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O diplomata bracarense que salvou vítimas dos nazis

Oh não, outra vez a paixão pela educação!

O diplomata bracarense que salvou vítimas dos nazis

Ideias

2022-01-23 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Na próxima quinta-feira, 27 de janeiro, assinala-se o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, implementado pela ONU a 1 de novembro de 2005. Trata-se de um dia que recorda a libertação do Campo de Concentração de Auschwitz-Birkenau, em 1945, e os horrores perpetrados pelos Nazis.
No contexto dos direitos humanos e das vítimas nazis, os portugueses habituaram-se a ouvir falar na ação meritória levada a cabo pelo célebre Cônsul de Portugal em Bordéus, Aristides de Sousa Mendes, que emitiu milhares de vistos de entrada em Portugal, contrariando as ordens recebidas pelo Governo português e salvando desta forma milhares de Judeus de serem mortos nos Campos de Concentração Nazis.
O mês de junho de 1940 foi o mais intenso nas fronteiras portuguesas, nomeadamente em Vilar Formoso, por onde entraram no nosso país milhares de refugiados, nomeadamente Judeus, transportados em autocarros, comboios ou automóveis, muitos com vistos de autorização emitidos por Aristides de Sousa Mendes.

Contudo, um dos locais fronteiriços onde na altura se verificou uma tensão maior provocada pelos milhares de refugiados que queriam entrar em Portugal foi a região de Toulouse, Baiona, Irún e S. Sebastião.
Estando os Consulados de Toulouse e de Baiona sob a hierarquia de Aristides de Sousa Mendes, este não se coibiu de incentivar os respetivos colegas consulares a conceder o máximo de vistos a Judeus que quisessem entrar em Portugal.
Numa França então ocupada pelos alemães, e perante a aproximação das tropas Nazis a Bordéus, multidões de refugiados Judeus resolveram fugir para sul, aglomerando-se em Baiona, onde tentavam junto do consulado português dessa localidade obter os tão desejados vistos de entrada no nosso país.
Perante este cenário, Aristides de Sousa Mendes decidiu dirigir-se ao local onde, junto do respetivo Cônsul, tentou entregar vistos a toda aquela multidão desesperada!

O Cônsul de Portugal em Baiona, na altura, era o bracarense Faria Machado. De nome completo José de Faria Machado Pinto Borges Pacheco da Costa e Freitas, nasceu na freguesia da Sé, em Braga, no dia 19 de setembro de 1883 (a Divisão de Arquivo e Biblioteca do Instituto Diplomático – Lisboa, refere o nascimento a 19 de setembro de 1882). Depois de tirar o Curso Superior de Letras, este bracarense passou, de imediato, a exercer funções no Ministério dos Negócios Estrangeiros.
A ascensão diplomática de Faria Machado fez-se de forma vertiginosa e em vários países, nomeadamente no Brasil, na Itália, na Suécia e na Espanha. Foi secretário de legação no Rio de Janeiro, Cônsul de Portugal em Milão, Ourense, Baiona, Corunha, Huelva e Tui. Foi ainda adido em Estocolmo, na Suécia.

Foi este experiente diplomata bracarense que, perante os milhares de refugiados que circundavam desesperados o edifício consular de Baiona, resolveu pedir ajuda a Aristides de Sousa Mendes, seu superior hierárquico. Contudo, também deu conta da situação dramática que se vivia em redor de Baiona, às autoridades hierárquicas em Lisboa.
O alerta dado por Faria Machado, ao qual se juntaram outros alertas enviados pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros Britânico (desconfiados das enormes filas de Judeus que existiam em Bordéus) e ainda pelas intermináveis filas de fugitivos nessa região, provocaram também a desconfiança do Embaixador português em Madrid.
Receoso acerca do que se estava a passar em Bordéus e em Baiona, o Embaixador de Portugal em Madrid, Pedro Teotónio Pereira, resolveu deslocar-se a Bordéus, para verificar pessoalmente o que se estava a passar, deparando-se então com milhares de vistos concedidos por Aristides de Sousa Mendes, ordenando-lhe por isso que regressasse imediatamente a Lisboa!

Perante um processo disciplinar que logo lhe foi instaurado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, Aristides de Sousa Mendes defendeu-se dizendo que não podia desprezar a sorte “…que estava reservada a tanta gente se caíssem nas mãos do inimigo. Com efeito, eram numerosos, entre os fugitivos, os oficiais dos exércitos dos países ocupados anteriormente, austríacos, checos e polacos, os quais seriam fuzilados como rebeldes; eram igualmente numerosos os belgas, holandeses, franceses, luxemburgueses e até ingleses, que seriam submetidos ao duro regime dos campos de concentração alemães; havia intelectuais eminentes, artistas de renome, homens de Estado, diplomatas, da mais alta categoria, grandes industriais e comerciantes, etc., que teriam a mesma sorte.” (in: Processo disciplinar instaurado pelo MNE contra Aristides de Sousa Mendes. Arquivo Histórico do MNE).
Na resposta a esse processo disciplinar, Aristides de Sousa Mendes referiu várias vezes o nome do bracarense Faria Machado, dizendo que este o contactava amiúde, pois encontrava-se num impasse, sem realmente saber o que fazer com os milhares de refugiados que se aglomeravam junto do Consulado Português em Baiona, muitos deles ameaçando suicidar-se caso não obtivessem visto.

Na resposta à referida nota de culpa, Aristides de Sousa Mendes explicou que “Havia alguns dias que o Senhor Faria Machado, cônsul naquela cidade [Baiona], me telefonava a expor as dificuldades em que se encontrava em vista dos milhares de pessoas que assediavam a chancelaria”.
Deslocado a Baiona, Aristides de Sousa propôs ao seu “colega Faria Machado, como único meio de resolver as dificuldades de momento, conceder-lhes os vistos desejados. Era realmente meu objectivo «salvar toda aquela gente», cuja aflição era indescritível”.

O bracarense Faria Machado referiu, em resposta ao processo disciplinar levantando a Aristides de Sousa Mendes, que “no dia 18 ou 19 de Junho na Chancelaria do consulado de Portugal em Bayonne o cônsul de 1ª classe em Bordéus, Snr. Aristides Mendes e, arrogando a sua autoridade de superior hierárquico, começou concedendo vistos a toda a gente que os solicitava, alegando, ao que parece, que era necessário salvar toda essa gente”.
Retirado das suas funções diplomáticas devido a esse processo disciplinar, Aristides de Sousa Mendes não voltaria a Bordéus nem teve mais influência sobre a situação dos refugiados em Baiona. Neste sentido, a partir do dia 24 de junho de 1940, Faria Machado, o Cônsul de Portugal nessa localidade, apreciou os pedidos dos refugiados, um a um, concedendo vistos de entrada em Portugal apenas aos que eram autorizados pelo Governo de Lisboa.
Aristides de Sousa Mendes, em Bordéus, e o bracarense José de Faria Machado, em Baiona, foram dois Cônsules portugueses que foram apanhados no centro do desespero das vítimas dos Nazis! Ao primeiro, já foi feita justiça. Ao quase esquecido bracarense Faria Machado, falta fazê-la!

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