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O ídolo do futebol português que impôs o medo em Valença

O dente do javali

O ídolo do futebol português  que impôs o medo em Valença

Ideias

2022-06-26 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Alguns dos principais ídolos dos jovens da atualidade estão ligadas ao desporto. São atletas que atraem milhares ou milhões de admiradores devido aos seus dotes desportivos, mas também por conseguirem, alguns, obter lucros económicos em poucos anos de atividade profissional.
Um desses protagonistas portugueses, no que se refere ao futebol, foi o guarda-redes António Roquete, que defendeu a baliza da seleção portuguesa na primeira grande competição internacional, os Jogos Olímpicos de Amesterdão, de 1928. Nesta competição, Portugal obteve um desempenho de grande relevo, pois atingiu os quartos de final da prova, sendo aí derrotado pelo Egipto, por 2-1.
A história de vida de António Roquete é tão peculiar, que deu origem a várias reportagens, vários estudos e até à tese de doutoramento “António Fernandes Roquete (1906?1995): Um “ídolo” do desporto nas polícias políticas do Estado Novo”, de Pedro Miguel Coelho Serra (novembro de 2017).
Nasceu em 1906, em Salvaterra de Magros, obteve uma parte da sua formação na Casa Pia de Lisboa, onde ingressou em 1916 devido a dificuldades económicas dos pais, após o divórcio. Nesse colégio distinguiu-se na natação, mas principalmente no futebol. As defesas brilhantes que fazia serviram de promoção a um cartaz dos Jogos Olímpicos de Amesterdão, de 1928!

No documentário da RTP “Ídolos e Vilões, Intrigas e Escândalos. A PVDE Antes da PIDE”, António Fernandes Roquete é descrito como a primeira grande estrela do desporto português. Para além disso, era o “guarda-redes do Casa Pia e da seleção nacional, alto e poderoso, parecia um galã do cinema”.
Após o jogo entre Portugal e a Argentina, realizado a 1 de abril de 1928, e perante 20 000 espectadores, Roquete recebeu a oferta de um salário de 6000 pesetas mensais, uma fortuna na época, para se transferir para um dos principais clubes de Espanha. Contudo, segundo “A Ribalta”, de 8 de abril de 1928, a proposta foi rejeitada por Roquete por considerar “atentatória ao seu brio de português”. O célebre jornalista Cândido de Oliveira considerou, em 1935, que Roquete foi o único guarda-redes português “que conseguiu classe verdadeiramente internacional”.

Apesar de ser disputado por vários clubes nacionais e estrangeiros (entre os quais o SL Benfica) e de ter atuado por 16 vezes pela seleção portuguesa, em 1931 Roquete desapareceu repentinamente da ribalta desportiva nacional!
O Decreto n.º 20 125, de 30 de julho de 1931, destacou a importância para a segurança nacional das funções da Polícia Internacional de entradas e saídas do território português no registo e vigilância dos estrangeiros a residir em Portugal e ainda as eventuais espionagens aqui praticadas!
Foi nesta polícia que António Roquete foi admitido, no dia 30 de março de 1931, no cargo de agente da Secção Internacional da PIC. Posteriormente, Roquete referiu que tinha conseguido este emprego com a ajuda de um amigo da Casa Pia!

Segundo a tese de doutoramento, atrás referida, a imprensa noticiou que António Roquete iria passar a trabalhar “no posto da Polícia Internacional, na fronteira de Marvão”, e por esse motivo teria de deixar de jogar futebol!
Mas Roquete não ficaria muito tempo em Marvão, pois considerava um lugar “Triste, ferozmente agreste e desolado”. Relativamente às gentes de Marvão, Roquete afirmou que “eles lá vivem tão afastados do mundo… Sabiam vagamente que havia um Roquete: porém, tanto lhes dava tratar-se de um futebolista, como de um aviador ou político. Era uma pessoa de quem os jornais falavam…” (Id). Apesar do cargo na Polícia, Roquete continuava a receber propostas de clubes estrangeiros, como o Olympique de Mar- selha, mediante um salário de 2500 francos por mês, mas recusou.

No ano seguinte foi publicado o Decreto n.º 22 992, de 29 de agosto de 1933, que criava a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado. Logo de seguida, Roquete foi nomeado chefe do posto de Valença, assumindo as funções a 4 de setembro de 1933. A 14 de setembro desse ano o jornal “Notícias de Valença” dava as boas-vindas a Roquete, colocando-se “sempre ao seu dispor para tudo quanto possa prestigiar a Situação”!
Nos anos em que ficou em Valença, António Roquete jogou futebol no Sport Clube Valenciano, autorizando a entrada livre de jogadores de clubes espanhóis e adeptos, que se deslocavam a Valença para praticarem e/ou assistirem aos jogos de futebol.
Recorde-se que o posto fronteiriço de Valença, inaugurado a 28 de maio em 1932, era o segundo posto mais movimentado de toda a fronteira portuguesa.

Durante o período em que Roquete exerceu as funções em Valença, foram várias as queixas que recaíram devido ao abuso na atuação policial do posto de Valença. Os espanhóis queixavam-se que Roquete era um “ruin y analfabeto policia” que se considerava “Jefe Supremo del Puente Internacional” e, enquanto permitia, em dias de futebol, a passagem da fronteira por indivíduos sem quaisquer documentos, molestava “todas las personas educadas y de cultura” com humilhações desnecessárias (Serra, 2017).
Por Valença saíam muitos perseguidos políticos e ainda outros que tentavam fugir ao serviço militar obrigatório. Mas todos eles Roquete orgulhava-se de impedir a passagem!

A 18 de abril de 1934 o “Tribuna” refere que em Tui três portugueses, após passarem a fronteira sem documentos e serem detidos em Tui pela Guardia Civil, foram entregues à PVDE de Valença e torturados por esta. As agressões cometidas pelo “criminal que le llaman Roquete” levariam ao internamento no hospital de Valença de um dos emigrantes ilegais, em estado grave (Serra, 2017).
Apesar destas críticas, Roquete foi homenageado na sede do Sport Clube Valenciano, em 1935, com um Porto de Honra.
Em março de 1936, Roquete passou a fiscalizar “Toda a zona do Minho”, que englobava os postos de Caminha, Vila Nova de Cerveira, Valença, Monção, Peso (Melgaço) e S. Gregório.
António Roquete, que desempenhou importante ação repressiva em Valença, faleceu a 18 de dezembro de 1995, tendo sido enterrado em Salvaterra de Magos. É considerado o maior atleta do histórico Casa Pia Atlético Clube.

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