Correio do Minho

Braga, sexta-feira

O diabo tem destas coisas!

Investir em obrigações: o que devo saber?

Ideias

2016-11-20 às 06h00

Artur Coimbra

1. Um autêntico pesadelo não apenas americano mas universal é o que resulta da aparentemente inesperada vitória de Donald Trump nas eleições americanas, que representa um caminho inclinado de consequências imprevisíveis, num quadro de degradação da qualidade da democracia tal como a entendemos. Desde logo porque o anacrónico sistema eleitoral daquele país provoca grande estranheza por permitir que um candidato, como Hillary Clinton, que teve mais de 1 milhão de votos a mais que o opositor, tenha perdido as eleições. Uma distorção incompreensível que não se entende.
O que acabou por triunfar foi um candidato populista, primário, sem consistência política alguma, além de frágeis e prepotentes princípios como a defesa dos mais ricos, dos lobis das armas, do machismo mais empedernido e imbecil, do racismo mais impenitente, que já vem da sua família.
Trump é um novo-rico não recomendável, boçal, que se dá bem com ditadores e pouco com democratas, que faz gala em fugir ao fisco e em não pagar impostos, que insulta a dignidade das mulheres, que não se coibiu de um discurso xenófobo, misógino, contra as minorias, os imigrantes e as diferenças.
É um sujeito destes, que explorou as paixões mais primárias dos eleitores, os seus mais baixos instintos e que promete expulsar dois a três milhões de imigrantes do seu país e construir um muro na fronteira com o México, que, perante a incredulidade generalizada, se transformou no homem mais poderoso do Ocidente e do mundo, pelo facto simples de vir a ser o Presidente dos Estados Unidos.
Ninguém sabe o que vale, o que é capaz de fazer politicamente, para além de se perceber que estamos a falar de um líder perigoso, que faz o mundo correr o risco de ingressar em conflitos escusados. Há até quem fale na possibilidade de uma terceira guerra mundial, longe vá o agoiro!…
A esquizofrenia chegou ao poder mais uma vez, no país mais poderoso do mundo, deixando a humanidade perante um pesadelo assustador. O que é que serão os próximos meses e os próximos anos no mundo, ninguém se atreve a augurar. Estamos num momento absolutamente pavoroso, delicado, indefinido, incerto. Como afirmou o embaixador francês na capital ianque, no rescaldo eleitoral: “É um mundo que se desmorona sob os nossos olhos”!...
O alegado “sonho americano” corporizado em Trump transformou-se num pesadelo universal, sem qualquer dúvida.
No meio de todo este imbróglio, em que as redes sociais mais uma vez serviram interesses mesquinhos, minando os fundamentos da democracia representativa, por destruírem os conceitos da racionalidade e do equilíbrio, o perigo está nas repercussões que a vitória da direita conservadora, xenófoba e revanchista de Trump possa vir a desencadear pelo mundo fora e em especial na Europa. Há quem perspective a vitória da extrema-direita de Marine Le Pen nas próximas presidenciais francesas ou de Beppe Grillo na Itália.
A ameaça de contágio deste pesadelo é real, chegando ao ponto de haver quem sublinhe que a América pode sobreviver a Trump, o Ocidente é que talvez não.
É bom que os políticos, os pensadores e os decisores se debrucem sobre o fenómeno, para perceberem por que é que a democracia actual não está a funcionar devidamente, no sentido de satisfazer os legítimos anseios e as aspirações das populações, o que as impele para as opções radicais e extremistas a que estamos a assistir e que incomodam as nossas boas consciências.
Catastrofismo ou não, o certo é que o mundo é hoje um lugar demasiado inseguro para nele investirmos o melhor dos nossos sonhos!...


2. Notícia bem mais agradável é aquela que foi conhecida durante esta semana, no sentido de que o PIB português superou as expectativas e cresceu 1,6% no terceiro trimestre, face ao mesmo período do ano passado. Ficámos a saber - pasme-se - que Portugal foi a economia mais rápida da zona euro e que o PIB pode até bater a fasquia dos 1,2% inscritos no orçamento para 2017. Quem diria?!...
A boa notícia soma-se à de há uma semana, quando se ficou a saber da baixa dos números do desemprego, que está em queda contínua desde há meses, ao contrário do que sucedeu durante anos sucessivos. As exportações, o turismo e o consumo estão a fazer aumentar a riqueza do país. E ainda bem.
Óptimas notícias para um governo de esquerda que está a sair bem melhor que a encomenda. Para quem o catalogou depreciativamente de “geringonça”, num momento de péssimo gosto, aí está a resposta: um governo a fazer o melhor pelo país, a repor ordenados, pensões e direitos, a olhar para as pessoas e para os mais desfavorecidos, contrariamente ao que sucedeu no mandato anterior (que o tal piadético integrava em número dois), um executivo com credibilidade interna e externa, com a Europa a dar o beneplácito a mais um Orçamento de Estado (2017), sem grandes reparos, ao invés do que esperavam ansiosamente as pitonisas da desgraça que dominam a opinião publicada neste país.
Uma situação, obviamente, que faz desmoronar toda a estratégia política e comunicacional da oposição, sobretudo do PSD, que não vê chegar o “diabo” que tanto almeja, o panorama do “quanto pior melhor”, que se concretizaria nas más notícias sobre o andamento da economia portuguesa e nas dificuldades de convencer Bruxelas relativamente ao Orçamento para o próximo ano. O que não se verificou, e ainda bem para os portugueses. O “diabo” chegou é ao próprio PSD e sobretudo a Passos Coelho, que se vê acossado por um Rui Rio ambicioso e que está à espreita dos deslizes cada vez mais frequentes de quem já foi primeiro-ministro, de má memória e que, a continuarem assim as coisas, pode tirar o cavalinho da chuva, pois dificilmente lá voltará, antes sendo mais fácil prognosticar que Passos Coelho vá pensando no que fazer nos próximos anos, fora da liderança do seu partido. O PSD vai ter de reorientar a sua infeliz e ineficaz argumentação “anti-geringonça”, porque afinal a dita cuja está a funcionar, para bem dos portugueses, que Passos Coelho humilhou e triturou entre 2011 e 2015...
O “diabo” tem destas coisas!...

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