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Braga, sábado

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O dia em que José Saramago passou em Padim da Graça

Saída de menores de território nacional

Conta o Leitor

2021-07-22 às 06h00

Escritor Escritor

Manuel C. Correia

A primavera era ainda uma criança. Os pequenos rebentos das árvores embelezavam a paisagem com um verde fresco e jovem. Os pássaros faziam-se ouvir numa total harmonia musical. Um pequeno regato corria em direção ao rio Cávado, levando as suas águas cristalinas, ladeado de ervas selvagens que cresciam ao sabor do vento. Ali o tempo parecia parado, até o silêncio da noite mordia os tímpanos à procura de ondas sonoras. As estrelas pareciam que viviam ali, com total ausência de luz artificial, até os gatos brilhavam mais no escuro, refletindo o brilho do luar e das estrelas nos seus olhos cintilantes.
Nas pedreiras os rapazes jogavam à bola junto à estrada principal, os automóveis eram raros e lentos na passagem, a bola corria entre pernas e pedras soltas, e, de vez em quando um dedo de um pé pontapeava a bola e uma pedra com uma unha levantada. Num desses dias um automóvel parou em frente à casa velha dos Mantas, a bola parou e a curiosidade juntou-se para ver quem era?
A porta abriu-se e saiu um homem bem vestido e de óculos bem graduados, rodeado de meia dúzia de rapazes sujos e mal vestidos, o homem olhou para eles e disse, Bom dia, então a jogar à bola, muito bem. E um deles o mais destemido, Bom dia, o senhor é familiar dos Mantas?
Ele respondeu, Quem são os Mantas?
Esses que vivem nessa casinha. Não eu só parei porque vi algo de especial nesta terra, neste preciso lugar. O homem afastou-se e caminhou em direção à casa dos Mantas, a porta estava entreaberta e lá dentro estava uma senhora a coser numa máquina de costura a pedal. Antes de entrar um homem que parecia mais um vulto andante, de sachola ao ombro caminhava em direção ao ribeiro, mas a olhar para trás com aquele olhar desconfiado. O homem observava tudo e todos ao seu redor, os rapazes observavam o homem. Entrou dizendo, Posso entrar?
E uma voz da senhora na máquina de costura respondeu, Faça o favor, mas tenha cuidado com as falhas no soalho. O soalho era velho com grandes aberturas que quem se descuidasse metia um pé entre tábuas.
O homem apresentou-se, Sou José Saramago escritor. Para ela ele era um estranho, como para os rapazes que escutavam à porta, ela retribuiu com o seu nome, Teresa, mais conhecida por Teresinha Manta. Ele teve uma conversa durante meia hora e ela rara vez deixou de dar ao pedal, pois era o principal sustento da casa. José Saramago viu naquela casa e naqueles irmãos a tristeza de alguém que já tinha tido tudo e agora o que tinham era a luta pela sobrevivência! Quando se despedia de Teresinha, a sua irmã Maria entrou e de pronto perguntou, Quem é este homem?
É um senhor que é escritor, José Saramago. Está bem, e dito isso desapareceu. As surpresas não paravam de acontecer, José Saramago cada vez ficava mais interessado e despediu-se com um bom dia e boa sorte. Os rapazes estavam à porta e afastaram-se olhando aquele homem que ficaram a saber que era escritor, e um deles até lhe disse, Então é escritor?
Sou rapaz e digo-te que o que estou a fazer é observar o nosso país para escrever um livro. Então vai escrever sobre a nossa terra? Vou escrever sobre todas as terras por onde passei e por onde passarei. Então vai ser um livro enorme?
Ele riu-se e disse,
Um livro não precisa de ser grande para ter o mais importante, e este local, sim é importante. O rapaz estava intrigado. Importante porquê?
Quando fores mais crescido vais compreender que esta terra e este local como esta família é muito importante para a história de Portugal, mas eu vou te tentar explicar, aqui parece que mundo está parado, diferente das grandes cidades, e, esta família é o espelho de muitas famílias portuguesas, em que a pobreza é acompanhada por uma vontade de viver. Mas esta família tem mais, pelo que eu posso ver, já foram uma família rica, mas que caíram em desgraça, e sinto no olhar da Teresinha uma doçura, e no irmão Tone manta uma revolta, e na Maria uma vontade de andar mais depressa, como se assim chegasse mais rápido ao seu destino. Mas, em geral, todos eles têm uma tristeza de quem foi abandonado. O rapaz ouviu e sorriu, pouco entendeu, e José Saramago despediu-se e os rapazes continua- ram a jogar à bola.

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