Correio do Minho

Braga, sexta-feira

O dia em que renasci

Amarelos há muitos...

Conta o Leitor

2016-07-25 às 06h00

Escritor

Ana Maria Monteiro

Acordei, como sempre, ao som do maldito rádio que mantenho há séculos sintonizado num canal de que nem sequer gosto e que, dia após dia, decido mudar sem nunca chegar a fazê-lo - por pura inércia. Uma inércia que me caracteriza, que faz de mim, desde sempre, o eterno postergador: entrego as declarações de rendimentos no último dia, mesmo que prepare os papéis com meses de antecedência; pago as contas de casa na data limite, ainda que dê baixa no extracto bancário no próprio dia em que as recebo; chego à estação de comboios no último momento e entro, sempre ofegante, no exato instante em que as portas se fecham automaticamente; encontro coisas de última hora para fazer, porque não suporto chegar um segundo adiantado ao que quer que seja.

Ao contrário de todas as pessoas que conheço, detesto as grilhetas do tempo e acabo vítima permanente do seu incontornável efeito.
À conta disto sou um perfeito exemplar de pontualidade e não me incomodo nada com os atrasos e falhas que acontecem aos outros, uma vez que os compreendo perfeitamente.
Combinei com o João, o Zé, o Francisco ou outro, encontrarmo-nos às 6 para assistirmos ao jogo e eles chegam apenas às 6 e meia? Quero lá saber! Eu estava lá a essa hora, cansado, suado e desalinhado de tanto que corri para me despachar porque antes me atrasei deliberadamente; eles, ao menos, podem ir na boa e descansados porque sabem que eu compreendo e não me importo de esperar enquanto me recomponho da estafa.

Sou assim, só não adio o que não posso.
Vivo na eterna esperança de que um acaso de última hora surja para me salvar de todas as pré programações que a vida tacitamente me impõe e que eu aceito.
Por isso estou no mesmo emprego há mais de vinte anos (para quê apenas melhorar? Eu quero o emprego perfeito), por isso nunca me casei (a princesa encantada poderia surgir depois e estragar tudo), por isso não conheço ainda o meu sobrinho mais novo de 4 quatro anos e que a minha irmã tanto insiste para que eu visite; “- Talvez no Natal vos visite”, digo-lhe sempre, mas sabendo de antemão que irei passá-lo como todos os outros, companheiro de mim mesmo e a recriminar-me por não me juntar às reuniões da família que amo (mas sei que estão bem e é quanto me basta). É que eles são tão fastidiosos…

Prefiro ficar (e aqui sem pressas) comodamente sentado no sofá que já conhece tão bem a forma do meu corpo e está adaptado a ele como um velho e querido sapato ao próprio pé.
Mas hoje não. Hoje o rádio acordou-me ao som do Paulo de Carvalho e do seu antigo “Depois do Adeus”. Que bela desculpa para permanecer mais um pouco no aconchego morno dos lençóis. Ele canta “Em teu corpo amor, eu adormeci, morri nele, e ao morrer renasci”.
Deixo-me assim embalar pela sua voz, música e letra e acabo por levantar-me (tarde, claro) com a música a continuar dentro de mim “…morri nele, e ao morrer renasci”.
Finalmente saio de casa preparado para começar a correria de sempre.
Está um belo dia de Primavera, cheira a vida renovada.

Apetece-me respirar este ar, usufruir da limpidez (de que raramente me apercebo) desta manhã primaveril.
Com as mãos nos bolsos, começo a caminhar calmamente, dou um chuto numa pedra do caminho (que me interessa? Não faço a menor intenção de vir a construir um castelo…).
E, sempre com a música a acalentar-me interiormente, penso; “Que se lixe! É hoje que vou chegar atrasado. E se, por felicidade, o chefe fizer algum reparo, pego na deixa e é desta que mando o emprego às malvas'.

Estou como ele canta; “o que faço aqui? Quem me abandonou? De quem me esqueci?”
Atravesso a praça do jardim. Ah, vou mesmo chegar atrasado!
Sinto-me bem, sinto-me livre.
Sento-me num banco e puxo dum cigarro.
Algumas pessoas passam e cumprimentam-me (devem conhecer-me após tantos anos, mas eu, como vou sempre com pressa, nunca reparei nelas). Retribuo os cumprimentos, claro.
Que bem me sabe este cigarro!
“…morri nele. E ao morrer renasci.”

Ligeiramente afastado de mim, sinto um movimento, alguém se senta no mesmo banco.
Num relance apercebo-me dumas pernas, é mulher.
Cruza as pernas. Todo o seu ADN se manifesta naquele cruzar de pernas e todo o meu ADN responde àquele movimento. A reação química que sinto é imediata, inequívoca e loquaz. 
Sei agora quem sou e o que faço aqui e não me interessa nem um pouco quem me abandonou ou de quem me esqueci.
Sei apenas que é no corpo que transporta aquela mulher que quero adormecer, que quero morrer.
Cumpre-se assim a profecia matinal: “e ao morrer renasci!”

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