas suas descobertas que a enlouqueciam cada vez mais. Amou-o como se fora a última vez, embora fosse a primeira.
Depois, serenou, fechou os olhos para melhor sentir ele a passeá-la…
- Meu amor… meu amor… E cada sussurro provocava em si um gemido misturado com soluços de prazer. - Deixa-me ver os teus olhos, abre-os para mim…
Quando a tarde vinha caindo, saciados, adormeceram, mãos entrelaçadas, numa paz que não encontra formas de expressão. Eram a imagem da simbiose das coisas perfeitas que nada têm a ver com a matéria de que são feitas.
Quando ele ia sair, ela disse-lhe que ficaria um pouco mais, sairia depois. Ele disse-lhe que sim, beijando-lhe os olhos, pela última vez - Meu amor, levo-te comigo, levo os teus olhos… Tudo o que eu quero de ti, vai comigo…
Fechou a porta e, ao chegar ao fundo do corredor, já as lágrimas lhe saltavam dos olhos, num pranto incontido. Abriu a camisa - quase a rasgava - e arrancou num gesto brusco, a ligadura que o abafava, o estrangulava de raiva e tapava a deformação que se erguia bem no centro do seu peito, como se fora um dedo encolhido que ameaçava, a qualquer instante, disparar e transformar a sua vida num inferno.
Atravessou a rua, meteu pela estrada principal, andou uns bons metros e foi sentar-se num paredão, frente ao mar. A frescura do fim do dia serviu-lhe de balsamo, a imensidão do oceano trouxe-lhe a certeza de não estar só. Não tinha nenhum livro consigo.

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