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“O dia em que a Terra parou”

O espantalho

“O dia em que a Terra parou”

Ideias

2020-03-29 às 06h00

Manuel Barros Manuel Barros

0 dia em que a terra parou” é, seguramente, a melhor definição para o momento difícil que estamos a viver. Uma conjuntura de grande complexidade que pressupõe uma mudança de paradigma, que implica uma aprendizagem individual e colaborativa e constante. Uma situação nova que nos convida a revisitar um filme de 1951 dirigido por Robert Wise , intitulado The Day the Earth Stood Still, baseado no conto Farewell to the Master, do escritor Harry Bates.
Um filme marcante, que narra a visita de um ser extraterrestre, que tinha como missão apelar para a paz entre os povos do planeta. Situação que estava a preocupar profundamente os habitantes de outros planetas. Um apelo pacifista ao fim da guerra fria, que estava ainda na sua fase inicial. Uma nave espacial aterra em Washington, trazendo o extraterrestre Klaatu e seu robô Gort. Portadores de um ultimato aos líderes da Terra, para que acabassem com as guerras e a corrida armamentista.
Entre muitos acontecimentos que sustentam a intensidade da ação do filme, que vão de momentos de violência, de desconfiança e de negociações políticas ao mais alto nível, no ambiente que se vivia de guerra fria, Klaatu observou a natureza violenta dos humanos, que imaginavam tratar-se de uma invasão soviética. Este belicismo dos “terráqueos” incentivou-o a sensibilizar a comunidade científica para a preocupação dos habitantes de outros sistemas estelares, com o fabrico de armas nucleares e o desenvolvimento dos veículos espaciais.
Para fazer sentir o seu desígnio, decidiu dar à humanidade uma demonstração de força, fazendo com que todos os aparelhos elétricos do planeta terra parassem de funcionar ao mesmo tempo, exceto os que fossem essenciais à vida, como nos hospitais, os aviões em pleno voo, ou noutras situações onde as pessoas estivessem mais vulneráveis. Antes de partir, entregou um ultimato aos cientistas, para se juntarem à ação pacífica dos outros mundos habitados, para dissuadir a sua destruição. Enfim, um filme de ficção científica, que merece ser revisitado.
Posteriormente Raul Seixas, um músico brasileiro atemporal pela atualidade das suas músicas, lançou uma música em 1977, atribuiu-lhe o título do filme, “o dia em que a terra parou”. Um tema que antecipa o momento em que estamos a viver. Fala sobre o dia em que ninguém mais saiu de casa. Neste tempo, que o mundo está em luta contra o COVID 19, assume o estatuto de profecia, pelo facto de falar no isolamento e na distância das nossas relações sociais com harmonia, solidariedade e a responsabilidade de todos os cidadãos. Como se fosse hoje!
No momento crítico em que estamos envolvidos, esta conjugação entre a ficção científica do escritor Harry Bates, a profecia de Raul Seixas a ideia de sociedade de sociólogo Émile Durkheim, é uma crítica ao conformismo e uma chamada de atenção para responsabilidade individual. Num encontro improvável com Toffler (1928-2016), que no seu livro A Terceira Vaga, lançado em 1980, escreveu “que milhões de pessoas poderão em breve passar o tempo em casa, em vez de sair para o escritório ou para a fábrica, é desencadear uma chuva imediata de objeções.”, no capítulo que intitulou como o “O chalé eletrónico”, onde nos imaginou a trabalhar em casa. Como estamos!
Constituindo a primeira linha desta guerra biológica, as forças do setor da saúde, da educação, da investigação científica e do setor social. Este é um contexto, que se distingue de todos os convencionalismos. Está a colocar desafios para que não estávamos preparados, pela definição das prioridades e pelos planos de contingência. Estão a centrar a nossa atenção e o nosso apoio no esforço dos profissionais de saúde, nas infraestruturas e nos meios de resposta disponíveis. Está a assumir o sistema educativo e os professores como uma força intermédia, submetidos a uma prova de grande complexidade, para assegurarem as suas funções organizacionais, pedagógicas e científicas, reinventados mecanismos de motivação e envolvimento das novas gerações. Um combate difícil, que paulatinamente se está a transformar numa guerra económica. A avaliar pela postura repugnante da Holanda e de outros países do Norte da Europa, pelo desnorte da Inglaterra, pela falsa displicência da Administração Trump, pela atitude prolixa da Rússia, pela ausência tática do médio oriente e pelo oportunismo comercial da China. Uma dinâmica internacional que vai ocupar, gradualmente, a primeira linha de um conflito que está longe de conhecer o fim, em que Europa vai ter que se manter unida e saber a ocupar o seu lugar, tal como o soube fazer, em circunstâncias anteriores.

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