Correio do Minho

Braga, sábado

'O dia em que a muralha da cidade-berço perdeu o coração…', por Sílvia Rodrigues

Investir em obrigações: o que devo saber?

Conta o Leitor

2010-08-27 às 06h00

Escritor

Isa a Louca percorria as muralhas, um pouco a titubear e muito a trautear umas quadras cantadas, ou melhor, esganiçadas ao desafio, ainda esta madrugada, com o compadre Santal da Confraria dos Amigos do Tintol.

Algo atordoada, encostou-se ao muro que achou estranhamente quente e vibrante. Já perdera a conta às vezes em que, em fins de tardes soalheiras, se amantara àquelas muralhas, guardadoras parcimoniosas de energia solar. Era estranho, de facto, às sete da manhã, após um acentuado arrefecimento nocturno, normal nestes primeiros dias de 2009, sentir ainda este magnetismo de bem-estar.

A Profetiza, amplamente conhecida como tal em toda a cidade-berço, não se delongou muito sobre o assunto, antes porém, achou que era a hora aritmeticamente certa de fazer jus ao epíteto. Apontou o dedo para os domínios celestes e vaticinou em dó maior :

- Hoje é um novo dia!

De facto, as suas profecias não eram de todo de uma clarividência arrebatadora, mas a ênfase e a convicção com que proferia as palavras faziam dela uma das figuras tipo da cidade de Guimarães.

Daí lembrou-se que era também conhecida por “a Poetisa”, pelos versos que fossilizava um pouco por todo o lado, onde as superfícies lhe toleravam a escrita. Possuía um terceiro epíteto, que o próprio nome carregava, mas desse fazia questão em não se lembrar.

Naquele momento, acometida por uma impetuosa inspiração, escreveu na muralha: “Do nosso adeus, faço o meu viver e das memórias…” Não conseguiu acabar. Um tremor de terra sacudiu as muralhas e fê-la recuar instintivamente. O forte espasmo, de alguns segundos culminou numa derrocada de pedras.

Isa a Louca pôs a loucura ao serviço das pernas que voaram pela avenida abaixo e apenas pararam na pastelaria Celeste. O alarido fez com que os ainda poucos clientes matinais acorressem ao local.

O espectáculo era de facto, incrível. Um enorme buraco de provavelmente quase dois metros de diâmetros esventrava a muralha. E o mais inaudito é que tinha a forma perfeita de um coração
Nos dias que se seguiram os vimaranenses facilmente ouviriam Isa a Louca a apregoar:

- A Muralha perdeu o coração, a muralha perdeu o coração!

As autoridades competentes, alertadas do sucedido chamaram com urgência uma equipa de arqueologia do Museu D. Diogo de Sousa.

Já naquela tarde, enquanto a equipa estudava a recuperação da parcela danificada, o Vereador da Cultura recebeu uma chamada, a informá-lo que houvera outra derrocada de pedras, desta feita na cripta mortuária, no subsolo da Igreja S. Domingos. O mais inverosímil é que a cratera deixada na parede tinha exactamente a mesma forma, embora com dimensões ligeiramente menores: sim, mais uma vez um coração! Se muitos estudiosos e letrados, tinham encarado a semelhança como mera coincidência, agora mostravam um certo pasmo.

Havia além do mais, um dado curioso. Junto encontraram segmentos ósseos, provavelmente humanos. Pediu-se a colaboração da sociedade Martins Sarmento para encontrar alguma causa de natureza geológica, arquitectónica, histórica ou cultural, ou seja uma explicação científica.

Os resultados foram inconclusivos. Sabe-se que os poucos vestígios de muralhas que hoje sobrevivem datam do reinado de D.Dinis,no século XIV Originalmente estas estendiam-se por dois mil metros e ligavam duas portas da cidade e oito torres. Actualmente, apenas resta um extenso pano, sendo o troço maior ao longo da Av. Alberto Sampaio. Sabia-se também que as muralhas passavam junto da Igreja S.Domingos, mas apesar de intensas investigações, ninguém conseguia apresentar uma razão plausível para o sucedido.

Decidiu-se então passar-se à restauração minuciosa da muralha. Mas algo estava errado. Muito errado. Já não havia pedra suficiente para recompor o buraco!
Na Câmara, o clima começou a ficar tenso e até já se falava em cabala, que isto não podia estar a acontecer, nas vésperas da aprovação do projecto para Guimarães, capital europeia da cultura 2012 .Daí, o vereador recebeu uma carta anónima que dizia:

O poeta já dizia: “Pedras no caminho? Guardo-as todas ,um dia vou construir um castelo!” Por isso, fiquei com algumas, e desde já peço que me desculpem, mas devolvo a carta que encontrei no chão”

Junto vinha um papel amarelecido pelo tempo, envolto numa tira de cabedal. O secretário, curioso esticou o pescoço e ainda conseguiu ler as primeiras linhas, embora a linguagem fosse algo estranha e a tinta quase apagada. Começava assim a missiva numa caligrafia cuidada provavelmente feminina:“ Do nosso adeus faço o meu viver e das memórias sofridas ergueremos dos nossos corações uma muralha que nada do que está por vir poderá separar. É da minha vontade que…”

Neste instante foi-lhe sonegado o direito de continuar a ler, já que o Vereador abruptamente dobrou o papel pois lembrara-se que o seu secretário tinha o mau hábito de dar com a língua nos dentes. Agora, o Vereador, aliviado, sabia precisamente o que tinha de fazer.

No dia seguinte foram buscar a pedra que tombara na cripta da Igreja a fim de colmatar a falha da muralha. As pedras encaixaram com uma perfeição assombrosa.
A carta encontra-se guardada a sete chaves na sociedade Martins Sarmento. Do resto do seu conteúdo nada se sabe ao certo.

Corre o boato veiculado em parte por Isa a louca que uma donzela da nobreza se teria apaixonado por um plebeu e que se terão matado já que lhes fora negado o direito de ficarem juntos. Teriam deixado como última vontade o desejo de os seus restos mortais serem unidos e emparedados nas muralhas que estavam a ser erguidas naquela época, mas que o pai, um muro de orgulho, considerou louco o pedido e que a teria mandado enterrar na igreja de S. Francisco.

Se vierem a Guimarães e passarem pelas muralhas dificilmente conseguirão ver alguma cicatriz do sucedido, mas dizem que em noite de lua cheia quando o amor passa de mãos dadas pela avenida Dr. Alberto Sampaio, que se consegue ver o contorno avermelhado de dois corações unidos pois o que amor uniu não pode o homem separar.

Deixa o teu comentário

Últimas Conta o Leitor

31 Agosto 2018

Ingratidão

30 Agosto 2018

Humanum Amare Est

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.