Correio do Minho

Braga,

O eixo furado

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Ideias

2016-10-09 às 06h00

José Manuel Cruz

Que lugares-comuns conseguirei evitar em crónica em que revisite a vitória de Guterres? Conseguirei contornar o estereótipo bíblico, a justa de pastoril David contra insubjugável Golias, esse autómato de guerra? Sim, e até convém, já que davidezito um havia entre os apaniguados do suplantado filisteu, hoje matreira mulher saída dos interiores de outra mulher, búlgara irrompendo de alemã, como se com um jogo de matrioskas tivéssemos parte…

Poderei eu fugir a frases de belo efeito - a vitória da humildade sobre a arrogância, do mérito sobre a promoção nepotista, da personalidade sobre o pau-mandado? Conseguirei eu iludir essa tendência bem portuguesa para o delírio de grandeza, essa transferência transatlântica do mito sebastiânico - Guterres, o Reformador da ONU; Guterres, o Demiurgo da Nova Era?

Acompanhei o processo de eleição do Secretário-Geral da ONU com uma atravessada. Ia a missa pela metade quando se ventilou que o bom candidato haveria de ser mulher e oriunda dos “Países de Leste”. Alucinei, por momentos pensei que a velha ordem socialista estaria a pontos de ressurgir das cinzas.

Perdoem-me a fraqueza verbal, mas o “Leste” nunca foi um anódino determinante geográfico, pois não? Estamos inteirados, todos, de que existem umas etiquetas com a designação de pontos cardiais, que ao “Leste-Este-Nascente” se opõe o “Oeste-Ocidente-Poente”, bem ficando Portugal na ponta de cá, enquanto a Bulgária se encontra na ponta de lá, paredes-meias com a velha Grécia, por exemplo, que, encontrando-se a leste, nunca foi “Leste”, não é verdade?

Ao tempo dos dois blocos político-militares, a Grécia pertencia ao “Ocidente”, enquanto a Bulgária integrava o desafamado “Leste”. Nos dias que correm, porém, é a Bulgária tão ocidental quanto a Grécia ou Portugal o são. Assim, ultrapassada que está a clivagem civilizacional, morto e enterrado o “Leste” vetusto, o deslize semântico deveria parecer-nos uma saloiice pegada. Mas ele há por aí gente especializada em critérios pseudo-objectivos.

Não cilindraram Guterres com arranjos de última da hora. Suplantou Irina Bokova, mas teria perdido para ela sem melindres ou orgulhos feridos. Bateu a Directora-Geral da UNESCO aos pontos, e a mal-amanhada substituta por KO. A segunda vitória talvez lhe tenha dado uma satisfaçãozinha adicional.

A Merkel, que não devia achar Irina Bokova mulher quanto bastasse, e mesmo descrer de que esta búlgara fosse verdadeiramente de “Leste”, esperou que a derrotada saísse de liça para avançar com mocinha mais a seu jeito. Compôs cartas de recomendação a meias com Bruxelas. A opaca Kristalina prestou-se ao frete com uma salvadora licença ‘para ir ali e já venho’. À Merkel, chegou-lhe a patetice para perceber que é ela quem em breve saltará da carroça: pode haver um eixo Berlim-Bruxelas, mas o diktat aporta descorado a outras paragens.

Para fecho, lembra-me uma cantilena bem-disposta, aquele refrão trauliteiro “a bófia não manda aqui”. Dá para trautear substituindo o sujeito: “a Merkel não manda aqui…”

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