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O desasado

Geraldo Henriques

O desasado

Escreve quem sabe

2020-02-21 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Os pássaros não são estúpidos, palra o secretário-de-estado que não o deve ser. De onde lhe virá tanta ciência alada? Do Politécnico da Passarinha de Baixo? Convenhamos com o governante e acrescentemos: não serão estúpidos, mas, se o forem, tanto pior para eles. Para eles, sublinhe-se, não para nós. De que nos serve uma biodiversidade que acarreta incómodos? Já agora, por patriotismo de meter água, naturalmente: porque é que o oceano não recua, umas centenas de metros, com inteligência e proveito de gabinete? E se enchêssemos o Tejo de calhaus, por alturas do Terreiro do Paço? Matéria-prima que in loco não falta!
Como estará uma obra enguiçada de racional, e o governante que por ela levanta o bico, se tão a jeito cai invocar a natural inteligência de aves de estuário? Neste ponto, inflados de inteligência por decreto, que trocarão garças, flamingos, maçaricos e quem mais apouse: olha, vão fazer ali um aeroporto! Quem? Quem havia de ser: os homens! Achas, cala-te, mas é, que me estragas o apetite. É o que te digo! Só se forem estúpidos. Que novidade!
Quanto levará a papo cada passarinho com o despejo. Sim, sejamos inteligentes: se por lá andam, de avós para netos, desde os tempos de Adão – de antes, até, certamente –, não se encontrará causídico que patrocine questão ganhadora, que fixe propriedade por usucapião? E, com que nova inteligência de bazar vão eles inverter o que uma inteligência imemorial, entranhada, lhes dita?

Onde no mundo se intentou obra com estes óbices, experiência que possam fazer presente para esclarecimento público? Só não se diga que isso são coisas técnicas, sobre as quais leigo não pipia. Com o desassombro de quem pouco percebe de inteligência animal, e menos ainda de aviões e aeroportos, sabemos, contudo, que se avião tombar em avaria fatal, por pardelhame pouco inteligente que lhe passe nas turbinas, não será cara de «nunca imaginei» que exonerará quem se sente no mocho, réu que em última instância será o Estado, todos nós, em suma, ou não se deva ao «esforço dos portugueses» o ressaneamento de bancos e contas públicas. Por burra receita: ónus com que arca quem asneira não fez.
Qual é o risco plausível de um delírio socialista, que até leis se dizem dispostos a mudar, para que a teimosia de alguém vá avante? Estamos doidos, ou quê? O que é que nos falta para uma ditadura: prender os opositores? Já demos fé do que não se diria de semelhante teima de monarquia absoluta, se o reizinho embirrento fosse um Passos Coelho, ou dessa corda?
Os pássaros não são estúpidos! Quais? Os que nunca ressaltam em pára-brisas, para aterrarem com elegância mortal na valeta? Que nos diz um emplumado de ministério a estes descuidos suicidários de passaredo: que desconhece? Que é má língua?

Os pássaros, ainda vá que não vá: e a água? Os leitos de cheia? Não é a água um bem tão escasso, que melhor seja não a sujeitarmos a stresses escusados? Na escala oficial da aselhice, quantos pontos ganha um aeroporto lacustre? Não sugeria, dias atrás, em leito de passa-culpas, um ministro com voz de opereta, que melhor fora que as populações do Baixo Mondego pensassem em mudar aldeias para cotas mais altas?
Andamos em bolandas, e pena dá que assuntos desta natureza descaiam em argumentos de passarinho. No fundo, podemos não saber qual o melhor lugar para um aeroporto, sensação com que ficamos, no entanto, de que aquelas, as de estuário, é que seguramente não o serão. De Cavaco para cá, acabamos sempre com o sentimento de que o País deles não é o nosso, que o Desenvolvimento deles, manifestamente não é o nosso.

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