Correio do Minho

Braga, sábado

- +

O desportivismo de Portugal no Mundial de 1966

Como vai ser a proteção do consumidor europeu nos próximos anos

Ideias

2014-06-09 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Durante as próximas semanas, o nosso país irá participar na euforia provocada pelo Campeonato do Mundo de Futebol, que irá decorrer no Brasil. Não será difícil de prever que, durante os jogos da selecção portuguesa, as ruas deste país estarão quase desertas e contar-se-ão facilmente as pessoas que andarão nos locais públicos.
Ao longo dos últimos anos, a êxtase provocada pelos jogos da selecção portuguesa, que tem participado nas fases finais dos Campeonatos da Europa e do Mundo, são uma consequência dos meios de comunicação social, que evoluíram e trazem em directo estes e outros acontecimentos mediáticos.

De todas as participações portuguesas em Mundiais de Futebol, a de 1966, cuja fase final decorreu na Inglaterra, foi e continua a ser a mais memorável de todas. Passados 48 anos, ainda são muitos os que recordam com saudade e nostalgia os jogos que os portugueses efectuaram. No entanto, o mais marcante desse torneio, para além dos jogos efectuados, foi o desportivismo notável que os jogadores portugueses deixaram.

Em Inglaterra, os portugueses foram vencendo os jogos contra selecções de grande mediatismo, como o Brasil e a Hungria. E tudo isto, segundo o jornal ‘Diário do Minho’, de 4 de Agosto de 1966, “sem soberbas, sem atitudes, sem apreciações desagradáveis para quem quer que fosse”. Os jogos em que a selecção portuguesa participou foram um “modelo de correcção, de dignidade no desenvolvimento do desafio, da disciplina e de autêntico espírito desportivo. Se os nossos futebolistas marcaram na Inglaterra pela sua excelente preparação técnica, não sobressaíram menos pela beleza moral do seu desportivismo”. Por isso, este comportamento deve “envaidecê-los - e a nós também”.

Uma prova de grande desportivismo dada por Portugal ficou expressa na atitude de Eusébio, quando decidiu oferecer uma caixa de 12 garrafas de Vinho do Porto a Bobby Charlton, como prémio por ter marcado dois golos da Inglaterra no célebre jogo das meias-finais, Inglaterra-Portugal. E recorde-se que Portugal perdeu por 2-1, tendo Eusébio saído do relvado de jogo banhado em lágrimas, imagens que correram o mundo e que ainda hoje comovem muitas pessoas.
É curioso verificarmos que ao longo de todo o torneio desportivo, a comitiva portuguesa conservou, em gelo, cinco fardos de bacalhau e seis caixas de Vinho do Porto, para abrirem quando terminasse o Mundial!

Eusébio ganhou o prémio de mil libras (correspondente a 80 contos) por ter sido o melhor marcador do Campeonato do Mundo de 1966, uma vez que obteve nove golos, quatro dos quais de grande penalidade. Revelando uma solidariedade notável, Eusébio resolveu de imediato dividir este valor com o seu companheiro de selecção, José Torres!
Em honra do desportivismo dos portugueses, a selecção nacional recebeu uma placa de agradecimento, onde estava escrito ‘Dos Desportistas Britânicos’.

Antes do jogo da final, entre a Inglaterra e a Alemanha, Eusébio perdera um cheque no valor de 500 dólares (14.500 escudos). O jogador português comunicara, entretanto, que tinha perdido o cheque no Hotel Saxon, em Harlon, onde a comitiva portuguesa estava alojada. Como prova do respeito que os ingleses passaram a ter por Portugal, a “American Express Company” decidiu entregar ao mítico jogador português um cheque nesse mesmo valor!

Em Braga, todo este desportivismo português foi amplamente reconhecido. O jornal “Diário do Minho”, da sua edição de 4 de Agosto de 1966, destacou o “aspecto moral que devemos apreciar, para além mesmo da sua excelência técnica e actuação dos futebolistas portugueses no Campeonato Mundial”. E explicavam as razões desta apreciação: “Primeiro, porque foram modestos; depois, pela correcção do seu jogo”.

Das cerca de setenta selecções que iniciaram as eliminatórias para apuramento da fase final, houve muitas “importantes de orgulho, senhores de todos os segredos fadados só para a vitória. Os portugueses apareceram sem farroncas e sem favores de publicidade - e assim foram vencendo as primeiras provas eliminatórias, antes da ida à Inglaterra”.

As ruas de Braga e do país ficaram despovoadas, concentrando-se as pessoas em locais onde existisse uma televisão que transmitisse os jogos da selecção nacional.
O Dr. Abel Varela Seixas escreveu, na edição do jornal ‘Diário do Minho’, de 12 de Agosto de 1966, que em Inglaterra os portugueses foram vencendo a “hábil e científica Hungria; a aguerrida Bulgária; os enigmáticos - e de que maneira - coreanos; o famoso Brasil, crente duma perpetuidade, para sucumbirmos perante uma Inglaterra, adentro da sua Ilha e seguidamente vencermos o colosso soviético…”.

Até o Papa Pio XII disse que o desporto tinha assumido tais proporções, com o Mundial de 1966, que constitui um fenómeno típico da sociedade moderna, devido às multidões que enchem os estádios e ao interesse que desperta através da imprensa! Insistiu que o futebol é “um elemento de equilíbrio social, pelo convívio dos homens nas virtudes do espírito desportivo, e como factor de perfeição moral de cada um” (id).

Esperemos que o Campeonato do Mundo, que brevemente irá começar, seja sinónimo de desportivismo, idêntico ao que os portugueses deixaram no Mundial de 1966, em Inglaterra. Pois estes valores distinguem e elevam o carácter de cada um e a memória colectiva de uma nação!

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho